A incerteza em torno das Eleições de 2026 vem condicionando o mercado de capitais brasileiro, sobretudo a retomada das ofertas públicas iniciais de ações (IPOs), que voltaram de forma tímida no início do ano, com Agibank, PicPay e Compass.
Para Fábio Medeiros, chefe do investment banking do Morgan Stanley no Brasil, a falta de visibilidade sobre os rumos da política econômica, combinada à volatilidade dos cenários local e global e aos juros elevados, dificulta uma retomada mais sustentada das listagens em Bolsa.
“É sabido e notório que este não seria um bom momento para fazer um IPO no Brasil”, afirma Medeiros em entrevista ao NeoFeed. “Quando tivermos um pouco mais de estabilidade no cenário e uma perspectiva de mais estabilidade fiscal, voltaremos a ver operações.”
Segundo ele, dependendo do resultado eleitoral, o País poderá enfrentar cenários bastante diferentes para os juros, o que altera a avaliação das companhias.
Em uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o executivo considera possível um ambiente de taxas mais elevadas, diante das expectativas de que o presidente não adotará uma agenda de ajuste fiscal. Nesse caso, poucas ofertas poderiam sair, sem que seja possível prever quando. Elas ficariam concentradas em setores como bancos e seguradoras.
No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, se ele de fato corresponder às expectativas de ser um candidato pró-mercado e comprometido com o ajuste fiscal, os juros poderiam cair e abrir caminho para IPOs no ano que vem de empresas de setores que se beneficiam de taxas menores, como infraestrutura, consumo e saúde.
Uma coisa é certa para Medeiros: não devem ocorrer mais IPOs em 2026. “Se tivermos um cenário macroeconômico que permita IPOs, acho que poderemos ter de cinco a dez operações [em 2027]”, afirma.
O ambiente político e econômico também é fundamental para os follow-ons. A Bolsa registrou nove operações desse tipo no ano, abaixo das 12 realizadas em 2025 e no mesmo patamar do acumulado de 2024.
Apesar de destacar que essa modalidade permite às empresas levantar recursos rapidamente, Medeiros não espera uma onda de operações, sobretudo se o mercado não tiver confiança de que as contas públicas serão colocadas em ordem. “Em um cenário no qual os juros futuros voltem a subir e o câmbio volte a se desvalorizar, vejo pouca perspectiva para essas operações”, afirma.
Se o cenário não é favorável aos IPOs e aos follow-ons, o mercado de fusões e aquisições (M&As, na sigla em inglês) segue aquecido, com operações maiores do que as observadas no período anterior. Infraestrutura, energia, óleo e gás e mineração estão entre os segmentos mais ativos, incluindo negócios ligados a minerais críticos.
Medeiros destaca que 2026 apresenta uma peculiaridade: ativos muito cobiçados estão disponíveis, atraindo investimentos do exterior para o País e levando compradores a aceitar múltiplos elevados. Como os investidores brasileiros ainda estão retraídos, a expectativa é de que os estrangeiros continuem respondendo por boa parte das operações.
“O estrangeiro olha para o Brasil e diz: ‘vocês, brasileiros, estão muito negativos com essa questão da eleição. Isso vai passar. Estou no Brasil para ficar 100 anos, então é a hora de comprar esse negócio’”, afirma.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Havia uma expectativa de retomada de IPOs e follow-ons, mas o ano não foi como o mercado esperava?
Enfrentamos um momento de mercado mais desafiador para IPOs, não só no Brasil, mas em geral. O ano foi marcado pela abertura e pelo fechamento de janelas para essas operações. No Brasil, esperávamos um ano mais forte, mas não foi o caso. Além das operações de Agibank e PicPay no exterior, vimos a Compass aqui no Brasil. O cenário de juros altos nunca é bom para IPOs, assim como a volatilidade global e brasileira. É decepcionante, mas, de certa forma, compreensível. Conseguimos racionalizar por que isso aconteceu.
Quais são os principais obstáculos para a retomada dos IPOs no Brasil? O peso maior está no cenário macroeconômico, na falta de apetite dos investidores ou no ambiente internacional?
