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O negócio que une Mercedes e Vaticano há quase um século


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A quilometragem é baixa, a placa é única e o assento principal tem passageiro exclusivo. Há quase um século, o papamóvel se transforma para conciliar segurança e proximidade com os fiéis. Essa história está em exposição nos Museus Vaticanos até 31 de janeiro de 2027.

Das limusines com brocado de seda à cúpula transparente, a evolução acompanha as mudanças da Igreja. Após o atentado contra João Paulo II, em 1981, vieram a blindagem e os vidros à prova de balas. Hoje, Leão XIV circula em um Mercedes-Benz 100% elétrico, com alça de apoio aquecida para os dias frios.

Também houve improviso. Em 1982, o carro oficial não passava pelos acessos aos estádios da Espanha. Em 15 dias, a Seat adaptou um Panda para a missão.

Entre engenharia, proteção e exposição mundial, o veículo tem uma função que ultrapassa o transporte. Com laterais abertas ou cúpula transparente, permite ao papa saudar e abençoar multidões. Uma espécie de altar itinerante, cujo alcance vai muito além dos poucos quilômetros percorridos.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Roma – A quilometragem é baixa e não dá para acelerar. A placa (SCV 1 — Stato della Città del Vaticano) é única e o assento principal tem passageiro exclusivo. Ao ser tirado de circulação, vira peça de museu. Ao longo dos anos, cada detalhe foi pensado para que o papamóvel (la papamobile, palavra feminina, em italiano) permitisse ao Santo Padre circular mais perto dos fiéis, com segurança.

Parte dessa história de quase um século é contada na exposição Un secolo di Papamobile (Um século de papamóvel), em cartaz até 31 de janeiro de 2027 no Giardino Quadrato, dentro dos Jardins dos Museus Vaticanos, um dos espaços culturais mais visitados do mundo.

Instalada em um pavilhão envidraçado, a mostra percorre a história da mobilidade vaticana e suas transformações, em curso até hoje. O carro pontifício atual, um Mercedes-Benz G 580, com assento elevado e tração nas quatro rodas para circular na Praça São Pedro, está alinhado aos preceitos de sustentabilidade da Santa Sé, expressos na encíclica Laudato si’: é 100% elétrico.

Herdado de Francisco, o veículo leva Leão XIV durante o giro tradicional das quartas-feiras antes da catequese. E, eventualmente, circula por Roma. O exemplar ganhou um item customizado: uma alça de apoio revestida em couro que pode ser aquecida nos meses frios de novembro e dezembro, no Vaticano.

“Não queremos que as mãos do papa fiquem frias. Por isso, nossos engenheiros desenvolveram um sistema de aquecimento para a alça de apoio que ele segura quando está em pé. E estamos prontos para fazer outras adequações caso o Santo Padre nos peça”, afirma Marc Langenbrinck, CEO da Mercedes-Benz Itália, ao NeoFeed.

A parceria entre a Santa Sé e a montadora alemã começou em 1930, quando Pio XI recebeu um Mercedes-Benz Nürburg 460. Em 23 de maio daquele ano, uma limusine Pullman foi entregue ao papa, especialmente adaptada para seu uso.

O interior do automóvel tinha uma única acomodação, revestida de brocado de seda na cor vermelho-carmesim, além de acabamentos refinados. Ao lado, havia botões para o pontífice transmitir instruções ao motorista, incluindo “direita”, “esquerda”, “mais rápido” e “casa”. O carro foi projetado pelo austríaco Ferdinand Porsche (1875–1951) e chegava a 110 quilômetros por hora.

Na manhã da abertura da exposição, em 29 de outubro, Leão XIV recebeu os executivos da Mercedes-Benz em audiência e depois conheceu parte da frota com atenção — ele é fã de carros. “O papamóvel evoluiu de um meio de transporte para um instrumento de encontro”, declarou o pontífice.

Os valores envolvidos na relação entre a Mercedes-Benz e o Vaticano nunca foram divulgados, mas, segundo fontes ligadas à Santa Sé, os veículos são dados de presente aos pontífices. Para a fabricante alemã, transportar o papa funciona como uma ação de marketing de alcance global.

De carruagens a veículos blindados

A poucos passos dali, o Padiglione delle Carrozze, inaugurado em 1973, durante o pontificado de Paulo VI, amplia esse percurso histórico. O espaço reúne carruagens cerimoniais do século XIX e automóveis modernos utilizados pelos papas.

Entre os destaques está a Berlina di Gran Gala, um coche fechado, puxado por cavalos e usado em cerimônias oficiais. Construído em 1826 para Leão XII, tem decoração dourada e assento com aparência de trono.

Pouco mais de um século e meio depois, em 1980, o Mercedes-Benz 230 G inaugurou o conceito moderno de papamóvel. Desenvolvido para a visita de João Paulo II à então Alemanha Ocidental, o utilitário combinava assento elevado e cúpula transparente de acrílico.

A inovação resolveu dois problemas. Protegia o papa das intempéries sem escondê-lo dos fiéis. Até então, as limusines pretas tradicionais e os veículos abertos impunham uma escolha: resguardar o pontífice das condições do tempo ou mantê-lo à vista da multidão.

