A pouco mais de duas semanas da eleição presidencial, pesquisas de intenção de voto, rejeição e segundo turno tentam capturar diariamente o movimento do eleitor brasileiro. O economista e pesquisador Maurício Moura acompanha cada uma delas. Mas só pretende transformar essas informações em posições no mercado financeiro a partir de 29 de setembro, cinco dias antes da abertura das urnas no Brasil.
Fundador do instituto de pesquisas IDEIA, Moura é um dos responsáveis pelo Zaftra, um multimercado criado em 2023 em parceria com Fabio Okumura, fundador da Gauss Capital, que tem como foco eventos eleitorais no Brasil e no exterior. O fundo, que é baseado em Cayman e tem cotas distribuídas no País, tenta ganhar dinheiro no curto intervalo em que uma eleição democrática pelo mundo deixa de ser uma disputa política e passa a ser um evento de mercado.
A estratégia consiste em identificar diferenças entre a probabilidade calculada pela equipe de análise de dados políticos para o resultado de uma eleição e aquela que já está precificada pelo mercado, segundo os gestores.
A leitura política feita por Moura é traduzida pela equipe de gestão em posições compradas ou vendidas em ações, moedas, juros e títulos de dívida. O trade não está simplesmente em quem ganhará a eleição, mas na assimetria, ou seja, quais ativos ainda não incorporaram corretamente esse resultado.
Desde o início das operações, o Zaftra participou de 42 eleições ao redor do mundo e obteve resultado positivo em 38 delas, uma taxa de sucesso superior a 90%.
Apenas uma operação terminou com prejuízo provocado por uma leitura eleitoral errada dos ativos que poderiam gerar lucro. Em outubro de 2024, a eleição geral antecipada no Japão renovou os 465 assentos da Câmara dos Representantes, a câmara baixa do Parlamento japonês.
Convocada pelo recém-empossado primeiro-ministro Shigeru Ishiba, a eleição terminou com uma derrota expressiva da coalizão governista formada pelo Partido Liberal Democrata e pelo Komeito.
A diferença entre acertar uma eleição e ganhar dinheiro com ela é uma das sutilezas da estratégia. Mesmo quando o resultado das urnas está correto, a reação dos ativos pode ter sido antecipada pelos investidores ou seguir uma direção diferente daquela prevista pelo fundo.
“Você pode acertar o call da eleição e ainda ter uma questão de mercado. Pegando o beisebol como exemplo, a gente joga um jogo de base. De vez em quando aparece um home run”, diz Moura, ao NeoFeed.
Se o jogo de base é a forma mais conservadora de marcar pontos percorrendo as quatro marcações do campo, o home run é a grande tacada do beisebol. No Zaftra, o maior acerto aconteceu nas eleições legislativas da Argentina de 2025.
O fundo de Moura e Okumura montou posições em ADRs do Banco Galicia e da petroleira YPF, negociados nos Estados Unidos, uma operação que rendeu 9% ao Zaftra.
Mais importante do que antecipar o vencedor, nesse caso, foi perceber que o mercado ainda não havia incorporado completamente a dimensão do apoio eleitoral ao governo de Javier Milei – e o impacto que o resultado teria sobre bancos, empresas de energia e títulos argentinos.
O fundo procura esse tipo de assimetria principalmente nos mercados emergentes ou em países cujas eleições recebem menos cobertura dos grandes investidores internacionais.
Quanto menor o número de bancos, gestoras, consultorias e analistas acompanhando a disputa, maior tende a ser a distância entre a probabilidade calculada pelo Zaftra e aquela já incorporada aos preços dos ativos.
“Nos países emergentes há mais oportunidade de assimetria. Não tem tanta gente cobrindo eleição. Mas Alemanha, Japão e Estados Unidos está todo mundo olhando”, afirma Moura, citando Argentina, Polônia, África do Sul e Índia que já renderam oportunidades para o fundo.
O trade mais recente aconteceu na Suécia. Na eleição parlamentar vencida pelo bloco de centro-esquerda, liderado por Magdalena Andersson, o Zaftra identificou que a oposição tinha uma probabilidade de vitória maior do que aquela considerada pelo mercado. A leitura foi transformada em uma posição na bolsa sueca e terminou com ganho para o fundo.