Mesmo que as condições no Brasil não estejam ideais para IPOs, o estrangeiro está disposto a apoiar operações. Mas levará algum tempo até que a indústria local de gestão de recursos volte a se recompor, porque perdeu muito dinheiro. Para voltarmos a ter operações de forma mais consistente, precisamos observar maior estabilidade nos juros americanos. Quando tivermos um pouco mais de estabilidade nesse cenário, maior definição eleitoral no Brasil e uma perspectiva de mais estabilidade fiscal, voltaremos a ver operações sustentadas pelos investidores internacionais.
Até que ponto as eleições estão influenciando as decisões das empresas? Esse é um fator tão relevante quanto os juros e o cenário fiscal?
Hoje, não estamos testando o investidor. Ninguém está tentando fazer um IPO e perguntando se o cenário eleitoral está pesando. Ninguém teria nem essa iniciativa, porque seria muito mal recebida. Mas percebemos uma grande redução na quantidade de transações, inclusive de emissões de bonds, um produto muito mais tranquilo de precificar. É sabido e notório que este não seria um bom momento para fazer um IPO no Brasil, dado que, a depender do resultado eleitoral, podemos ter dois cenários muito diferentes.
“Ninguém está tentando fazer um IPO e perguntando se o cenário eleitoral está pesando. Ninguém teria nem essa iniciativa, porque seria muito mal recebida”
Quais são eles?
Um deles é de juros mais altos; o outro, de juros possivelmente mais baixos. O tempo vai dizer se essa avaliação é tão linear assim, mas a precificação das empresas muda muito a depender dos juros. Em um eventual quarto mandato de Lula, poderíamos ter um cenário de juros mais altos e ainda sem IPOs. As ofertas, se saírem, tenderiam a vir de setores que conseguem navegar nesse ambiente, como bancos e seguradoras. Em um cenário de juros mais baixos, podemos ver empresas de infraestrutura, consumo e saúde, setores que se beneficiam de taxas menores.
Há empresas se preparando para abrir capital?
Algumas empresas já estão olhando para frente e apostando em um cenário melhor para o ano que vem. Nós também estamos. Percebemos uma movimentação de alguns candidatos que começam a se preparar de forma mais contundente, inclusive gastando recursos e investindo no processo. Isso é um bom sinal. Acho que algumas empresas estarão prontas para o ano que vem. Vamos ver se o mercado permitirá que elas venham.
Em quais setores estão esses candidatos? E a retomada precisa começar com grandes IPOs ou ofertas menores também podem reabrir a janela?
Acho que a retomada ainda vai começar pelas empresas maiores. Continuo achando isso. Os investidores ainda priorizam e preferem ofertas com maior liquidez. Em termos de setores, o financeiro é sempre um candidato, assim como tecnologia. Também destacaria infraestrutura e saneamento. Para mim, esses são os três principais grupos. Depois, há algumas oportunidades em saúde e educação, mas em um segundo patamar.
“Os investidores ainda priorizam e preferem ofertas com maior liquidez. Em termos de setores, o financeiro é sempre um candidato, assim como tecnologia”
A Bolsa brasileira vem subindo e atingindo máximas. Isso tende a acelerar as emissões ou pode levar as empresas a esperar por valuations ainda melhores?
A alta sempre ajuda. Mas não acho que precisamos necessariamente de uma mudança muito grande no patamar da Bolsa para voltarmos a ver operações. Há situações em que os preços das empresas comparáveis já permitiriam uma oferta. Não precisamos esperar a Bolsa subir mais. Acho que isso tem mais a ver com os juros lá fora e aqui dentro e com a estabilidade política do que com uma mudança de patamar do Ibovespa.
Qual seria a combinação de valuation, custo de capital e demanda necessária para viabilizar um IPO no Brasil hoje?
É uma pergunta difícil. Vínhamos trabalhando, no passado, em alguns IPOs com um custo de capital semelhante ao que tivemos neste ano, que foi o maior que vimos. A questão é que não precisamos de uma redução dramática do custo de capital para voltar a ter operações. Basta um pouco mais de segurança de que a questão fiscal continua sendo importante para o governo, seja qual for.
Se os IPOs não ganharem tração até o fim deste ano, qual é a perspectiva para o próximo?
