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O Brasil está longe de ser uma terra arrasada para os investidores estrangeiros, diz Brito, do UBS BB


Duas semanas antes do segundo turno das eleições presidenciais, o UBS BB publicou um relatório otimista com as projeções para o mercado de capitais brasileiro. Com o título “O que a alta após o primeiro turno da eleição significa para os negócios”, o relatório mapeava 120 potenciais aberturas de capital (IPO, na sigla em inglês) no Brasil em uma janela de três anos.

O resultado das urnas, no entanto, fez o mercado recalibrar as expectativas. A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe de volta as preocupações com a condução fiscal do País, diante da resistência do governo a cortes de gastos considerados essenciais pelo mercado.

No mercado de capitais, uma das áreas mais sensíveis aos juros e aos efeitos das taxas de desconto sobre o valor dos ativos, a perspectiva é de um ambiente mais desafiador diante das incertezas fiscais.

Após o pleito, o UBS BB refez suas estimativas e agora projeta 50 IPOs no Brasil para os próximos três anos. Apesar da redução, o cenário está longe de ser de “terra arrasada”, na avaliação de Anderson Brito, diretor de investment banking do UBS BB.

“Não vemos um cenário em que o mercado vai fechar 100%. Trabalho com isso há 20 anos, já vimos [essa incerteza] no passado. Depois que tivermos indicações da Fazenda e do novo time do governo, esperamos que o mercado se acomode”, afirma Brito em entrevista ao NeoFeed. “Seguimos com viés positivo para o Brasil”.

Enquanto o investidor local ajusta as expectativas, o estrangeiro ainda tem boas perspectivas para investimentos no Brasil e está menos preocupado com um quarto mandato de Lula, segundo o executivo.

“Em conversas com investidores internacionais, eles dizem que conhecem Lula. É um político que atua há mais de 25 anos e que esse investidor já sabe como trabalha”, diz Brito.

O UBS BB projeta um volume de ofertas de ações em torno de R$ 48 bilhões para 2027 – aproximadamente R$ 35 bilhões em follow-ons e entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões em IPOs.

Os setores com maior potencial de atrair essas operações têm em comum uma exposição menor contra a volatilidade do mercado local – infraestrutura, setor financeiro, commodities e tecnologia, especialmente em empresas de alto crescimento (high growth). A projeção do UBS BB é de 10 estreias na bolsa no próximo ano.

Entre os possíveis IPOs, estão empresas estaduais de saneamento e concessionárias de rodovias, como a EPR. Empresas de high growth, como QI Tech, Wellhub (antiga GymPass) e Live Nation, também são “candidatas naturais”, segundo o executivo.

“O Brasil tem um mercado grande, setores pouco penetrados e empresas com arbitragem de valuation [em relação ao exterior]. Temos nomes grandes e acho que esse é um ponto de entrada importante [para os investidores estrangeiros]”, afirma Brito.

As perspectivas também mudaram para o mercado de fusões e aquisições (M&As). A projeção de crescimento das operações de M&A passou de um patamar de 30% ao ano antes do segundo turno para um avanço de 10% ao ano na estimativa atual – levemente abaixo dos 16% registrados em 2026.

Brito não descarta, no entanto, uma revisão das estimativas do UBS BB caso o novo governo de Lula dê sinalizações mais positivas para os rumos da economia em seu quarto mandato. “É algo que aumentaria o mercado endereçável. Em vez de vermos um avanço de 10% em M&A, poderíamos ver algo na casa dos 20%”, afirma ele.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O UBS BB tinha um mapeamento de 120 empresas com potencial para abrir capital antes do segundo turno. Como ficou a expectativa com a vitória de Lula?
Realmente, a gente tinha aquelas 120 empresas. Obviamente, era uma lista um pouco mais ampla, considerando um cenário em que poderia haver um ajuste fiscal um pouco mais forte, com compressão dos juros e, consequentemente, das taxas de desconto. Quando você comprime a taxa de desconto e os juros, eventualmente tem um upside maior nos papéis, porque boa parte do valor dos ativos está no longo prazo.

O mercado vai fechar?
Não vemos um cenário em que o mercado vai fechar 100%. Trabalho com isso há 20 anos, já vimos [essa incerteza] no passado. Depois que tivermos indicações da Fazenda e do novo time do governo, esperamos que o mercado se acomode. Seguimos com viés positivo para o Brasil.

“Conversamos com dez hedge funds internacionais depois do resultado da eleição, e esse interesse [pelo Brasil] continua existindo”

Os investidores seguem demonstrando interesse em investir no mercado local?
A gente continua vendo interesse implícito pelo Brasil. Conversamos com dez hedge funds internacionais depois do resultado da eleição, e esse interesse continua existindo. Obviamente, com o cenário de juros de longo prazo um pouco mais altos, há maior seletividade em relação ao tamanho dos ativos.

Como ficou o pipeline de ofertas?
Ainda temos mapeadas cerca de 50 empresas que podem fazer IPO nos próximos três anos. Para o ano que vem, esperamos um volume de ofertas entre IPOs e follow-ons de R$ 48 bilhões – aproximadamente R$ 35 bilhões em follow-ons e entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões em IPOs. O grosso vai ser de follow-ons, serão entre 15 e 20 operações desse tipo, contra cerca de 10 IPOs.

Entre os IPOs previstos para o próximo ano, quais setores e empresas podem ter maior atratividade?Primeiro, os setores relacionados à infraestrutura, que ainda são pouco penetrados no Brasil e exigem investimentos relevantes. Saneamento, geração de energia, transmissão e rodovias são exemplos. Temos uma subpenetração grande nesses segmentos e um volume relevante de investimentos contratados para os próximos anos.

