Mercado Financeiro

No Sul, nanoempreendedoras descartam voltar para a CLT


Na região Sul, a falta de modelos flexíveis no trabalho formal torna a CLT um formato de difícil conciliação para muitas trabalhadoras: sete em cada dez nanoempreendedoras declaram que jamais ou raramente cogitam retornar ao emprego com carteira assinada.

A conclusão parte do estudo “Nanoempreendedora em Foco: Identidade e Paradoxo da Autonomia”, realizado pelo Instituto Consulado da Mulher, ação social mantida pela Whirlpool, em parceria com a Engie, apoio da Be.Labs e execução da Vert.se.

Diante da falta de suporte público para os cuidados da família, como vagas e horários limitados em creches, a gestão do próprio negócio surge como a principal via para adaptar a rotina profissional às exigências do lar.

No Sul, 71% das nanoempreendedoras vivem em lares com renda familiar total de até três salários mínimos. Em termos de receita empresarial, 71% registram faturamento de até R$ 3.000 mensais, sendo 38% com faturamento de até R$ 1.000 por mês e 33% com renda entre R$ 1.000 e R$ 3.000.

O Sul também se destaca por apresentar o maior índice de formalização empresarial do país para a categoria, com 55% de empreendedoras formalizadas (frente a 44% na média brasileira).

Qualificação elevada, mas renda insuficiente

O recorte do Sul traz à tona o chamado “paradoxo da qualificação”: na região, 62% das nanoempreendedoras possuem ensino superior completo ou pós-graduação, um índice de instrução superior à média nacional de 40%.

Contudo, a elevada escolaridade não tem garantido espaço no mercado corporativo tradicional nem remunerações condizentes, fazendo com que muitas profissionais altamente qualificadas migrem para a informalidade ou para a gestão de pequenos negócios domésticos.

Para a diretora executiva do Instituto Consulado da Mulher, Adriana Carvalho, não basta olhar para o nanoempreendedorismo apenas sob a ótica do faturamento, pois trata-se também de uma ferramenta indispensável de autonomia e gestão da rotina diária.

“O fato de 62% das empreendedoras do Sul possuírem nível superior revela que o mercado de trabalho formal continua expelindo profissionais qualificadas por não absorver as demandas da economia do cuidado. Não haverá fortalecimento econômico feminino real sem enfrentarmos a sobrecarga doméstica”, afirma Carvalho.

Metade afirma trabalhar mais hoje em seus próprios negócios do que na época de celetista Agência Brasil

O impacto do trabalho doméstico e das estruturas familiares

A sobrecarga das tarefas domésticas afeta diretamente a rotina das trabalhadoras sulistas, das quais quase sete em cada dez são as únicas responsáveis pela manutenção da casa.

A estrutura familiar regional destaca-se pelo alto índice de casamentos ou uniões estáveis (75%, ante 60% na média nacional), enquanto 25% não têm parceiro residente no domicílio. A maternidade permanece como traço predominante, estando presente na vida de 85% das pesquisadas.

Cerca de 50% afirmam trabalhar mais hoje em seus próprios negócios do que na época em que tinham carteira assinada, com 43% dedicando de 5 a 7 horas diárias à empresa e 23% ultrapassando oito horas diárias de trabalho.

Esse ritmo contínuo reflete-se na saúde: 40% desenvolveram ansiedade, depressão ou estresse intenso especificamente após começarem a empreender, e 38% gerenciam seus negócios convivendo com dores crônicas ou limitações físicas.

Essa dinâmica perpetua o fenômeno conhecido como “piso pegajoso”(sticky floor), barreira invisível que retém as trabalhadoras na base socioeconômica devido ao peso do trabalho não remunerado do lar.

No quesito raça, 45% das nanoempreendedoras sulistas declaram-se mulheres negras. O indicador, embora menor que a média nacional de 71%, sobressai ao representar um contingente cinco vezes superior à própria proporção de mulheres negras na população feminina da região Sul (9%, segundo a PNAD 2024).



Fonte: Amanhã

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