O Mercedes-Benz Nürburg 460, doado a Pio XI em 23 de maio de 1930, inaugurou a parceria entre a montadora alemã e o Vaticano (Foto: Vatican Media)

Em 1980, o Mercedes-Benz 230 G inaugurou o conceito moderno de papamóvel, com assento elevado e cúpula transparente de acrílico, permitindo a João Paulo II ficar visível aos fiéis e, ao mesmo tempo, protegido das intempéries (Foto: Vatican Media)

Quando sofreu o atentado, em 13 de maio de 1981, João Paulo II estava a bordo de um Fiat Campagnola aberto, na Praça São Pedro. No detalhe, a localização do extremista turco Mehmet Ali Ağca entre os fiéis, momentos antes dos disparos (Foto: Facebook)

Antes dos anos 1980, os carros pontifícios eram totalmente fechados ou abertos, como o Mercedes-Benz 300 d Pullman Landaulet, adaptado para o Vaticano em 1960 e usado pelo papa Paulo VI (Foto: Vatican Media)

Em 1982, o Seat Panda foi transformado em papamóvel em apenas 15 dias, depois que o Mercedes-Benz blindado de João Paulo II se mostrou grande demais para os acessos aos gramados de dois estádios espanhóis (Foto: wikimedia.org)

A capota traseira retrátil do Mercedes-Benz 600 Landaulet permitia abrir apenas a parte do teto sobre o banco traseiro, onde ficava o papa Paulo VI, mantendo fechada a cabine do motorista

Preparada para a visita de Leão XIV ao Uruguai, em novembro, a Fiat Titano foi transformada em papamóvel com laterais abertas, cobertura transparente, assento giratório com ajuste elétrico de altura e escada retrátil para facilitar o acesso do pontífice (Foto: Stellantis)

Fabricado em 1967, o Mercedes-Benz 300 SEL Pullman Limousine foi pouco usado por Paulo VI por não ter ar-condicionado, mas acabou se tornando um dos veículos preferidos de João Paulo II (Foto: Vatican Media)

“Não queremos que as mãos do papa [Leão XIV] fiquem frias”, diz Marc Langenbrinck, CEO da Mercedes-Benz Itália, ao explicar o sistema de aquecimento desenvolvido para a alça de apoio do papamóvel elétrico (Foto: Vatican Media)

A configuração inaugurada pelo Mercedes-Benz 230 G tornou-se uma das mais longevas do transporte pontifício. Os papamóveis baseados no Classe G acompanharam João Paulo II por mais de duas décadas, mas passaram por adaptações que iam muito além da proteção contra o vento e a chuva.

A segurança ganhou outra dimensão após o atentado de 13 de maio de 1981, cuja memória também está preservada no Padiglione delle Carrozze. Naquele dia, João Paulo II percorria a Praça São Pedro a bordo de um Fiat Campagnola aberto, acenando para cerca de 20 mil fiéis, quando foi atingido por tiros disparados pelo extremista turco Mehmet Ali Ağca.

Após o ataque, o 230 G recebeu blindagem e vidros à prova de balas, mas o veículo ficou muito pesado. O projeto evoluiu com o 230 GE, que combinava proteção reforçada e motor de injeção eletrônica mais potente. Um exemplar do modelo está em exibição no Padiglione delle Carrozze.

Nem todos os papamóveis, porém, encerram sua trajetória no museu. O Mitsubishi utilizado por Francisco na Terra Santa, em 2014, ganhou uma nova missão: foi transformado no projeto Vehicle of Hope, uma clínica pediátrica móvel destinada a atender crianças em Gaza. Apresentado em 2025, o veículo ainda aguarda autorização para entrar no território.

Um papamóvel para cada ocasião

Nas viagens internacionais, os papamóveis costumam ser enviados de Roma antes da chegada do pontífice, em aviões cargueiros militares ou comerciais. Em 1982, porém, o desafio não foi cruzar fronteiras, mas passar pelo portão.

Na visita de João Paulo II à Espanha, o plano era usar o recém-blindado Mercedes-Benz 230 G. O automóvel, porém, era grande demais para atravessar os túneis de acesso aos gramados dos estádios Santiago Bernabéu, em Madri, e Camp Nou, em Barcelona. A solução veio de um compacto, o Seat Panda.

Em apenas 15 dias, a fabricante espanhola transformou um dos carros mais simples e baratos da Europa dos anos 1980 naquele que talvez seja o mais simpático dos veículos papais. Somadas as aparições nos dois eventos, o Panda papamóvel não chegou a uma hora de uso.

A adaptação de modelos locais nem sempre nasce de um imprevisto como o espanhol. Pode fazer parte do planejamento da visita, com veículos personalizados de acordo com as especificações do Vaticano.

É o caso da próxima viagem de Leão XIV à América Latina, entre 6 e 17 de novembro. No Uruguai, o pontífice utilizará um Fiat Titano adaptado pela Stellantis.

Esta será a segunda vez que a montadora italiana atenderá um papa na região. Em julho de 2013, Francisco percorreu as ruas do Rio de Janeiro a bordo de um Fiat Idea, durante a Jornada Mundial da Juventude.

Na Argentina, o Leão XIV terá duas Toyota Hilux disponíveis. E, no Peru, picapes Chevrolet Colorado, fabricadas no Brasil.

O alcance dos veículos pontifícios vai além de suas rotas e destinos. Com laterais abertas ou cúpula transparente, eles funcionam como uma espécie de altar itinerante. Ao se deslocar lentamente entre os fiéis, o papamóvel transforma a passagem do Santo Padre em uma bênção em movimento.



Fonte: NeoFeed

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