Negócios

O tênis cresce como negócio. O desafio é não deixar os jogadores pelo caminho


O SP Open WTA dificilmente poderia acontecer em um momento mais favorável. O tênis feminino vem de duas semanas de grandes jogos e feitos históricos no US Open. Pela primeira vez desde 1972, as quatro primeiras cabeças de chave chegaram às semifinais. E a decisão vencida por Elena Rybakina sobre Aryna Sabalenka amplia ainda mais o holofote sobre o circuito feminino.

É sob esse reflexo de Nova York que o torneio de São Paulo abre sua segunda edição. As principais atrações internacionais são a canadense Leylah Fernandez, vice-campeã do US Open em 2021, e a espanhola Paula Badosa, ex-número 2 do mundo.

A chave principal também terá cinco brasileiras: Laura Pigossi, Victoria Barros, Nauhany “Naná” Silva, Gabriela Cé e Carol Meligeni Alves. Beatriz Haddad Maia, principal nome do tênis feminino brasileiro, não participa: durante sua pausa na carreira, ela passará por uma cirurgia no ombro esquerdo. “O tênis feminino atrai o holofote e isso é muito bom para nós”, diz Ricardo Acioly, diretor do SP Open, ao NeoFeed.

A organização celebra tanto a escalação das tenistas no torneio que acontece no Parque Villa-Lobos como a adesão comercial, que reúne 45 patrocinadores — Claro, Heineken 0.0, Bradesco e Allos são os principais. A preocupação, às vésperas da abertura, vem do céu: a semana anterior ao início do qualifying foi marcada pela chuva em São Paulo.

“Fiquei olhando a previsão e ela não está nada boa. Será uma semana desafiadora, na qual teremos de contar com a cooperação das jogadoras e um staff muito alinhado”, diz Pardal, como Acioly é conhecido no tênis.

Acioly é um dos nomes mais respeitados do tênis mundial. Além de ex-atleta profissional, ele foi treinador de nomes como o do chileno Marcelo Rios, o do brasileiro Fernando Meligeni e o da argentina Gabriela Sabatini. Além do SP Open, ele também ocupa a posição de diretor do Rio Open,

Nesta entrevista, ele analisa o momento e a independência comercial do tênis feminino, fala sobre o paradoxo entre receita e desgaste dos atletas, explica as mudanças possíveis dentro de toda a tradição do esporte com raquete, não foge da controvérsia sobre os torneios de duplas e o momento dos atletas brasileiros.

Confira, a seguir, os melhores trechos:

O tênis feminino sempre foi vendido como uma extensão do masculino. O SP Open surge com um produto comercial próprio. Este é o momento de fazer essa separação, com as mulheres ganhando força, sendo bem pagas e mostrando um tênis diferente?
Acredito que sim. Para ser bem-sucedido, o tênis feminino precisa correr em paralelo e ter pernas próprias. Na minha visão, ele nunca pode estar anexado ou subordinado ao masculino. Obviamente, quando se juntam os dois no altíssimo nível, no topo, cria-se um produto muito diferenciado. É o caso dos Grand Slams e de alguns torneios combinados de ATP e WTA. Mas, no decorrer do ano inteiro e no circuito como um todo, o feminino precisa ter pernas, sustentação e criar seu próprio ambiente, seu próprio nicho de público.

Um torneio feminino pode se viabilizar comercialmente sozinho?
O que foi muito positivo no SP Open do ano passado, e uma grata confirmação para nós, foi a presença do público. Quando se fala em 33 mil pessoas, não há muitos torneios femininos que coloquem tanta gente dentro do parque para assistir. Isso mostra que as pessoas estão atentas e dando valor ao que acontece dentro da quadra.

