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“Trade Flávio Bolsonaro” destrava a bolsa. Agora, Faria Lima cobra sinalizações de medidas econômicas


A Faria Lima acordou otimista na segunda-feira, 5 de outubro. Por volta das 12h30, o Ibovespa subia 8,33%, aos 208.116 pontos, e chegou a bater 209.606 pontos na máxima do dia. O dólar caía 4,33%, a R$ 4,991, abaixo de R$ 5. Os juros futuros despencavam: o DI para janeiro de 2033 recuava cerca de 1,3 ponto percentual, para 12,83%.

O primeiro turno das eleições terminou com a direita ganhando muito mais cadeiras do que o esperado na Câmara e no Senado, e com Flávio Bolsonaro (PL) saindo em vantagem para o segundo turno.

Por trás da euforia está a aposta em um ajuste fiscal a partir de 2027. Essa perspectiva reduz o prêmio de risco exigido pelos investidores, derruba os juros longos e alivia a trajetória da dívida pública.

“Se essa conta for minimamente mais palatável, você está falando de uma economia muito grande de déficit total. Não primário, déficit total”, diz Fernando Pina, sócio-fundador da LIS Capital. Para as empresas da bolsa, o efeito é direto.

“Muitas empresas tiveram margem líquida suprimida. Se você tem uma redução disso, é explosiva”, complementa.

O movimento é amplificado pela baixa exposição do investidor local à bolsa. Em julho, as ações representavam 7,7% dos ativos na carteira da indústria de fundos, segundo a Anbima, perto da mínima da série iniciada em 2006 e cerca de um terço dos 21,7% de 2007.

Os resgates também seguiram ao longo do ano: até agosto, os fundos de ações perderam R$ 8,2 bilhões, e os multimercados, R$ 15,7 bilhões. Agora, quem estava de fora tenta voltar, mas encontra pouca oferta de venda.

“Essa porta é muito estreita”, diz Paulo Abreu, sócio-fundador da Mantaro Capital. Segundo ele, o número de empresas listadas caiu ao longo dos anos e o free float diminuiu com as recompras de ações, enquanto a poupança dos brasileiros cresceu com o CDI alto. “A demanda potencial por bolsa cresceu, enquanto a oferta de ações diminuiu.”

Para os gestores, o espaço para alta está nas ações que ficaram para trás. O Ibovespa chegou no último pregão antes do primeiro turno, na sexta-feira, 2 de outubro, com alta de 19,2% no ano, enquanto o índice de small caps, onde está a maior parte das apostas dos fundos locais, subia apenas 2% no mesmo período. São empresas mais dependentes do mercado doméstico e do crédito, e por isso mais castigadas pelos juros altos.

Segundo Ricardo Campos, CEO da Reach Capital, as small caps estavam penalizadas pela taxa de juros, pela falta de comprador e pela falta de visibilidade de crescimento nos próximos anos.

A perspectiva de ajuste fiscal e de queda dos juros ataca justamente esses três pontos. Na segunda, 5, a ordem se inverteu: as small caps avançavam 10,2% por volta das 12h30, acima dos 8,3% do Ibovespa. “Agora parece que é um ponto de inflexão”, diz Campos.

Dúvidas na mesa

Apesar da euforia, os gestores afirmam que ainda há muitas dúvidas na mesa. A primeira delas é que o mercado ainda não sabe quem vai conduzir a política econômica nem qual será o plano. “A gente nem sabe qual é a política ainda para poder fazer críticas”, diz Campos. “Não tem muita informação para a gente ter agora.”

A volatilidade, diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, deve continuar, primeiro com as pesquisas de segundo turno e, em caso de vitória de Flávio, com a composição do governo.

Para Abreu, da Mantaro, a definição da equipe será o principal sinal concreto a ser observado daqui para frente. Segundo ele, o problema fiscal brasileiro é grande, mas bem diagnosticado, e não tem mistério para ser resolvido. O que falta é uma base política relevante para executar a agenda, que Bolsonaro teria se for eleito.

A expectativa, por ora, é de nomes técnicos na equipe, como no governo de Jair Bolsonaro. “O que é provável é que a gente tenha bons nomes, do mesmo jeito que o Bolsonaro fez”, diz Campos, da Reach.

Outra dúvida é institucional. Para Utsch, o mercado tem uma percepção de risco de instabilidade num eventual governo Flávio, inclusive na relação com o Supremo Tribunal Federal (STF).

“Está no preço, sim, alguma confusão política e institucional nos próximos meses e trimestres, mas não muito”, diz. Para ele, o novo Senado, mais alinhado com Bolsonaro, aumenta a chance de algum arranjo que acalme o ambiente institucional. “O mercado não tem ideologia. O mercado quer estabilidade.”

Ainda que o mercado já trabalhe com uma vitória mais que provável de Bolsonaro, Utsch não descarta uma virada. Para ele, o PT dificilmente conseguiria reverter o resultado só com a migração de votos dos candidatos que ficaram pelo caminho. Seria preciso um fato novo.

“Como o Brasil é Brasil, todo dia tem um fato novo”, diz Utsch. “Três semanas é bastante coisa nessa turbulência. Pode acontecer muita coisa.”

Humor do mercado 

A surpresa do resultado no primeiro turno explica a força do movimento de alta da bolsa e queda da divisa. No sábado, 3 de outubro, um levantamento do Itaú com 111 gestoras, ao qual o NeoFeed teve acesso, mostrava que 91% delas esperavam Lula à frente no primeiro turno.

A maior parte, 42%, apostava numa vantagem do petista de até 1,5 ponto percentual; 37% esperavam entre 1,5 e 3 pontos; e 12%, mais de 3 pontos. Só 9% previam Flávio na frente. As urnas deram 47,04% ao candidato do PL e 45,15% a Lula. “Eu diria que foi algo como 5% melhor do que o mercado esperava”, diz Utsch.

O que mais pesa para os gestores, no entanto, é o Congresso. A Câmara, que já era mais à direita que o Senado, foi ainda mais longe do que se esperava. No Senado, a mudança foi “realmente gigantesca”, nas palavras de Utsch.

Pelas contas dele, a direita passa a ter algo como 42 ou 43 senadores claramente alinhados, mais que os 41 da maioria simples. Isso seria suficiente para controlar a eleição da Mesa Diretora e aprovar as pautas mais simples sem depender de partidos de centro.

“O Flávio, sem a base no Congresso, no Senado, estaria em uma situação muito mais difícil”, diz Abreu. Com um eventual presidente alinhado às duas Casas, a agenda de ajuste fiscal, segundo ele, ganha uma chance que não tinha.



Fonte: NeoFeed

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