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Neste domingo, 1º de novembro, cerca de 60 mil corredores tomarão as ruas de Nova York para uma das maratonas mais famosas do mundo. Entre eles, 200 atletas da Achilles International, ONG que promove a inclusão de pessoas com deficiência no esporte.
Com suas camisetas amarelo-limão, cadeirantes, pessoas com deficiência visual ou auditiva e usuários de próteses enfrentarão os 42,195 quilômetros da prova, acompanhados por 250 voluntários.
Fundada em 1983 pelo americano Dick Traum, primeiro amputado a completar uma maratona com prótese, a Achilles já apoiou 150 mil pessoas no mundo.
No Brasil, a organização reúne cerca de 600 integrantes, sob a coordenação de Edson Santi, que teve poliomielite na infância e descobriu o handcycle aos 50 anos.
Para ele, a Achilles vai além das corridas. “Virou uma grande família”, diz ao NeoFeed. E resume sua filosofia: “Trata-se de encontrar uma nova forma de viver”.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Nova York — Neste domingo, 1º de novembro, cerca de 60 mil corredores participarão da TCS New York City Marathon, a maratona de Nova York. O evento atrai às ruas aproximadamente 2 milhões de torcedores, faça frio ou faça calor. Em meio aos atletas, alguns chamam a atenção.
Vestidos com camisetas amarelo-limão, os integrantes da Achilles International, acompanhados por seus guias, emocionam o público ao superar obstáculos que vão além dos 42,195 quilômetros da prova. Entre eles estão cadeirantes, pessoas com deficiência visual ou auditiva e usuários de próteses. Embora disputem categorias específicas, compartilham com os demais participantes o mesmo percurso e a alegria de cruzar a linha de chegada.
A edição deste ano marca os 50 anos do percurso da maratona pelos cinco distritos de Nova York, inaugurado em 1976, nas comemorações do bicentenário dos Estados Unidos. Antes, a prova se limitava ao Central Park. Em 2025, o evento bateu o recorde mundial de concluintes, com 59.226 corredores. Para 2026, mais de 240 mil pessoas de 160 países se candidataram ao sorteio de vagas, quase 20% acima do ano anterior.
Fundada em 1983, a Achilles já proporcionou apoio, treinamento e suporte psicológico a 150 mil pessoas em todo o mundo. Neste domingo, a ONG levará cerca de 250 voluntários para assessorar 200 atletas.
Um deles é Fábio Faborges, de 46 anos, de Araçoiaba da Serra, no interior de São Paulo. Ele vai correr na categoria handclycle — bicicleta de três rodas movida por força braçal. Faborges não é novato: em 2017 ele ficou em terceiro lugar, ao completar a prova em 1 hora e 29 minutos.
Os cadeirantes, sejam os de handcycle ou os que usam cadeiras de rodas adaptadas, são acompanhados por guias em bicicletas. É a primeira categoria a largar — às oito da manhã, meia hora antes dos corredores de elite.
Os corredores com deficiência visual percorrem o trajeto junto aos demais maratonistas, acompanhados por dois guias. Já as pessoas com deficiência auditiva e os usuários de próteses contam com o apoio de um guia durante a prova.
Para os participantes de fora de Nova York, a Achilles oferece tarifas especiais em hotel, transporte até a largada e de volta à hospedagem, além de apoio logístico, alimentação e assistência médica. Tudo de graça, exceto a hospedagem.
Muito além das corridas
A Achilles conta com 33 núcleos distribuídos por 21 estados americanos e outros 34 em 17 países. No Brasil, a organização está sediada em São Paulo, sob a coordenação de Edson Santi, atleta de handcycle, modalidade de ciclismo praticada em uma bicicleta impulsionada com as mãos, à qual ele se dedicou a partir de 2010, aos 50 anos.
Desde então, Edson já participou das maratonas de Nova York, Berlim, São Paulo e Rio de Janeiro, além da Maratona do Corpo de Fuzileiros Navais, em Washington, e de uma edição virtual realizada durante a pandemia.
