Boa parte dos representantes do Produto Interno Bruto (PIB) estava disposta a ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o caminho da economia para um possível quarto mandato. Cerca de 700 empresários, que aguardavam o presidente para um jantar na noite de sexta-feira, 25 de setembro, no hotel Tivoli Mofarrej, na região da avenida Paulista, traziam um clima de expectativa pela mensagem sobre o rumo da economia daqui para a frente.
Ciclo de queda da taxa de juros e mudança da rota fiscal eram a “música” que o empresariado queria escutar de Lula. Mas a melodia apresentada foi um pouco diferente. Antes do evento, o ambiente, apesar de ameno entre líderes de vários setores no hall do evento organizado pelos grupos Esfera Brasil, Prerrogativas e Parlatório era de preocupação. Mais do que isso, de apreensão.
O NeoFeed conversou com os empresários e ouviu o que eles gostariam que fosse endereçado por Lula em seu discurso. O desejo do setor produtivo e da Faria Lima era “rumo”.
Produtividade, grau de investimento, queda de juros e ajuste nas contas públicas estavam entre os principais temas das conversas. E a dificuldade de qualquer previsão sobre o que as urnas vão indicar no dia 4 de outubro. Pouca gente ali arriscava dizer quem sairá vencedor das urnas.
O CEO da Motorola no Brasil, Rodrigo Vidigal, esperava ouvir a direção econômica para o próximo ciclo. Segundo ele, o desejo do setor por essas sinalizações mais claras independe de quem sair vencedor na disputa. No caso da gestão Lula, mais do que ele fez em sua atual gestão, o importante era saber o que ele iria oferecer, em termos de plano econômico, daqui para a frente.
“O Brasil precisa definir um rumo, um caminho para onde deseja ir. Algo como a China faz. É importante para o setor industrial saber o que podemos esperar a partir do ano que vem. O ambiente econômico é fundamental para definir os próximos investimentos. E é preciso uma mensagem em relação ao fiscal”, diz Vidigal.
Alvo de críticas em boa parte de sua gestão como ministro da Fazenda, principalmente em relação a políticas de arrecadação fiscal e da falta de ajuste fiscal, Fernando Haddad (candidato ao governo do Estado em São Paulo) atraiu a atenção quando chegou ao saguão do hotel. Ele cumprimentou empresários e seguiu para uma ala mais reservada, à espera da comitiva de Lula.
Rubens Ometto, fundador e presidente do conselho da Cosan, que chegou ao salão perto da chegada de Haddad, tinha dúvidas sobre o que iria escutar do presidente, mas não quis antecipar o que gostaria que ele abordasse. “Vamos ouvir o que ele vai dizer. É importante isso.”
Lula vinha de um evento, também em São Paulo, que selou o fim das bets no Brasil, com a assinatura de uma medida provisória que proíbe a exploração de apostas e jogo on-line de forma imediata.
No coquetel, o tema também foi pauta, principalmente sobre quando efetivamente essa medida irá refletir no retorno do consumo em setores que foram diretamente atingidos pelos jogos.
Ao NeoFeed, um CEO de uma companhia do varejo alimentar, que pediu para não ser identificado, acredita na expectativa da volta pela busca por refeições fora do lar.
“Ninguém deixa de comer, mas muda para um prato mais barato. Vamos sentir se essa tendência muda. Mas o presidente precisa mostrar o caminho macroeconômico daqui para a frente para recuperar o varejo”, afirmou.
Ivan Monteiro, CEO da Axia Energia; o CEO do Itaú, Milton Maluhy; o presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Isaac Sidney Menezes Ferreira; o empresário e investidor Lirio Parisotto; o presidente da EMS, Carlos Sanchez; e o controlador da gigante J&F, dona da JBS, Joesley Batista, estavam entre os que foram ouvir Lula.
O NeoFeed quis saber de Batista a expectativa dele para a mensagem do presidente. “Vamos ver o que ele vai falar. A gente precisa ouvir.” Questionado se a questão fiscal era um tema importante, ele acenou positivamente.
Em seu discurso, Lula brincou com Batista e o chamou de “empresário desaforado”. “Ele não quer só vender carne, agora quer vender foguete, míssil. Precisamos encontrar empresários que sejam parceiros para fazer este País crescer”, afirmou Lula, em sua fala no evento.
Antes de Lula, a organização deu a palavra para três líderes setoriais, como uma espécie de mensagem direta dos empresários sobre os temas que preocupam o setor produtivo.
Gustavo Pimenta, CEO da Vale, foi um deles. E falou sobre a oportunidade de crescimento a partir do avanço da política em relação aos minerais estratégicos, impulsionada principalmente pelas ações de transição energética.
“Nós temos uma oportunidade histórica. Há uma oferta muito grande esperada. Na Vale, não temos problema de demanda. Nosso grande desafio é ofertar esses minerais. A mineração tem um grande potencial e o Brasil pode dobrar de arrecadação ao destravar esses projetos”, afirmou.
Quando chegou a vez do presidente, Lula falou por 38 minutos. Brincou com o vice Geraldo Alckmin, provocou Flávio Bolsonaro, reforçou sobre sua experiência política e seguiu o mantra da soberania nacional, ao atacar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Mas a música que realmente a classe empresarial queria escutar não foi tocada. Ele não deu sinais diretos de que pretende priorizar um forte ajuste fiscal em um possível quarto mandato. Para ele, justiça social não pode ser vista como gasto público.
“Estabilidade fiscal é obrigatória, mas é preciso compreender o que aconteceu antes de a gente voltar. O pessoal cobra responsabilidade fiscal, mas se esquece que a gente pegou o país com 2,8% de déficit e vamos entregar superavit de 0,1%. É pouco, mas é a demonstração do caminho”, afirmou. Foi aplaudido. “Não dá para tornar o pobre mais pobre. É preciso responsabilidade social junto com a fiscal.”
“Tenho sonho em transformar o Brasil em um país de classe média. Não me contento com um salário-mínimo de R$ 2 mil ou R$ 3 mil [o salário-mínimo hoje é de R$ 1.621]. O povo precisa ganhar mais. E vocês empresários precisam compreender isso. Vai ajudar o consumo”, disse Lula.
Sobre taxa de juros, preferiu dividir a responsabilidade sobre o grande ciclo da alta da Selic com a antiga reivindicação do setor produtivo por mais autonomia ao Banco Central (BC).
“Vocês brigaram pelo Banco Central independente e agora não podem falar da taxa de juros. Acharam que seriam bom. Foram vocês que pediram, não fui eu. E mantive o Henrique Meirelles por oito anos [nas duas gestões anteriores]”, afirmou Lula.
“O Trump está fazendo a aposta que vai ser dono da América Latina. Enquanto eu for presidente, o dono vai ser a população brasileira. Isso vale para os empresários também. Um país que se preza precisa ter uma indústria forte.”
Ao fim do evento, o sentimento de muitos desses executivos era de que, de fato, faltou respostas. “Não foi dito nada de novo”, disse um deles ao NeoFeed. E eles queriam ouvir algo novo. No entorno de Lula, o sentimento era de que a mensagem foi clara. E os empresários ouviram.









