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Viajar para viver a experiência ou para provar que esteve lá?
Com humor, ironia e cores saturadas, o britânico Martin Parr expôs as contradições do turismo de massa. Quase 50 imagens de sua série “Mundo Pequeno” estão em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo.
No Louvre, uma multidão tenta fotografar a Mona Lisa. Em Veneza, turistas fazem fila para posar com uma gôndola, sem embarcar. Perto da Torre de Pisa, braços erguidos repetem a clássica ilusão de segurar o monumento.
“Muitas vezes as pessoas tiram a foto, mas não têm a experiência”, diz ao NeoFeed o curador João Kulcsár.
Morto em dezembro de 2025, aos 73 anos, Parr dizia fazer fotografias “disfarçadas de entretenimento”. Por trás das cenas divertidas, revelava o consumismo e as desigualdades sociais.
A exposição também oferece cenários para fotos, colocando o visitante diante da mesma tentação que vê nas imagens.
Depois de rir dos outros, será que conseguimos guardar o celular?
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Quem visita o Museu do Louvre, em Paris, para ver a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, terá de enfrentar uma horda de pessoas com os celulares erguidos, tentando fotografar a pintura mais famosa da humanidade. Se a ideia é apenas registrar a visita, mesmo de longe, saiba que não está só.
Desde o começo de sua carreira, o fotógrafo britânico Martin Parr voltou suas lentes para o comportamento dos turistas pelos cinco continentes. Quase 50 imagens da série Mundo Pequeno estão em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo. Uma delas foi feita no Louvre e mostra uma multidão tentando fotografar a Gioconda.
“Muitas vezes as pessoas tiram a foto, mas não têm a experiência”, conta ao NeoFeed o curador da mostra, João Kulcsár. “Você tem de provar que esteve lá. E isso foi potencializado com as redes sociais.”
Uma foto de Parr em Veneza deixa claro esse comportamento. Ele registrou uma fila de turistas perto de uma gôndola. Parece que esperam para passear por um dos canais, mas estão ali apenas para tirar uma foto com o barco e seguir adiante.
Parr observava as pessoas com humor e ironia. Em um gramado perto da Torre de Pisa, várias pessoas esticam os braços em direção ao monumento, como se tentassem empurrá-lo. Fotografada de um ângulo diferente daquele escolhido pelos turistas, a cena ironiza a pose clássica em que, por ilusão de óptica, eles parecem segurar a torre para impedi-la de cair.
Morto em dezembro de 2025, aos 73 anos, Parr nasceu em Epsom, no sudeste da Inglaterra. Começou a fotografar influenciado pelo avô, um fotógrafo amador. O interesse pelo comportamento das pessoas está na gênese de sua obra.
Parr estudou fotografia na Universidade Metropolitana de Manchester e trabalhou como fotógrafo oficial da Butlin’s, famosa rede de resorts britânica. Observar os hóspedes à beira da piscina ajudou a desenvolver seu olhar agudo para momentos ordinários da vida cotidiana.
Em seu trabalho, Parr deu atenção especial a uma classe média em ascensão, que ampliava seu poder de consumo durante os anos de governo de Margaret Thatcher (1979–1990).
“Comprar e consumir é uma parte do que somos”, disse Parr em uma entrevista. “É por isso que o consumismo é um assunto tão importante.”
Viajar também fazia parte desse desejo de consumir. Sua linguagem se aproximava da publicidade. Com suas cores saturadas, Parr marcou uma virada na estética da fotografia documental, então dominada pelo preto e branco. Quando se candidatou a integrar a prestigiosa agência Magnum, quase não foi aceito, conta Kulcsár.
“Porque ele era muito diferente. O [Henri Cartier] Bresson não gostava do trabalho porque não era uma fotografia documental clássica”, diz o curador. “Ele trabalhava com cor, usava flash. E ninguém fazia isso na época.”
Cair em contradição ou resistir à tentação?
A mostra traz ativações que permitem ao visitante fotografar-se em um cenário virtual e em um espaço que reproduz um resort, com areia estampada em um vinil no chão, boias e cadeiras de praia.
Nesse momento, qualquer um pode se ver em contradição: enquanto observa a incapacidade dos turistas de resistir à tentação de fazer uma foto, o próprio visitante pode não resistir ao desejo de sacar o celular para registrar que esteve ali. A princípio, o curador ficou reticente quanto à inclusão dessas ativações:
“Quem faria uma foto vai fazer uma foto de qualquer jeito. Mas vai ter aquele visitante que vai fazer uma leitura crítica, vai pensar um pouco e se questionar se vale ou não fotografar. É por isso que eu gosto do trabalho do Parr. Ele te pega pelo humor, pega pelo universal, mas daí tem a mensagem.”
Parr dizia fazer fotografias “disfarçadas de entretenimento”. Seduzidas pelo colorido vibrante e pelo humor, suas imagens revelam outras camadas quando observadas com atenção.
Em uma foto feita na Gâmbia, ele registrou o desconforto de uma turista branca abordada por moradores locais que tentam vender souvenirs. A cena evidencia as desigualdades sociais que marcam o turismo em diferentes partes do mundo.
“Essa é a riqueza do trabalho: permitir diversas interpretações. É uma polissemia da imagem. Hoje, você pode ler o trabalho de um jeito e, amanhã, de outro completamente diferente”, ressalta o curador.
A mesma leitura crítica também esteve presente em Martin Parr: Global Warning, exposição que ocupou o Jeu de Paume, em Paris, de 30 de janeiro a 24 de maio de 2026.
Com cerca de 180 fotografias, a mostra relacionou os excessos do consumo e do turismo de massa à crise climática. Foi concebida antes da morte do fotógrafo, em colaboração com o curador Quentin Bajac.
“Totalmente preguiçoso e desatento”
Aos 14 anos, Martin Parr recebeu no boletim escolar a observação: “Totalmente preguiçoso e desatento”. A história provou que o professor estava errado: suas fotos mostram alguém atento ao que acontecia ao redor. Sua trajetória também revela o quanto trabalhou.
Parr integrava a agência Magnum Photos desde os anos 1990 e a presidiu entre 2013 e 2017. Ao longo da carreira, publicou mais de cem livros com suas séries fotográficas. Dois deles, Life’s a Beach e Real Food, estão na exposição para consulta.
Pouco antes de morrer, organizou totalmente preguiçoso e desatento, seu primeiro e único livro dedicado à própria vida, uma autobiografia em imagens.
Lançado no Brasil em setembro de 2026 pela editora Olhares, o livro reúne 150 imagens: dos primeiros registros e fotos de família a referências de outros fotógrafos, ensaios célebres e trabalhos da maturidade.
Em textos diretos, Parr conta histórias de sua vida: a relação com o avô, o mau desempenho na escola e as mudanças na fotografia, do analógico ao digital e ao uso dos celulares.
Embora andasse sempre com a câmera pendurada no pescoço, nos últimos anos, ele às vezes deixava o equipamento em casa e levava apenas o celular. Mas o olhar de fotógrafo continuava presente.
“Posso ir a um festival só pela diversão e não levar a câmera. Não vou me aposentar como fotógrafo”, escreveu. “Prefiro morrer antes. Aí terei de me aposentar, não vou ter escolha.”











