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Uma empresa inteira em torno de uma única uva. Essa é a aposta da The Wine Lab Brazil, criada pelo enólogo Alexandre Estolano e pela sommelière Eloisa Conzatti.
Com a Chardonique, a startup explora a versatilidade da Chardonnay: dos vinhos leves e frescos aos mais encorpados, com passagem por madeira.
O casal analisou 728 amostras antes de definir os primeiros rótulos, produzidos em parceria com vinícolas gaúchas. Já são 5 mil garrafas elaboradas, embora a empresa não divulgue dados de vendas ou faturamento.
Nascida no ambiente digital, a The Wine Lab acompanha a resposta dos consumidores a cada lançamento. Agora, começa a vender também para lojas, distribuidores e restaurantes. Os planos incluem uma marca de espumantes e vinhos desenvolvidos com produtores do Chile, da Argentina e da Itália.
Para Alexandre, a especialização é uma forma de dar ao vinho brasileiro uma identidade própria diante dos importados. Afinal, uma única uva pode contar muitas histórias.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Poucas uvas são tão versáteis quanto a Chardonnay. Uma das variedades mais cultivadas do mundo, ela dá origem tanto a brancos leves e frescos quanto a vinhos mais encorpados, além de espumantes elegantes.
Avaliado hoje em US$ 618,7 milhões, o mercado global de Chardonnay deve crescer, na próxima década, em valor, quase duas vezes mais rápido do que o de vinhos em geral, conforme projeções da Future Market Insights. Não por acaso, a The Wine Lab Brazil decidiu explorar a uva francesa originária da Borgonha em seu primeiro projeto, o Chardonique.
“Não foi simplesmente por paixão. Foi uma decisão de negócio baseada na capacidade dessa uva de gerar experiências muito diferentes”, diz o enólogo Alexandre Estolano, sócio da startup, ao NeoFeed. “Percebi que poderia construir uma empresa inteira em torno de uma única uva e transformá-la em proposta de valor.”
Outro sinal favorável à aposta é o aumento do consumo de vinhos brancos no Brasil. Em levantamento da Ideal BI, em 2025, o crescimento foi de 18% — ante os 2% dos tintos e os 4% dos rosés.
Fundada em 2024 por Alexandre e pela sommelière Eloisa Conzatti, com um investimento próprio de R$ 1 milhão, a The Wine Lab não é uma vinícola, tampouco apenas um e-commerce. Idealizada como um hub de bebidas de alto padrão, a empresa nasceu como uma DNVB — Digitally Native Vertical Brand, um negócio digital verticalizado, com controle sobre todas as etapas da cadeia produtiva.
No caso da Chardonique, com a consultoria do enólogo Marcos Vian, o casal concebe o rótulo, seleciona os vinhedos, desenvolve os blends e acompanha a produção com vitivinicultores parceiros. Embora o foco seja a venda direta ao consumidor final pela internet, hoje a Chardonique começa a operar em um modelo híbrido, atendendo também lojas, distribuidores e restaurantes.
Como todas as empresas do ecossistema de inovação 4.0, os dados estão na base da Chardonique — da escolha da uva ao comportamento do consumidor. Com isso, a The Wine Lab pode acompanhar a resposta a cada lançamento e usar esses conhecimentos em projetos futuros, que incluem cervejas e destilados.
Na era das marcas digitais
As DNVBs são muito comuns no mercado de moda e de cosméticos. No vinho, porém, ainda são raras, mas começam a se tornar tendência, sobretudo entre os consumidores mais jovens, habituados ao ambiente digital.
As marcas de vinho nativas digitais também deixam de lado parte dos códigos tradicionais do setor, como o vocabulário técnico. Em seu lugar, apostam em uma comunicação mais direta, informações claras sobre o produto e formatos fáceis de levar e consumir, buscando se aproximar sobretudo dos millennials e da geração Z.
