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Em 1954, artistas brasileiros abriram mão das cores como forma de protesto. Com impostos elevados sobre tintas, pincéis, telas e papéis importados, trabalhar havia se tornado caro demais.
A resposta foi o Salão Preto e Branco: 323 obras reunidas em uma mobilização liderada por Iberê Camargo e Djanira.
Essa história está no centro de “Revolta em Preto e Branco”, na Pinakotheke, no Rio. Com 61 obras de 50 artistas, a exposição revisita a “greve das cores”, destaca o papel de Djanira na organização e aproxima o episódio das dificuldades atuais de acesso a materiais.
Em meio às disputas entre figurativos e abstratos, os artistas fizeram uma trégua para pressionar o governo. Conseguiram reduzir as tarifas, mas a vitória foi passageira.
A mostra reúne trabalhos contemporâneos e lembra que a precariedade persiste.
“A gente precisa voltar ao salão porque ele continua nos ensinando, de algum modo, algo novo sobre o nosso próprio tempo”, diz o curador Shannon Botelho, em entrevista ao NeoFeed.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Imagine entrar em uma exposição em que todas as obras são pretas e brancas. Não por escolha estética, mas por decisão política. Em 1954, diante da escassez e do alto custo de tintas, pigmentos, pincéis, telas, papéis e vernizes, artistas transformaram a falta de materiais em protesto.
Essa história está no centro de Revolta em Preto e Branco, em cartaz na Pinakotheke, no Rio de Janeiro. A mostra reúne 61 obras de 50 artistas e revisita a história da terceira edição do Salão de Arte Moderna, que ficou conhecido como Salão Preto e Branco.
“Essa exposição segue chamando a atenção até hoje porque não é algo ordinário, corriqueiro”, afirma o curador Shannon Botelho, em entrevista ao NeoFeed. “O salão ensina que os artistas, apesar de suas diferenças entre figurativos, abstratos, concretistas, paulistas, cariocas, podem fazer uma trégua e se organizar enquanto classe artística para buscar soluções para uma questão que os impactava junto às autoridades do país.”
No início dos anos 1950, durante o segundo governo Getúlio Vargas, foi criada a Comissão de Desenvolvimento Industrial para estimular a indústria nacional. A nova política de importações elevou os impostos sobre produtos estrangeiros.
Tintas, papéis e outros materiais artísticos foram tratados como artigos supérfluos, como carros de luxo, bebidas finas e perfumes. Com isso, os materiais artísticos passaram a sofrer os ágios mais altos do sistema.
“O preço foi subindo, subindo, subindo e ficou inviável para os artistas comprarem seus materiais para trabalhar”, explica Botelho. Foi nesse contexto que a classe artística se articulou em torno de Iberê Camargo e Djanira da Motta e Silva para organizar uma reação durante o III Salão Nacional de Arte Moderna.
Seriam aceitas apenas obras em preto e branco, transformando a própria exposição em um manifesto contra a dificuldade de acesso aos materiais artísticos. Uma exposição de arte sem cor.
Inaugurado em 15 de maio de 1954, o salão reuniu 323 obras. Entre os participantes estavam Candido Portinari, Roberto Burle Marx, Lygia Clark, Lygia Pape, Abraham Palatnik, Antonio Bandeira, Oswaldo Goeldi, Maria Leontina, Alfredo Volpi e Samson Flexor.
O ambiente artístico brasileiro era marcado pelo embate entre figurativos e abstratos. O Salão Preto e Branco não apagou essas diferenças, mas criou uma trégua em torno de uma questão comum. “Não é que todo mundo virou amiguinho. Eles entenderam que a luta política precisa, em alguns momentos, ser feita conjuntamente”, lembra o curador.
A mobilização ganhou ampla repercussão na imprensa, que batizou a mostra de “Salão do Protesto” e “greve das cores”. “Os jornais e a crítica de arte foram fundamentais para a repercussão do evento”, afirma Botelho. “As pessoas acompanhavam o que acontecia pelo jornal, que tinha tiragens de cerca de 200 mil exemplares por semana. Era um alcance muito grande para a época.”
A importância de Djanira
A mobilização teve ainda um importante protagonismo feminino. Embora Iberê Camargo fosse a voz mais eloquente do movimento na imprensa, Djanira da Motta e Silva teve papel central na articulação dos artistas.
“Ela foi a cabeça pensante do Salão Preto e Branco. Conversou com os artistas, articulou as participações e colocou a mobilização de pé. Arregaçou as mangas e fez”, ressalta Botelho.
Além de atuar na organização, Djanira integrou o júri de seleção e premiação, ao lado de Milton Dacosta e Géza Heller. Foi a primeira vez que uma mulher integrou o júri do Salão de Arte Moderna. Segundo a imprensa da época, quase metade dos expositores eram mulheres.
A releitura atual também lança luz sobre uma dimensão de gênero do episódio: a presença de mulheres em posições de articulação e decisão. “É uma valorização do trabalho das artistas mulheres e, considerando a Djanira nesse lugar de destaque, foi o primeiro salão em que uma mulher esteve à frente dessa organização”, destaca Botelho.
Vitória fugaz
Durante a exposição, os artistas mantiveram assembleias na Escola Nacional de Belas Artes e ampliaram a pressão sobre o governo. Em junho, o Ministério da Fazenda reviu a classificação dos materiais artísticos importados, que passaram da alíquota nº 5 para a nº 2. Eles foram reconhecidos como bens de importação necessária, o que reduziu as tarifas.
A conquista, porém, não seria permanente. A política tributária voltaria a mudar nas décadas seguintes. Para Botelho, essa é uma das ironias do episódio. “Eles conseguiram uma pequena vitória ali, momentânea.” E completa: “Eu brinco que a questão tributária do Salão foi a ‘taxa das blusinhas’ dos anos 1950.”
É essa relação entre passado e presente que orienta a curadoria de Revolta em Preto e Branco. A exposição está organizada em três núcleos. O primeiro reúne obras que participaram efetivamente do Salão de 1954. A exceção é o conjunto de trabalhos de Djanira e Milton Dacosta, incluídos por terem integrado o júri.
O segundo apresenta artistas que participaram da mobilização, mas não necessariamente com as mesmas obras exibidas naquele ano. Para manter o vínculo com o episódio, o curador selecionou trabalhos em preto e branco realizados no mesmo período.
O terceiro núcleo traz a discussão para o presente, reunindo artistas contemporâneos cuja produção se relaciona aos materiais e às condições de trabalho.
“Todos os trabalhos contemporâneos são trabalhos em preto e branco”, explica Botelho. “De algum modo, esses artistas partilham de uma precariedade que persiste na condição do trabalho do artista desde os anos 1950.”
Bruno Dunley é um exemplo. Durante a pandemia de Covid-19, diante da dificuldade de acesso a materiais para pintura, o artista passou a fabricar as próprias tintas, em parceria com Rafael Carneiro. A experiência deu origem à Joules&Joules, marca brasileira de tintas de alta pigmentação.
“A gente precisa voltar ao salão porque ele continua nos ensinando, de algum modo, algo novo sobre o nosso próprio tempo”, conclui o curador.


