Que lições vocês trazem do Rio Open?
Obviamente que, com a nossa experiência no Rio Open, montamos um evento que já nasceu com muitos acertos, em termos de programação, escalação de jogadoras, promoção e recepção do público. Temos um parque dentro do parque, com muitas atrações. É entretenimento. A pessoa vai até lá, encontra comida e bebida de qualidade e vê os showrooms e as ativações dos patrocinadores. Não se trata simplesmente de chegar e assistir a uma partida de tênis. O público tem uma experiência mais ampla, e é isso que construiremos com o SP Open.

O calendário brasileiro está completo com o Rio Open e o SP Open WTA, ou precisamos de mais torneios?
Para mim, o catalisador de tudo isso foi o Rio Open, lançado há 13 anos como um ATP 500, um evento de um nível que nunca havíamos tido. Começamos trazendo [o espanhol, Rafael] Nadal, o número 1 do mundo. Agora, acredito que completamos o calendário com o SP Open. O torneio trouxe o outro lado da moeda, o feminino, que é uma parte integral do circuito.

Por que era importante ter um torneio feminino desse nível no Brasil?
Costumo dizer que as tenistas estão entre as mulheres mais bem pagas do mundo. Se você olhar a Naomi Osaka, ela ganhou US$ 50 milhões por ano nos últimos dois anos. Coco Gauff está ganhando mais de US$ 40 milhões por ano. As mulheres têm uma representatividade muito grande dentro do esporte mundial e faltava essa composição no nosso espelho do Brasil.

Então os torneios estão adequados à realidade brasileira?
No alto rendimento, na ponta, temos um WTA 250 e um ATP 500. Para avançar além disso, só se o torneio feminino subisse para um WTA 500 ou um WTA 1000, o que é quase impossível hoje, dada a configuração do calendário da ATP e da WTA.

“O calendário ficou apertado com os torneios de duas semanas, que passaram a existir no mais alto nível e trouxeram uma demanda que os jogadores precisaram assimilar”

Você mencionou que temos hoje um WTA 250 e um ATP 500 e que é muito complicado mudar isso em razão do calendário mundial. O calendário do tênis está apertado demais e tornou-se insustentável, tanto como negócio como para os atletas?
Está apertado. Mas, como o negócio está muito bom, os torneios estão crescendo cada vez mais. Refiro-me ao circuito como um todo, muito em função do masculino, mas também do feminino. O calendário ficou apertado com os torneios de duas semanas, que passaram a existir no mais alto nível e trouxeram uma demanda que os jogadores precisaram assimilar. Quando concordaram com isso – falo dos atletas da ATP, porque não conversei com os da WTA -, aceitaram realizar torneios de duas semanas porque a premiação aumentaria e haveria um bônus pool [fundo de premiação financeira extra] muito alto.

Comercialmente está dando certo, mas fisicamente…
Havia mais dinheiro e mais tempo entre uma partida e outra. Quando o torneio tem uma duração maior, o atleta atua dia sim, dia não. Antigamente, o evento durava uma semana e, a partir de terça-feira, todos jogavam diariamente, uma partida depois da outra. Os jogadores pensaram: “Ótimo, teremos mais descanso e ganharemos mais”. Agora perceberam que passam o ano inteiro jogando. Os torneios cresceram muito. A receita aumentou demais, porque há mais dias para tudo. Há um crescimento muito grande, mas também um comprometimento enorme dos jogadores. Isso começa a pesar no calendário e nas lesões. Agora estamos começando a enxergar a repercussão dentro da quadra e o que isso provoca no jogador fora dela.

E para o tênis, como esporte, qual é o balanço?
Vejo o esporte vivendo um momento muito promissor e de enorme dimensão. A cada ano, os torneios superam seus recordes de público. Não estamos vendo uma queda; ao contrário. Portanto, como negócio, está sendo muito positivo.

Há algo que possa ser feito para reequilibrar: reduzir o calendário, mudar a estrutura de uma partida ou alguma outra mudança?
Acho normal que isso aconteça em algum momento. O tênis é um esporte muito tradicional e as mudanças ocorrem lentamente. Mas acredito que, em algum momento, chegaremos à decisão de talvez encurtar um pouco as partidas. O passo mais rápido seria adotar o no-ad no 40 iguais [acabar com a vantagem quando um game fica empatado no 40-40]. Dessa forma, não haveria mais games de dez ou 15 minutos, como às vezes acontece quando a partida está muito disputada. Um game duraria três ou quatro minutos, no máximo. Seriam disputados, no máximo, sete ou oito pontos até a definição. Isso já encurtaria bastante.