Com gestão discricionária, o Zaftra não precisa sempre montar uma posição comprada em bolsa ou na moeda de um país. Quando a disputa está muito equilibrada ou os gestores não identificam uma distância relevante entre sua projeção e os preços dos ativos, o fundo pode reduzir a exposição ou combinar operações para que uma compense a outra.
“O importante é não deixar uma eleição em que não temos convicção produzir uma perda muito grande”, diz Moura.
As posições também costumam durar pouco. O fundo começa a estudar cada disputa meses antes da votação, mas concentra os trades nas semanas ou nos dias que antecedem o pleito. Depois da divulgação do resultado, a carteira pode ser desmontada.
“Tentamos capturar a variação do evento. Já houve eleição em que saímos literalmente na segunda-feira”, diz ele.
Entre uma operação e outra, os recursos ficam aplicados em instrumentos líquidos e de menor risco, como títulos atrelados ao CDI no Brasil ou papéis do Tesouro americano no exterior.
Mas o dinheiro não costuma permanecer estacionado por muito tempo. O calendário global de eleições faz com que a equipe esteja quase sempre encerrando uma posição e estudando a seguinte.
Call do Brasil
Depois da disputa sueca, o Brasil se tornou o evento central. Até 29 de setembro, pesquisas continuarão sendo pesquisas eleitorais. A partir daí, passam a valer dinheiro para o Zaftra.
Até cinco dias antes do primeiro turno, o fundo acompanhará o que os dados referentes à preferências dos eleitores indicam e qual é a chance de a corrida deixar de refletir apenas preferências individuais e repetir o movimento de 2022 de voto anti-governo.
“Neste momento, estou enxergando uma assimetria com a possibilidade de a eleição acabar no primeiro turno”, diz Moura.
A principal questão observada por ele é a maneira como o eleitor da direita reorganizará suas escolhas na reta final. Com mais de uma candidatura disputando esse campo, parte do eleitorado pode terminar votando em quem demonstrar maior capacidade de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – neste momento, Flávio Bolsonaro (PL).
Essa dinâmica se aproxima do chamado voto estratégico em que o eleitor abandona sua primeira preferência para apoiar o candidato considerado mais competitivo. E, para ele, neste ano a esquerda não tem como competir com esse movimento.
Isso porque a concentração em torno de um único candidato – Lula – reduz, segundo Moura, a possibilidade de uma migração semelhante. Essa diferença pode fazer com que a fotografia eleitoral mude rapidamente nos últimos dias.
Lançado em 2023, depois de aproximadamente um ano de simulações com eventos reais, o fundo nasceu da combinação de duas especialidades. Moura trouxe a experiência em pesquisas de opinião, comportamento eleitoral e campanhas. Okumura, com mais de três décadas no mercado financeiro, ficou responsável pela tradução das probabilidades em posições de investimento.
A parceria começou a tomar forma durante a eleição brasileira de 2022. Clientes de Moura já utilizavam suas análises para orientar decisões no mercado quando ele propôs a Okumura a criação de um veículo dedicado a operar eventos eleitorais ao redor do mundo.
Em junho de 2025, a Gauss foi adquirida pela ASA Investments e os fundos passaram para a estrutura da compradora. Okumura, que nesse M&A foi ser o CIO da asset, saiu em junho deste ano.
Até 16 de setembro, o Zaftra acumulava rentabilidade de 69,61% desde o início, diante de 51,65% do CDI, o equivalente a 134,77% do benchmark. Nos últimos 12 meses, a valorização era de 28,75%, ou 197,91% do CDI.
Com cerca de R$ 100 milhões de patrimônio líquido no Brasil e no exterior, o fundo é voltado para investidores qualificados e profissionais, mas está fechado para captação. Sua gestão também é objeto de uma disputa envolvendo a ASA e cotistas de quatro veículos originados na Gauss, entre eles o Zaftra.
Assembleias foram convocadas para discutir a eventual substituição da ASA pela B.Side Wealth Management. A gestora tentou impedir judicialmente as votações, mas teve os pedidos de urgência negados em primeira e segunda instâncias – o mérito da disputa ainda está em análise.








