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Como transformar a paixão pela arte em um negócio de sucesso com impacto ambiental reduzido? Para a mineira Roberta Costa, a resposta está no sorvete.
Aos 44 anos, depois de duas décadas em Paris, ela deixou a arquitetura e a restauração para resgatar uma memória da infância, quando ajudava na sorveteria da tia, em Minas Gerais.
Em abril, inaugurou a La Crèma, no Quartier Latin, e rapidamente conquistou os parisienses. Nos fins de semana, chegou a receber 2 mil clientes por dia, com filas de até uma hora e meia. Em apenas um mês e meio, alcançou o resultado financeiro previsto para um ano inteiro.
O sucesso, impulsionado pelas redes sociais e pela imprensa francesa, tem um diferencial. A produção é 100% vegetal, os sorbets levam 75% de frutas e 90% das matérias-primas vêm da França. Roberta também aproveita frutas descartadas pela aparência e utiliza colheres de biscoito para reduzir o consumo de plástico.
A preocupação ambiental não é anunciada em placas ou selos. Muitos clientes sequer percebem que estão tomando um sorvete vegano. A proposta é mostrar que sabor e sustentabilidade podem andar juntos.
Com a repercussão, a La Crèma já despertou o interesse de grupos empresariais que querem levar a marca a outros países, inclusive ao Brasil.
Roberta, porém, prefere avançar com cautela e se prepara para o próximo desafio: manter o negócio aquecido durante o inverno parisiense.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Paris – O que a arte contemporânea tem a ver com sorvete? Para a mineira Roberta Costa, muita coisa. Foi da aproximação entre dois universos aparentemente distantes que nasceu a ideia de abrir uma sorveteria que se tornaria um dos hotspots do verão parisiense.
Aos 44 anos, Roberta vive há duas décadas na capital francesa. Deixou o Brasil para fazer um mestrado em artes na Universidade Panthéon-Sorbonne. Nos anos seguintes, dedicou-se à arquitetura e à restauração, até decidir mudar de carreira. A guinada, no entanto, tinha raízes antigas. Aos 11 anos, ela ajudava na sorveteria da tia, no interior de Minas Gerais.
Assim, com a memória afetiva da infância e a experiência em terras francesas, em 12 de abril, Roberta inaugurou a La Crèma aos pés do Jardim de Luxemburgo, defronte do Panteão, no coração do Quartier Latin.
Em pouco tempo, a sorveteria virou uma sensação. Filas de até uma hora e meia ao longo do dia, mesmo com duas concorrentes bem em frente à loja da brasileira.
Nos fins de semana, o movimento chegou a 2 mil clientes por dia. A demanda foi tanta que, em algumas ocasiões, Roberta precisou fechar as portas antes do horário previsto, porque o sorvete havia acabado. “Eu não posso ir mais rápido que a turbina”, diz, em conversa com o NeoFeed. “Eu sou humana.”
Em apenas um mês e meio, a La Crèma alcançou o resultado financeiro previsto para um ano inteiro. Na transição para a gastronomia, Roberta manteve um princípio que sempre orientou sua trajetória profissional e sua vida pessoal: a preocupação com o planeta.
“Queria falar com mais pessoas sobre ecologia, mas usando outra linguagem, que também envolvesse o trabalho manual, uma habilidade que sempre tive”, conta. A ideia era fazer um gelato com o menor impacto ambiental possível.
Para isso, Roberta começou com uma formação de três semanas na Carpigiani Gelato University, em Bolonha. De volta à França, passou a testar sua ideia em 2024, participando de eventos com um carrinho de sorvete movido por bicicleta elétrica.
No mesmo ano, uma iniciativa da prefeitura de Paris lhe deu a oportunidade de ocupar, por alguns meses, um contêiner às margens do Sena. Seu primeiro teste de mercado deu resultado.
Para abrir uma loja física, porém, a mineira precisou cumprir mais uma etapa: uma formação de oito meses, exigida na França para quem deseja exercer determinadas atividades manuais.