“Acredito que, em algum momento, chegaremos à decisão de talvez encurtar um pouco as partidas. O passo mais rápido seria adotar o no-ad no 40 iguais”

É o momento de colocar esse no-ad em prática?
Não diria que este é o momento de fazer isso, até porque estamos vendo jogos de cinco sets e isso sendo comentado o tempo inteiro. Até o jogo do [Ben] Shelton contra o [Carlos] Alcaraz, pelas quartas do US Open, foi impressionante e passou muito rápido. Portanto, por um lado, falamos que é preciso encurtar; por outro, as pessoas permanecem grudadas na partida. Não é que o público esteja indo embora ou dizendo que não quer mais assistir. Existe um dilema sobre como conciliar as duas coisas.

Mas aí entramos no dilema do desgaste físico, do calendário extenso…
Também não é fácil encaixar todos os torneios no calendário. Existem os pilares, que são os quatro Grand Slams, bem posicionados e com mais de 100 anos de tradição cada um. Eles nunca sairão. São os eventos que mais geram receita no tênis. Além disso, nossa governança é fragmentada. Cada Grand Slam pode fazer o que quiser em seu próprio evento. Não existe uma associação que simplesmente faça uma sugestão e todos sigam. O Australian Open define sua premiação e tudo o que faz internamente. O US Open age da mesma forma, assim como Wimbledon e Roland Garros.

Por quê?
Eles não estão presos a uma estrutura única; cada um administra seu evento. Depois, temos a ATP, que administra o circuito masculino fora desses quatro torneios; a WTA, que cuida do restante do feminino; e a ITF, que gere a parte de baixo do circuito e a Copa Davis. É tudo fragmentado. Não é fácil colocar todos à mesa e dizer: “Mudem o calendário”. Ao fazer isso, alguém será espremido. É uma equação na qual é difícil agradar a todos. No fim, precisamos olhar para o crescimento do esporte. E isso que está acontecendo.

Entendo que a imprevisibilidade faz parte do charme do tênis, mas se você tivesse de criar hoje um novo produto de tênis como entretenimento e negócio, o que faria?
Realmente eu encurtaria um pouco o circuito. Daria um pouco mais de tempo para os jogadores descansarem. Mas precisamos entender que não somos um esporte como a maioria das ligas americanas. Até o Campeonato Brasileiro ocupa praticamente o ano inteiro, o que também é difícil. Mas as ligas europeias de futebol têm seu formato e há meses nos quais os atletas não jogam. O jogador faz um reset, prepara-se e tem algum tempo livre, porque a demanda é muito intensa.

Ser global é um problema?
Como o tênis é jogado no mundo inteiro, não conseguimos fazer isso. Quando é inverno na Europa, é verão na Austrália e vamos jogar lá. Não vamos realizar um Grand Slam europeu no inverno. Chega o verão na Europa e são disputados Roland Garros e Wimbledon, além de vários torneios ao redor deles. O calendário é cíclico. É difícil dizer que a temporada começa e termina em determinado ponto. Ela dura o ano inteiro.

“O ideal seria encontrar uma maneira de dar aos jogadores do topo um pouco mais de descanso. Não estou dizendo que deveria haver uma pausa para todos”

O que seria viável fazer?
O ideal seria encontrar uma maneira de dar aos jogadores do topo um pouco mais de descanso. Não estou dizendo que deveria haver uma pausa para todos. Os jogadores que estão mais abaixo poderiam continuar competindo e fazendo pontos, mas seria preciso consolidar um pouco mais o circuito do topo para que esses atletas estivessem mais protegidos no fim do ano.