Não esperamos nenhum IPO neste ano. Estamos trabalhando em operações para o ano que vem, e a expectativa é que voltemos a ver ofertas. Se tivermos um cenário macroeconômico que permita IPOs, acho que poderemos ter de cinco a dez operações, sejam na B3, sejam no exterior. Esse cenário favorável pressupõe uma perspectiva fiscal melhor no Brasil e que os juros lá fora parem de subir. Se não tivermos essas condições, poderemos ter outro ano sem IPOs.
“Cenário favorável pressupõe uma perspectiva fiscal melhor no Brasil e que os juros lá fora parem de subir. Se não tivermos essas condições, poderemos ter outro ano sem IPOs”
Passando para follow-ons, o que precisa acontecer para que as empresas voltem a utilizar esse mecanismo para captar recursos, em vez de recorrer à dívida ou ao mercado externo?
O follow-on é a forma mais rápida de as empresas levantarem recursos. Há muitas companhias que gostariam de fazer isso e precisam de capital. Não estou vendo uma enxurrada de operações para este ano, não acho que serão dezenas de ofertas, mas acredito que teremos negócios. Algumas operações podem sair rapidamente. O mercado está lá para elas, sim.
Independentemente do resultado da eleição?
Não. Depende do resultado político. Em um cenário no qual os juros futuros voltem a subir e o câmbio volte a se desvalorizar, vejo pouca perspectiva para essas operações.
Nesse cenário, você vê espaço para operações primárias e secundárias? O que as empresas estão olhando?
Os follow-ons hoje em dia se tornaram primários, porque as operações secundárias acabaram migrando para os block trades. Vemos muitos block trades secundários. No caso dos follow-ons, geralmente o objetivo é levantar recursos primários.
Como fica a venda de acionistas de referência e fundos de private equity? Eles estão mais dispostos a vender participações? Ainda existe uma diferença relevante entre o preço que os vendedores querem receber e o que os investidores aceitam pagar?
Os fundos de private equity devem ser uma fonte de operações, mas tendem a seguir mais a linha de vendas de blocos de ações. A não ser que seja uma venda muito grande, que exija bastante esforço de marketing da oferta, pode fazer sentido fazer um follow-on. Mas, em média, tem sido mais comum recorrer a block trades.
“Temos visto uma eleição muito disputada, e o cenário será relativamente complexo, independentemente de quem vencer”
A valorização da Bolsa melhorou estruturalmente as condições para essas operações? Ou apenas criou oportunidades pontuais para emissões?
Temos um cenário em que pode haver um período de benefício da dúvida em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. Se houver sinalização a respeito do que o mercado espera, esse benefício pode se prolongar e a janela de mercado pode ficar aberta por mais tempo. Caso contrário, esse período pode acabar. Temos visto uma eleição muito disputada, e o cenário será relativamente complexo, independentemente de quem vencer.
Olhando para essas operações primárias que podem sair, a intenção é usar os recursos captados para novos investimentos ou para reduzir o endividamento?
Desalavancagem. Tenho visto muito pouco em termos de novos projetos de grande porte.
No caso de M&As, o mercado está efetivamente mais aquecido neste ano ou a melhora ainda aparece mais no pipeline do que nas transações concluídas?
O mercado está bom neste ano. Acho que houve uma mudança importante. No passado, tivemos um mercado de negócios menores; neste ano, estamos vendo operações maiores. Acho que será um excelente ano para M&A.
Quais setores estão concentrando o maior volume de negócios? Essa tendência deve continuar até o fim de 2026?
Infraestrutura está sempre presente. Também vimos operações em óleo e gás e em mineração, incluindo ativos ligados a minerais críticos. Entre as transações das quais participamos, posso citar a Serra Verde, no segmento de minerais críticos, e a entrada de US$ 1 bilhão da Warburg Pincus na Global Eggs, de Ricardo Faria.
A recuperação dos múltiplos das empresas listadas está ajudando a aproximar as expectativas de compradores e vendedores?
Ajuda, é sempre uma referência. Mas, para ativos mais cobiçados, que raramente chegam ao mercado, o desejo do comprador acaba se sobrepondo à relação com os múltiplos das empresas listadas. Essa foi uma das marcas de 2026, algo que já víamos em 2025: ativos muito desejados, sobre os quais havia especulações havia anos, finalmente foram vendidos. Começou com a venda do negócio de tintas da Basf no Brasil para a Sherwin-Williams; depois, tivemos a venda da Kopenhagen pela Advent. São ativos icônicos, e é impossível ignorar isso.