Nascido em 1960, ele contraiu poliomielite na infância, passou por diversas cirurgias, e optou por usar muletas — apesar de morar em um apartamento de quatro andares, sem elevador. “Meu torso atlético vem daí”, diz ao NeoFeed.
Em 2010, um médico sugeriu uma cadeira de rodas. “A princípio, vi a alternativa como uma regressão”, lembra. “Engano meu: ganhei uma mobilidade que jamais tive antes. Inclusive, a oportunidade de andar de mãos dadas com a minha esposa no shopping.” Para acomodar a nova realidade, mudou de apartamento.
Para continuar se exercitando, Edson experimentou diferentes esportes até descobrir o handcycle. Em uma prova de 15 quilômetros, do Obelisco do Ibirapuera ao Aeroporto de Congonhas, enfrentou um percurso íngreme e exaustivo. “Mas me animei com a volta”, brinca, lembrando que joelhos foram feitos para andar — os ombros, não.
Nesta prova, ele conheceu Mário Mello, o então responsável pela seção brasileira do Achilles. Não demorou para Edson se envolver, ajudando a organização a montar uma diretoria, e a registar, em 2018, um CNPJ para a entidade.
A Achilles Brasil tem hoje cerca de 600 membros ativos, com crescimento orgânico e sem custo para se associar. Cerca de 80% dos atendidos são de baixa renda e 100% dos guias e do conselho são voluntários.
A maior parte dos atletas tem deficiência visual, outros auditiva, além de cadeirantes e um crescente número de pessoas com Transtorno do Espectro Autista. “Considero-me um regente de uma grande orquestra, casando atletas com deficiência e os guias que assessoram nas corridas e treinos”, resume Edson.
Com o apoio de voluntários, a Achilles conquistou patrocinadores como a Track & Field, que organiza corridas pelo país e garante aos atletas isenção de inscrições e outras despesas. “Contamos também com o apoio de empresas e pessoas físicas.
“Esses recursos garantem nutricionistas, alimentação nas provas e massoterapeutas com deficiência visual, também integrantes da Achilles”, diz Edson.
Para ser guia da Achilles, não é preciso correr: entre 30% e 40% apenas caminham. A organização também viabiliza a participação de atletas em provas no Rio de Janeiro e em corridas da Track & Field. “Ajudamos com a inscrição e a busca de um guia, mas não podemos crescer sem garantir voluntários suficientes, que passam por seleção e treinamento”, ressalta Edson.
Os laços entre os integrantes da Achilles vão além das competições. Nos intervalos entre as corridas, o grupo organiza passeios a museus e eventos culturais. “A Achilles Brasil virou uma grande família”, diz.
“Há pessoas que sofreram um acidente de carro ou levaram um tiro e nunca mais puderam andar. Para elas, o mundo parece que vai acabar. Mas não é o caso: trata-se de encontrar uma nova forma de viver.”
O pioneiro da inclusão
Foi o que motivou Richard “Dick” Traum a fundar a Achilles, em 1983. Sete anos antes, ele se tornou a primeira pessoa amputada a completar uma maratona usando uma prótese — a de Nova York, em sete horas e 24 minutos.
Empreendedor diplomado com MBA e PhD em psicologia industrial pela New York University, Traum perdeu a perna direita aos 24 anos em um acidente de carro. Desde 1976, ele participou de mais de 70 maratonas — inicialmente usando sua prótes e, mais tarde, com uma handcycle .
Em 1993, correu de muletas ao lado do presidente Bill Clinton, em Washington. Completou sua última maratona de Nova York em 2023, aos 82 anos, um ano antes de morrer.
Seu obituário no The New York Times destacou os 36 anos à frente da Achilles, período em que transformou a organização em uma rede internacional de apoio a atletas com deficiência, oferecendo treinamento gratuito e acompanhamento psicológico.
“Quando um corredor sem deficiência é ultrapassado por um deficiente físico, ele muda sua percepção sobre a capacidade de quem tem alguma deficiência”, disse ele em entrevista à CNN em 2012. “E este feito também muda a autopercepção do atleta com deficiência”.