Não haveria problema com a pontuação para os rankings?
É preciso proteger aquele jogador que está entre a 50ª e a 70ª posição, na fronteira para entrar nos Masters 1000. Ele não pode ficar preocupado porque o atleta que está em 80º ou 90º continua disputando torneios, fazendo pontos e pode ultrapassá-lo na virada do ano. Com isso, os jogadores não param. Descansam uma ou duas semanas, começam a treinar e já seguem para outra temporada. Essa mudança no calendário preservaria um pouco mais o jogador e permitiria que a carreira fosse orientada pela longevidade. Hoje é uma batalha: todos correm atrás uns dos outros. É preciso ser esperto o suficiente para fazer como [André] Agassi, por exemplo, que disputava poucos torneios desde o início da carreira. Ele sempre escolheu bem.

Qual é a dificuldade de fazer um planejamento de longo prazo no tênis?
É duro planejar dessa maneira porque você nunca sabe se permanecerá no top 10 a vida inteira. É preciso apostar que ficará ali por muito tempo, mesmo que caia um pouco no ranking, e entender que você não está mais em uma corrida curta, mas em uma meia maratona. Antigamente, uma carreira considerada longa era muito diferente. Eu, por exemplo, parei de jogar aos 29 ou 30 anos e já era considerado um dos mais velhos do vestiário. Os outros olhavam para mim e diziam: “Pô, Pardal, o que você ainda está fazendo aqui?”. Hoje, há jogadores competindo aos 36, 38 ou 40 anos. A carreira dura dez ou 12 anos a mais. Nadal jogou por 20 anos. É impressionante.

Hoje, também se fala bastante sobre a saúde mental dos atletas. O próprio Alcaraz parou por um período recentemente. Por que os atletas estão ficando mais esgotados?
Porque existem muitos compromissos. Com a evolução do tênis, dos investimentos, da organização e do negócio, os jogadores passaram a ter uma agenda muito intensa. Percebo isso quando recebemos um atleta aqui em São Paulo. [Paula] Badosa, por exemplo, já terá uma lista de coisas a fazer, que fazem parte do atendimento ao torneio e de algumas ações promocionais. Leylah Fernandez também. Todos, sobretudo os jogadores de destaque, chegam com um menu de compromissos previamente acordado. O atleta não desembarca, vai para o hotel, treina um pouco e simplesmente espera o jogo. Existe uma agenda. Quando o torneio começa, ainda é preciso dar uma entrevista coletiva depois da partida.

O joalheiro Ara Vartanian é o criador do troféu do SP Open. A peça é inspirada no Marco Zero de São Paulo. Visto de cima, o troféu revela uma interpretação da rosa dos ventos da Praça da Sé. Visto de lado, uma bola dourada parece flutuar ao atravessar a rede (Foto: Fotojump/SP Open)

A quadra Maria Eshter Bueno é a principal do SP Open. A primeira edição do WTA 250 em 2025 na capital paulista reuniu mais de 33 mil pessoas no Parque Villa-Lobos (Foto: Fotojump/SP Open)

A tenista Paula Badosa treina na quadra central do SP Open WTA (Foto: Fotojump/SP Open)

A tenista francesa Tiantsoa Rakotomanga foi a campeã de simples do SP Open 2025. Ela venceu a indonésia Janice Tjen por 2 sets a 0 (6/3 e 6/4) (Foto: Fotojump/SP Open)

A brasileira Luisa Stefani e a húngara Timea Babos conquistaram o título de duplas ao derrotarem a dupla formada pelas brasileiras Ingrid Martins e Laura Pigossi. O placar foi 2 sets a 1, com parciais de 4/6, 6/3 e 10/4 (Foto: Fotojump/SP Open)

Beatriz Haddad Maia, principal nome do tênis feminino brasileiro, participou da primeira edição. A atleta anunciou que vai passar por uma cirurgia no ombro esquerdo (Foto: Fotojump/SP Open)