“Para o ano que vem, esperamos um volume de ofertas entre IPOs e follow-ons de R$ 48 bilhões”

Pode citar alguns nomes?
Vamos ter uma nova rodada de privatizações estaduais de empresas de saneamento. Também temos alguns participantes de rodovias, como a EPR. Eventualmente, empresas de saneamento que já são listadas podem fazer follow-ons. O mesmo vale para empresas de energia, que podem buscar recursos para financiar mais capex. Então, são também os nomes já listados.

Quais os outros setores além da infraestrutura?
Em tecnologia, temos também as empresas de high growth. Entre as candidatas naturais, estão QI Tech, Wellhub (antiga GymPass) e Live Nation. Mesmo que a taxa de desconto esteja um pouco mais elevada, são negócios em que o micro é muito mais importante do que o macro. Pelo volume de crescimento, mesmo com uma taxa de desconto maior, você ainda pode ter ativos atrativos para o mercado.

Existe mercado no Brasil para esse segmento de empresas de alto crescimento?
Eventualmente, alguns nomes vão listar lá fora, porque o mercado endereçável é maior e os comparáveis estão no exterior. Outros vão listar aqui.

Quais outros grupos o UBS BB monitora como possibilidade de listagem no mercado local?
Existe um terceiro grupo, que são os setores defensivos, como serviços financeiros. Por um lado, você tem um ambiente de crédito mais restritivo; por outro, com juros altos, o net income desses participantes aumenta. São setores em que continuaremos vendo apetite, tanto em serviços financeiros e bancos quanto em outros negócios que geram caixa. E temos ainda o setor de commodities.

O câmbio influencia?
Nesse ambiente de dólar, esses são setores que tiveram bom desempenho. Há menos discussão sobre incerteza fiscal e muito mais influência das tendências globais das commodities. A Petrobras tem um nível de produção extremamente relevante em um ambiente de petróleo em outro patamar. Da mesma forma, vemos um nível de apetite relevante por minerais críticos. Nos últimos dois meses, entraram vários mandatos de venda de ativos de terras raras, focados em chineses, australianos e americanos desse segmento. A tendência global é muito mais relevante do que o cenário macroeconômico local.

Podemos dizer, então, que todos esses setores têm como característica comum uma associação maior com tendências globais ou, pelo menos, são setores que sofrem menos com o cenário macroeconômico brasileiro, certo?
Exatamente. Ainda temos uma visão construtiva em relação ao Brasil e ao governo. O mercado está um pouco mais seletivo e vai esperar a nomeação dos principais cargos do governo para tomar decisões. Depois que a poeira baixar, devemos ver o mercado reabrindo.

“Existe uma arbitragem importante entre o valuation do Brasil, o de outros mercados emergentes e o dos Estados Unidos. Não é essa terra arrasada que parte da indústria de fundos têm descrito”

O apetite do investidor estrangeiro é maior?
Sim. Existe uma arbitragem importante entre o valuation do Brasil, o de outros mercados emergentes e o dos Estados Unidos. Há nomes grandes, bastante defensivos e com liquidez, para os quais faz todo sentido vir ao mercado. Não é essa terra arrasada que parte da indústria de fundos têm descrito. Obviamente, quem apostou tudo na eleição está extremamente negativo. Alguns fundos long and short e multimercados sofreram mais. Mas, em conversas com investidores internacionais, eles dizem que conhecem Lula. É um político que atua há mais de 25 anos, entre os governos Lula e Dilma, e que esse investidor já sabe como trabalha.

E considerando as expectativas para IPOs, esses são setores atrativos para o investidor global?
Sim, o Brasil tem um mercado grande, setores pouco penetrados e empresas com arbitragem de valuation [em relação ao exterior]. Temos nomes grandes, e acho que esse é um ponto de entrada importante. E, no fim do dia, não podemos olhar apenas para a indústria local. Se você pensar no mercado americano, ele negocia cerca de US$ 1 trilhão por dia. O mercado brasileiro, aqui na nossa corretora, movimenta cerca de US$ 7 bilhões por dia. A gente olha para o nosso microcosmo brasileiro e esquece a perspectiva global.

Poderia haver algum tipo de risco institucional com a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos?
Acho pouco relevante, porque a eleição já foi reconhecida por todos os partidos. Democraticamente, o Brasil sempre foi bastante estável. A partir do momento em que você sai do Brasil dessa forma, acho que passa mais uma mensagem de fraqueza do que cria uma base de oposição. Obviamente, haverá coisas com as quais concordamos e outras com as quais não concordamos [no atual governo], mas as instituições funcionam da maneira correta. O mercado vai continuar existindo e haverá interesse pelo Brasil – talvez em um patamar um pouco mais baixo. A indústria local vai reclamar um pouco, mas a indústria local de equities é muito pequena em comparação com a global.

Em M&As, havia projeção de crescimento anual superior a 30%. Essa perspectiva também foi revisada?
Esperamos algo próximo de 10% em dólares. No acumulado do ano até outubro, o mercado de M&A no Brasil está crescendo 16,4%, e o volume financeiro das transações em dólares avançou 39,5%, contra 33,9% no ano passado.

Se houver algum tipo de ajuste fiscal por parte do novo governo, as perspectivas podem mudar?
É algo que aumentaria o mercado endereçável. Em vez de vermos um avanço de 10% em M&A, poderíamos ver algo na casa dos 20%. Um ponto a se observar é a escolha do ministro da Fazenda. Gosto muito do nome do Rafael Fonteles [governador do Piauí]. Ele é um governador extremamente competente, ele tem um currículo muito bom, já foi secretário da Fazenda, entende a dinâmica fiscal, tem uma formação acadêmica relevante. Então, gosto do nome.



Fonte: NeoFeed

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