Um dos movimentos mais emblemáticos foi a compra, em 2020, da Empathy Wines pela gigante americana Constellation Brands, dona da cerveja Corona e dos vinhos Robert Mondavi e Kim Crawford.
A companhia não estava interessada apenas nos vinhos da startup cofundada há menos de dois anos por Gary Vaynerchuk, um dos nomes mais influentes do marketing digital. A Constellation comprou o ecossistema da Empathy — sua tecnologia, seus dados e sua experiência em construir uma relação direta com os consumidores.
Enquanto outras empresas nativas digitais se concentram em uma marca, a The Wine Lab funciona como uma espécie de house of brands.
Choque com a complexidade do campo
A ideia de construir marcas de vinhos a partir de uma estrutura voltada à inovação está diretamente ligada à trajetória profissional de Alexandre. Com MBA em Tecnologia para Negócios, passou por empresas como IBM, Shell e Itaú e, mais recentemente, foi CEO da retailtech Gen Shop e diretor do fundo de corporate venture capital GenInvest.
Apesar da experiência, o empresário tem descoberto que lidar com vinhos é mais complexo do que imaginava.
“Talvez o maior choque tenha sido perceber o quanto eu estava acostumado a ambientes em que praticamente tudo podia ser transformado em processo, planejamento ou plano de contingência. No campo, algumas das variáveis mais importantes não estão sob nosso controle. Uma chuva de granizo ou uma onda de calor podem mudar completamente o cenário”, conta. “No mundo corporativo, tentamos reduzir a variabilidade. No vinho, precisamos entender a variabilidade e trabalhar com ela.”
A linha Origem organiza os vinhos em uma escala de intensidade de 1 a 12, dividida em quatro estilos: Frescos, de maior acidez e notas cítricas; Clássicos, que preservam o frescor e ganham notas de panificação; Estruturados, com passagem por madeira e mais cremosidade; e Intensos, mais encorpados e com potencial de guarda.
Para chegar a esses estilos, Alexandre e Eloisa analisaram 728 amostras em microvinificações antes de definir os primeiros cortes. A Chardonique aposta em uma produção multiterroir: elabora seus rótulos em vinícolas da Serra Gaúcha e dos Campos de Cima da Serra, combinando uvas de diferentes regiões do estado, como a Campanha e o Sudeste gaúcho.
Blends estrangeiros
Por enquanto, o carro-chefe da empresa é o Chardonique 10. “Ele faz sucesso porque consegue reunir algumas características muito importantes: tem estrutura, complexidade e intensidade, mas sem perder o equilíbrio e a identidade de um Chardonnay”, diz Alexandre.
O vinho passa 36 meses em barricas de carvalho francês e americano, mas preserva o frescor. “Conseguimos manter uma acidez tensa, com apenas 11,7% de álcool. Não é uma ‘bomba’ no estilo californiano, mas algo totalmente diferente e instigante”, explica.
A Chardonique já produziu 5 mil garrafas dos diferentes rótulos da marca. Com tíquete médio de R$ 450, a empresa tem capacidade para chegar a 30 mil garrafas por ano. O teto reflete a estrutura atual da The Wine Lab para operar o negócio — e não a capacidade das vinícolas parceiras.
Os próximos passos incluem uma segunda marca, dedicada a espumantes, e blends de Chardonnay desenvolvidos com produtores do Chile, da Argentina e da Itália, previstos para chegar ao Brasil em 2028.
A hiperespecialização em Chardonnay também é, para Alexandre, uma forma de enfrentar a concorrência dos importados. Desde maio, o acordo comercial provisório entre Mercosul e União Europeia começou a reduzir as tarifas de entrada de vinhos europeus no Brasil, em um processo gradual.
“Não podemos competir simplesmente por preço. Sempre haverá alguém produzindo em uma região tradicional da Europa com uma escala, uma história e uma estrutura de custos que nós não teremos”, pondera. “Não estamos tentando ser uma grande vinícola brasileira nem disputar espaço com os grandes volumes de vinho importado.”