Os organizadores do SP Open foram até a B3 e tocaram a campainha de abertura do mercado de ações em 2025 (Foto: Fotojump/SP Open)

O Coin toss do SP Open 2025. Lançamento da moeda define qual jogador ou dupla escolhe o lado da quadra e se quer começar sacando ou recebendo (Foto: Fotojump/SP Open)

Sem falar na parte pessoal, certo?
Também aumentou muito o tempo dedicado a treinamento, fisioterapia, recuperação e às rotinas pré e pós-quadra. Na minha época, não fazíamos metade do que os jogadores fazem hoje. Às vezes, o atleta passa 40 minutos se aquecendo para o aquecimento. Está com o preparador físico, fazendo exercícios de ativação e prevenção, antes de aquecer dentro da quadra. Hoje, o preparador físico e o fisioterapeuta voltam a trabalhar com o atleta depois da partida, por causa da recuperação e da prevenção de lesões. A agenda não é fácil. É intensa.

É uma rotina complexa.
Por um lado, isso me entristece por uma razão: com toda essa estrutura, a camaradagem entre os jogadores foi acabando aos poucos. Na minha época, inclusive quando eu era treinador no circuito, havia grupos de treinadores e jogadores. Saíamos para jantar e convivíamos muito mais uns com os outros, porque éramos eu e meu pupilo — ou meus dois pupilos — e, às vezes, um preparador físico. Existia uma interação. Viver no circuito era muito mais agradável do que hoje.

O que mudou?
Agora, quando um jogador sai para jantar, leva sete pessoas; outro leva cinco. Não dá para juntar todos. Tornaram-se grupos muito fechados. Nosso grupo também podia ter 12 pessoas, mas eram seis jogadores e seis treinadores. Havia troca de experiências e conhecimento. Era muito bom. Esse foi um aspecto que o circuito perdeu: a camaradagem entre todos.

Falando nessa evolução, hoje temos streaming, com séries de Roger Federer e Rafael Nadal, e o TikTok, com seus conteúdos muito curtos. Como o tênis se encaixa nesse ambiente e continua sendo promovido para uma nova geração?
Estava ouvindo algumas discussões sobre isso. Até o CEO do Australian Open disse que a melhor de cinco sets nos Grand Slams precisa mudar. Pensei: “Como esse cara, no primeiro mês de trabalho, já diz algo assim?”. Ele foi bombardeado de todos os lados, porque a tradição fala muito alto. Por um lado, ele está fazendo um alerta. Por outro, o esporte está vibrante e crescendo. Como justificar uma mudança se, neste momento, as coisas estão dando certo e o esporte está crescendo?

“A essência do tênis é uma batalha entre dois jogadores — dois homens ou duas mulheres — que entram em quadra para resolver a disputa. O mais interessante é que não há hora para acabar”

Mas você mesmo disse que tem pontos a serem melhorados.
É óbvio que precisamos olhar para a frente e verificar se essa tendência continuará ou não. Mas a essência do tênis é uma batalha entre dois jogadores — dois homens ou duas mulheres — que entram em quadra para resolver a disputa. O mais interessante é que não há hora para acabar. Não é como o basquete; não dá para fazer cera, chutar a bola para longe ou simular que recebeu uma pancada e ficar rolando por cinco minutos. Não dá para enrolar, porque o jogo não terminará. Você terá de continuar e chegar ao final para vencer.

