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Cinco vidas e a lembrança dos melhores dias que já vivi



Passei junho de 2026 na Europa. Embora a chegada do verão possa ganhar dimensões apavorantes nos dias de hoje, topei a aventura por entender que daria um jeito de me livrar das latitudes mais críticas.

Comecei por Atenas onde queria visitar uma amiga que ficara viúva há pouco tempo. Instalada no aprazível bairro de Kallithea, tivemos tempo para atualizar a conversa. Paulistana, escritora e muito viajada, percebi que a despeito da dor da viuvez recente, pulsa uma vontade irrefreável de viver.

“Pouco a pouco, começo a fazer viagens pelas redondezas. Há renovação no estado de espírito.” Em casa, os gatinhos Piccolina e Nadal assistem a tudo na paz que caracteriza os felinos.

Dias mais tarde, em Budapeste, tomei um trem para Debrecen, no extremo leste da Hungria. Em determinada altura, voltando do lavabo, fiquei a contemplar um mapa com a malha ferroviária do país. Um rapaz se aproximou e me perguntou em inglês se podia me ajudar. Começamos uma conversa. Ele poderia ser eu mesmo quando eu tinha 23 anos.

Estudante de Literatura na universidade local, me chamou a atenção que, para ele, tudo passava pelo celular. Apesar de ser um intelectual, era, antes de tudo, um jovem online. Em pouco tempo, sabia tudo da minha vida. Indagou incessantemente sobre o ofício de escrever e desde então trocamos mensagens duas vezes por semana.

Na partida de Debrecen para a Transilvânia, vi na plataforma um rapaz magro e esquálido, de palidez fantasmagórica. O cabelo era longo e oleoso e, nos braços finos, se viam lacerações recentes, como se tivesse brigado com um gato. A verdade é que era um ucraniano fugitivo da guerra.

Aos 26 anos, sem possibilidades de escapar da convocação, resolveu que não queria matar nem morrer. Escapou pelos arbustos da fronteira, procurou a polícia e foi bem recebido. O trabalho online para uma empresa europeia vai lhe permitir se instalar em Brasov, na Romênia, onde sonha com paz e montanhas onde caminhar. Órfão de mãe aos 2 anos e de pai aos 12, tem saudades do gatinho Kiss que está a caminho com a namorada.

Dias mais tarde, em Bucareste, tomei um trem para Sofia. Atravessar a Bulgária naquele trem da era soviética era uma velha aspiração. Na minha cabine, um jovem alemão de poucas palavras. Na escala em Ruse, morrendo de sede, pedi que ele se valesse de sua juventude para ir rapidinho pegar uma garrafa de água. Viramos amigos.

Aos 27 anos, ele tirou seu primeiro sabático depois da pandemia. Já está na marca de 30 países visitados e tem planos de fazer muitas viagens parecidas. Natural de Duisburg, é filho de russos, mas fala, pensa e vê o mundo como um alemão bem sucedido. Falei-lhe dos demais amigos que fiz nessas semanas. Foi um simulacro da Europa contemporânea e das dádivas e dores de alguns.

Ficou faltando uma vida das cinco sugeridas pelo título? Que seja a minha. Cobrir seis países em 20 dias de trem e ônibus me remete, aos 68 anos, aos melhores dias de minha vida.

Sem dono e sem destino, escolhendo a próxima escala a partir das melhores ofertas, voltei bem desse périplo aparentemente sem propósito, aos olhos dos viajantes diligentes.

Não houve tempo para museus, ruínas e galerias. Mas sobrou tempo para conversar com amigos novos e desfrutar da sensação única que a estrada proporciona.

Voltei revigorado.

E enriqueci meu repertório de percepções da forma que mais gosto: pelo contato direto com a fonte primária. Hoje, mais do que nunca. Sem cartão de visita, sem pompas corporativas e a cru.



Fonte: Amanhã

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