“Não tenho visto operações de M&A deixarem de acontecer por causa dos múltiplos das empresas listadas”
Nas operações mais comuns, os múltiplos da Bolsa ainda são um entrave para a conclusão dos negócios?
Não tenho visto operações de M&A deixarem de acontecer por causa dos múltiplos das empresas listadas. Eles são uma das referências, mas geralmente existem outros parâmetros de valor tão relevantes quanto. O múltiplo da Bolsa reflete o custo do dinheiro. Quando os múltiplos sobem, isso pode indicar que o custo do capital caiu, o que ajuda nas negociações entre empresas privadas, mesmo quando não há uma relação direta com o valor de uma companhia listada.
O custo do financiamento ainda é um entrave para aquisições alavancadas? Uma eventual queda dos juros poderia estimular esse tipo de negócio?
Vemos poucas aquisições alavancadas como as que acontecem nos Estados Unidos. Aqui, é raro ver uma operação em que alguém toma uma dívida muito grande para comprar uma empresa. Não diria que o custo da dívida seja o principal entrave. Ele impacta o valor das empresas, porque a avaliação depende do custo do dinheiro. Mas os compradores que realmente têm recursos para gastar são, principalmente, os grupos estratégicos globais, os estrangeiros. Essa turma tem outro custo de financiamento lá fora.
Quem está movimentando o mercado de M&A neste ano: compradores estratégicos ou fundos de private equity? Investidores brasileiros ou estrangeiros?
Muito mais os compradores estratégicos. Acho que este é um ano com mais operações de M&A cross-border do que nunca.
Há algum motivo específico para essa maior participação dos estrangeiros?
É o que comentei sobre os ativos icônicos que finalmente ficaram disponíveis. O estrangeiro olha para o Brasil e diz: “Vocês, brasileiros, estão muito negativos com essa questão da eleição. Isso vai passar. Estou no Brasil para ficar 100 anos, então é a hora de comprar esse negócio”. Existe o negative home bias. Você fica muito negativo porque está aqui o tempo todo, acompanhando notícias ruins da esquerda, da direita e de todos os lados. Quem está mais distante consegue olhar para o cenário de outra forma. Os estrangeiros também sabem que existem problemas nos Estados Unidos, na França e em outros países.
O que tem impedido as empresas brasileiras de fazer aquisições? Elas estão perdendo oportunidades para os estrangeiros?
As melhores empresas brasileiras, as mais capitalizadas, não estão dispostas a aumentar a alavancagem ou a fazer movimentos agressivos de M&A financiados com dívida. Com as taxas de juros atuais, não é o momento de fazer isso. O brasileiro está mais quieto, na dele. Às vezes, chega um estrangeiro e consegue comprar um ativo local, competindo com outros estrangeiros, porque as empresas brasileiras não estão dispostas a competir tanto.
Os fundos de private equity estão pressionados a vender ativos depois de períodos prolongados de investimento? A saída por uma venda estratégica continua sendo mais viável do que um IPO?
Não vejo necessariamente um desespero para queimar ativos. Os fundos precisam mostrar saídas de vários investimentos que estão há muitos anos em seus portfólios. Isso é verdade. Ao mesmo tempo, não vejo uma liquidação de ativos, com vendas a qualquer preço. Não é o que estou observando.
Em quais setores a consolidação se tornou necessária para ganhar escala e melhorar margens? Onde estão as oportunidades mais relevantes?
Não sei se precisamos necessariamente de consolidações para ganhar escala. São situações muito pontuais. Acho que o M&A pode servir como uma forma de saída, uma maneira de monetizar um investimento, mais do que necessariamente como um instrumento para ganhar escala. Os clientes com os quais trabalhamos já têm uma boa escala. Em geral, temos trabalhado em situações específicas: uma empresa que quer reduzir o endividamento, um investidor que pretende sair de um investimento ou uma companhia que quer comprar um concorrente porque enxerga sinergias.