Qual exemplo você usaria como justificativa?
A história de [Frances] Tiafoe e [Alex] Michelsen, por exemplo, foi muito interessante [Eles disputaram uma partida de 4h39 pelas quartas-de-final do US Open]. Tiafoe estava dois sets abaixo, com Michelsen sacando em 5 a 4. Michelsen, aos 22 anos, buscava chegar à primeira semifinal. Imagine o que se passava pela cabeça dele. E imagine a cabeça de Tiafoe: “Mais uma vez vou deixar escapar uma chance, jogando contra um garoto mais novo do que eu”. Tiafoe era o favorito. De repente, Michelsen travou, perdeu o saque, Tiafoe ganhou o terceiro set e virou tudo. Eles se abraçaram no fim. O choro de Michelsen foi dolorido. E o bonito daquele momento foi Tiafoe abraçá-lo e dizer: “Eu já estive nessa situação, de perder uma partida de cinco sets em uma semifinal. Você é novo e terá outras oportunidades”. Como construir esse drama em uma história curta? Se reduzirmos o tênis e o espaço da partida porque existe essa demanda dos mais jovens, perderemos esse drama. Perderemos algo que impressiona tanto quem presenciou quanto quem ouviu falar depois e assistiu ao abraço. Isso também faz parte do que constitui o tênis.

O US Open colocou os homens e mulheres mais bem colocados no ranking para disputar juntos um torneio de duplas mistas, quase como uma exibição. Qual é a sua avaliação?
É o que eu digo: cada Grand Slam faz do seu jeito. Quero ver o dia em que Wimbledon, com toda a sua tradição, fará algo assim. Na Austrália, disputava-se um único ponto. É sensacional: US$ 1 milhão para quem ganhasse. O mundo inteiro falou sobre isso. Essas ações são muito válidas e pontuais; trazem atenção para o tênis e, depois, começa o torneio. Também achei as duplas mistas sensacionais. Os estádios estavam cheios. Isso acontece em um momento no qual as duplas vêm sendo muito questionadas, porque há várias coisas que não estão funcionando bem. Para mim, é um jogo muito interessante, super dinâmico e diferente.

Até onde vai a controvérsia sobre as duplas?
No fim da minha carreira, joguei basicamente duplas e sempre tive meus melhores resultados nessa modalidade. Ganhei três torneios ATP e disputei outras três finais em duplas. Joguei a Copa Davis por cerca de três anos como titular. Portanto, as duplas sempre fizeram parte do meu DNA. Mas vejo que, durante a transformação da modalidade, em algum momento o tenista deixou de ser simplesmente tenista. Passou a ser tenista de simples ou duplista. O duplista acabou entrando em uma categoria diferente e tornou-se um especialista.

Qual foi o impacto?
Isso foi positivo por elevar enormemente a especialização no jogo, mas esse conhecimento específico não transformou os duplistas em ícones como os jogadores de simples. É preciso ter histórias e ídolos ali também, grandes nomes capazes de atrair o público e criar um torneio especial.

“O duplista acabou entrando em uma categoria diferente e tornou-se um especialista. Mas é preciso ter histórias e ídolos ali também, grandes nomes capazes de atrair o público e criar um torneio especial”

Por isso ainda não aconteceu?
Se olharmos para os irmãos Bryan [Bob e Mike], eles ganharam praticamente tudo. Antes deles, houve a parceria conhecida como “Woodies”, formada por Todd Woodbridge e Mark Woodforde, mas a diferença é que esses jogadores também disputavam simples e duplas e conquistaram muitas coisas. Houve ainda [John] McEnroe e [Peter] Fleming e vários outros. Os irmãos Bryan conquistaram todos os Grand Slams, foram a dupla número 1 várias vezes e tinham aquela comemoração americana, batendo o peito. Começaram a mudar a maneira de jogar e de o atleta na rede cruzar a quadra. Apresentaram um caminho diferente para as duplas e era difícil vencê-los.

Mas esse sucesso não se traduziu em reconhecimento fora das quadras.
Todo esse domínio não os transformou nos ícones que deveriam ter se tornado por ganhar tanto. Eles tinham um valor muito grande nos Estados Unidos, mas, levando isso para a Europa ou para a América do Sul, o alcance era menor. Talvez no Brasil fosse diferente, porque o brasileiro gosta muito de duplas. Como um todo, porém, eles não se tornaram os ícones que poderiam ter sido.