Depois de meses procurando um imóvel que reunisse boa localização, preço acessível e espaço suficiente, encontrou um pequeno ponto comercial no número 19 da rue Soufflot.
Sorvete contra o aquecimento global
Ali, não entra nada de origem animal. Mas o cuidado de Roberta com o meio ambiente não é anunciado em placas ou selos. Muitos clientes sequer imaginam que estão tomando um sorvete vegano.
Toda a produção é feita no local e acompanha a sazonalidade dos ingredientes. Os sorbets têm 75% de frutas na composição — de preferência aquelas que, embora próprias para o consumo, acabam descartadas por sua aparência. O sorvete de pistache, um dos mais vendidos, leva 22% da semente triturada.
Para reduzir as distâncias percorridas e, consequentemente, a pegada de carbono da sorveteria, 90% das matérias-primas vêm da França.
Uma das exceções é a manga, proveniente da Espanha. No caso de produtos importados, como chocolate, café e baunilha, a regra é escolher fornecedores com certificações de sustentabilidade. Para evitar o plástico, as colheres são feitas de biscoito.
Roberta usa açúcar refinado de beterraba e acrescenta mais fibras vegetais do que o habitual. A intenção não é necessariamente criar um “sorvete fitness”, mas oferecer uma sobremesa com uma composição nutricional mais limpa — e, claro, ambientalmente mais responsável.
São cerca de dez sabores por dia, com preços entre € 4,50 e € 7,50. Baunilha, pistache e avelã estão entre os carros-chefe. O de café, preparado com grãos brasileiros da Terres de Café, é um dos xodós da fundadora.
A sorveteria ecologicamente engajada de Roberta teve um aliado inesperado no verão parisiense: o aquecimento global. A França registrou sua estação mais quente desde 1900, início da série histórica, segundo a Météo-France, com 53 dias de ondas de calor.
Capturada pelo algoritmo
Quando as altas temperaturas se somaram à exposição nas redes sociais, a popularidade da La Crèma explodiu. Roberta nunca investiu em marketing de influência, mas a sorveteria acabou capturada pelos algoritmos.
Nas primeiras semanas de funcionamento, um vídeo no TikTok do influenciador Ali From Paris ultrapassou 400 mil visualizações. Depois dele, vieram muitos outros e a La Crèma se tornou a “sorveteria mais viralizada” da cidade.
A imprensa francesa também ajudou a projetar a marca, com reportagens no jornal Le Parisien, na revista Time Out Paris e na rede TF1. O jornal Les Echos foi além e incluiu o sorvete de baunilha de Roberta entre os cinco melhores da França na temporada.
O crescimento exigiu uma rápida ampliação da operação. A equipe inicial, de apenas três pessoas, chegou a 29 funcionários durante a alta temporada, encerrada no fim de setembro.
A exposição nas redes trouxe também efeitos indesejados: “Tivemos comentários ruins no Google por causa da fila de espera”, conta.
O sucesso dos primeiros cinco meses de operação levou Roberta a receber propostas de expansão de empresas de franquia interessadas em levar a marca a mercados como Suíça, Bélgica, Emirados Árabes Unidos e Marrocos. Houve convites para levar a La Crèma para o Brasil.
Mas a empresária é cautelosa. Por enquanto, ela prefere ficar no 5º arrondissement de Paris — embora participe pontualmente de eventos fora da capital francesa.
Além dos visitantes atraídos pelo hype, a La Crèma conquistou uma clientela fiel, identificada com os princípios ambientais da marca e com os próprios sabores. O público é formado mais por parisienses do que por turistas.
E são eles que dão confiança a Roberta para enfrentar o próximo desafio: manter o negócio aquecido quando as temperaturas caírem e o sorvete deixar de ser a escolha óbvia. Por enquanto, a oferta se resume a um chocolate quente.
O desafio agora é manter o negócio aquecido durante o inverno parisiense.










