Ler o resumo da matéria
A decisão do Banco Central Europeu (BCE) de elevar sua taxa básica para 2,5% e a inflação de 5,4% nos EUA reacenderam preocupações sobre a política monetária brasileira. O Copom, que se reunirá em breve, enfrenta um dilema: a inflação doméstica está em queda, mas o ambiente internacional se tornou mais adverso com juros em alta nas principais economias.
Economistas acreditam que o aumento de juros no exterior pode impactar o Brasil, pressionando o câmbio e a inflação. O BCE e o Federal Reserve estão lidando com inflação persistente, especialmente relacionada a choques de energia. Isso pode limitar o espaço do Copom para cortes na Selic, que atualmente está em 14%. Embora haja espaço para afrouxamento monetário, o tom da reunião do Copom pode ser mais cauteloso, com possíveis cortes adiados ou reduzidos em magnitude. A política monetária brasileira, embora restritiva, deve ser monitorada em relação às decisões dos bancos centrais internacionais.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A decisão do Banco Central Europeu (BCE) na quinta-feira, 10 de setembro, de elevar sua taxa básica para 2,5% e a divulgação logo em seguida da inflação de 5,4% no atacado dos Estados Unidos reacenderam uma preocupação que o Brasil vinha tentando deixar para trás: o risco de que o ambiente internacional volte a pressionar a política monetária doméstica.
A reunião do Copom da próxima semana, que até poucos dias atrás parecia caminhar para mais um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic – hoje em 14% ao ano –, agora se insere em um cenário mais complexo, marcado por juros em alta nas principais economias e por uma nova rodada de choques de energia.
Economistas ouvidos pelo NeoFeed admitem que o novo ciclo de elevação de juros no Primeiro Mundo tende a impactar o País, mesmo de forma indireta, uma vez que a política monetária brasileira nunca opera isolada. Mas não cravam que o movimento do BCE e a tendência do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, de também aumentar os juros sejam adotados pelo BC na semana que vem.
Há fatores, porém, a serem levados em conta. Quando os juros sobem nas economias centrais, o diferencial de juros — que ajuda a atrair capital estrangeiro e estabilizar o câmbio — tende a diminuir. Isso pode pressionar o real, encarecer importações e reaquecer a inflação, justamente quando o BC tenta consolidar a convergência para a meta.
Além disso, o choque energético global afeta o Brasil de forma indireta. Embora o País seja menos dependente de importações de petróleo do que a Europa, os preços internacionais influenciam combustíveis, fretes e custos industriais.
O movimento do BCE de elevar os juros não foi isolado. Ele reflete a combinação de inflação persistente, petróleo acima de US$ 100 e incerteza geopolítica crescente. A zona do euro, importadora líquida de energia, enfrenta uma inflação de 3,3% em agosto – longe da meta de 2% -, com a energia disparando mais de 14%.
Esse choque, provocado pela guerra no Oriente Médio e pela ameaça ao fluxo de mercadorias no Estreito de Ormuz, elevou os rendimentos dos títulos europeus e reforçou a percepção de que o ciclo de aperto monetário ainda não terminou.
Analistas europeus já falam em novos aumentos até dezembro, e o BCE admite que a trajetória futura dependerá da evolução do conflito e dos efeitos secundários sobre salários e preços.
Nos Estados Unidos, o quadro também se deteriorou. A inflação ao produtor de 5,4% em agosto, embora alinhada às expectativas, foi suficiente para elevar a probabilidade de alta de juros na reunião do Federal Reserve para 74%.
Os mercados já precificam ao menos um aumento até outubro, enquanto os rendimentos dos Treasuries de 10 anos ultrapassaram 4,9%, o maior nível desde outubro de 2023. O petróleo WTI acima de US$ 100 e a gasolina acima de US$ 4 por galão por metade do ano reforçam a pressão inflacionária.
Para o Fed, que vinha tentando calibrar uma desaceleração suave da economia, o choque energético global torna mais difícil manter a postura de pausa.
Reflexo no País
Esse ambiente externo mais duro chega ao Brasil em um momento delicado. O Banco Central brasileiro vinha conduzindo um ciclo de cortes graduais, sustentado pela desaceleração da inflação doméstica e pela melhora das expectativas.
A inflação americana de 5,4% no atacado, puxada por energia, porém, é um sinal de que essa pressão pode se espalhar. Se o Fed subir juros na próxima semana, o dólar tende a se fortalecer, o que adiciona mais um vetor de pressão sobre a inflação brasileira.
O Copom, portanto, entra na reunião da próxima semana diante de um dilema. De um lado, a inflação doméstica segue em trajetória de queda, e o crescimento econômico mostra sinais de moderação, o que justificaria a continuidade dos cortes.
De outro, o ambiente internacional ficou mais adverso, com dois dos maiores bancos centrais do mundo caminhando para juros mais altos. Ignorar esse movimento poderia aumentar a volatilidade cambial e comprometer a credibilidade do processo de desinflação.
Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, afirma que o fundamento do aumento de juros do BCE é semelhante ao que deve influenciar a reunião da próxima semana no Federal Reserve.
“Os bancos centrais estão desconfortáveis com a inflação persistentemente acima da meta, executando um aperto monetário, situação que se agravou por questões como o conflito no Oriente Médio e seu impacto no petróleo, com desdobramentos nos preços de energia”, afirma.
João Debom, sócio da Supernova Investimentos, afirma que o BCE subir juros pela segunda vez no ano e o PPI americano vir a 5,4% no mesmo dia não são coincidências isoladas, e sim o mesmo sintoma em duas economias diferentes: a inflação de energia, puxada pela tensão geopolítica, voltando a pressionar preços na cadeia produtiva antes mesmo de chegar ao consumidor.
Segundo ele, para o Copom, que se reúne na mesma semana da decisão do Fed, isso muda o cálculo de duas formas. “Primeiro, reduz o espaço para o Brasil cortar juros na contramão do resto do mundo — com países desenvolvidos endurecendo o discurso, um corte doméstico muito agressivo pressiona o câmbio e importa inflação de volta”, adverte.
Como o próprio mercado já vinha precificando a Selic terminando o ano em 13,75%, o executivo da Supernova vê um possível novo aumento de juros dos EUA, além do anunciado pelo BCE, influenciando a reunião do Copom. “Esse cenário externo é o tipo de ruído que trava o Banco Central num ‘esperar mais um pouco’ em vez de confirmar o corte”, adverte.
Debrom, porém, não acredita que o BC vá descartar o ciclo de afrouxamento monetário, uma vez que a inflação doméstica ainda dá algum espaço. “Mas o Copom da semana que vem tende a vir mais cauteloso no tom do que o mercado imaginava há um mês, e não seria surpresa ver o corte sendo adiado ou reduzido em magnitude”, estima.
Vital, da Warren, vai na mesma linha. Segundo ele, a política monetária no Brasil está em um momento distinto, com a taxa em patamar muito restritivo já há bastante tempo, mesmo após os cortes observados nas últimas quatro reuniões sob a justificativa de calibração.
“O fato é que aqui o modelo do BC já mostra projeções que se aproximam do centro da meta, e o impacto dos juros altos na atividade é cada vez mais evidente”, observa. Nesse sentido, ele sugere acompanhar a evolução das decisões de política monetária do BCE e do Federal Reserve.
Vital, porém, mantém o otimismo: “A alta dos juros lá fora, nesse momento, não deve levar a uma mudança significativa nos planos do Copom.”