O que é preciso fazer?
As duplas perderam muito apelo para o público geral, para a televisão e para as quadras centrais. Algumas partidas são boas, mas, se não houver um brasileiro jogando no Brasil, pouca gente assistirá. É preciso mexer nisso ou criar outra fórmula. As duplas mistas mostraram que, ainda que os participantes não fossem todos especialistas, o estádio estava cheio. As pessoas queriam assistir. No primeiro ano, acabou vencendo uma dupla de especialistas; neste ano, já não foi assim. Essas iniciativas são muito boas para atrair mais atenção para o tênis, oferecer algo adicional e trazer ideias diferentes. Elas fazem parte das possibilidades dos Grand Slams e dos demais torneios. No Brasil, em algum momento, também teremos de começar a experimentar esses formatos.

E qual é a sua avaliação sobre as jovens brasileiras que estarão disputando o SP Open?
Uma coisa importante é que Naná Silva e Vitória Barros são duas jogadoras de enorme potencial, já reconhecido mundialmente no juvenil. A Vitória está entre as quatro ou cinco melhores do mundo e a Naná, entre as dez. As duas são grandes potenciais e já têm a oportunidade de jogar um evento como esse desde os 16 anos. Isso transforma e alavanca uma carreira. Sem essa oportunidade, elas precisariam disputar o qualifying do qualifying para entrar em um torneio desse tamanho e começar a adquirir essa experiência. Isso vale muito quando existe um potencial a ser explorado. No caso delas, está sendo muito bem organizado. Acho que o torneio também é um catalisador para a carreira das duas, que podem jogar tênis de altíssimo nível por vários anos.

O tênis brasileiro, em geral, vive um grande momento?
Conseguimos permanecer em evidência no mundo do tênis por um período em que não tínhamos ninguém nas simples. Foi graças aos duplistas Marcelo Melo e Bruno Soares e aos vários outros vieram depois. Marcelo e Bruno foram os dois que chegaram ao topo e conquistaram Grand Slams. Eles mantiveram a chama acesa. Depois veio Bia Haddad. Ela teve um efeito catalisador muito grande entre as mulheres e meninas, ao servir de inspiração como brasileira capaz de chegar ao topo, disputar uma semifinal de Roland Garros, quartas de final do US Open, uma final de WTA 1000 e ficar entre as dez melhores. Em seguida, veio João Fonseca, ampliando esse efeito. Aos 17 anos, tornou-se o número 1 do mundo no juvenil e já virou profissional.  Entre os 18 e 19 anos, já jogava de igual para igual com quase todo mundo.

Como esses resultados se refletem na formação de novos jogadores no Brasil?
Eles foram essenciais para que a chama do trabalho de formação infantojuvenil voltasse a ficar mais ativa no Brasil, porque, durante algum tempo, ela permaneceu um pouco apagada. Os treinadores de base deixaram de trabalhar com tanta intensidade na alta performance e no alto rendimento.

Uma espécie de ressaca pós Gustavo Kuerten?
Quando Guga estava muito ativo, isso era algo que todos queriam: formar o novo Guga. Depois de um tempo, essa chama ficou baixinha. A sequência que descrevi nos manteve vivos com as duplas, sem deixar o fogo apagar; depois, Bia veio e reacendeu a chama, e João colocou ainda mais lenha. Com isso, agora temos treinadores, iniciativas e mais academias se projetando para a formação de alta performance, algo que, há algum tempo, existia em poucos lugares do Brasil. Ainda são poucas quando comparadas às de outros países, mas temos um potencial humano muito grande. O brasileiro mostra que tem talento. Tivemos uma equipe masculina de 14 anos que foi vice-campeã mundial. No Sul-Americano masculino de 16 anos, também fomos campeões. Há uma garotada jogando bem e é importante que os treinadores responsáveis por ela estejam motivados.

O que falta para dar continuidade a esse movimento?
Ainda falta um projeto coeso e mais amplo, capaz de abraçar todos e oferecer uma direção. Mas não é fácil fazer isso.



Fonte: NeoFeed

Administrador

About Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

    Cadastre seu e-mail e receba notícias e novidades em primeira mão!