Quase duas décadas após se tornar a segunda maior economia do mundo, a China quer ampliar o papel de seu mercado de capitais no financiamento internacional – e o Brasil está de olho nesse movimento.
A Vale é a mais nova companhia brasileira que pretende se financiar no mercado chinês por meio dos chamados panda bonds. A mineradora anunciou na terça-feira, 20 de outubro, a intenção de emitir até 10 bilhões de yuans (US$ 1,5 bilhão) desses títulos.
Se for adiante, a Vale se juntará à Suzano, única empresa brasileira e latino-americana a realizar uma operação de panda bond até o momento. Mas a perspectiva é de que possam vir mais por aí.
Em meio aos esforços de Pequim para internacionalizar o yuan, os panda bonds vem ganhando espaço no mundo e começam a aparecer como possibilidade para empresas brasileiras diversificarem as fontes de recursos e acessar um país com altos índices de poupança.
Até mesmo o Tesouro Nacional estuda uma possível emissão de “panda bonds. Nesta semana, fez uma um roadshow com investidores e uma série de reuniões com autoridades e participantes do mercado na China. O governo pretende captar até 5 bilhões de yuans, o equivalente a cerca de US$ 735 milhões
“O mercado chinês ainda é relativamente novo para emissores estrangeiros, mas o país vem abrindo gradualmente suas portas”, afirma Alexei Remizov, diretor-executivo do HSBC, ao NeoFeed.
Emitidos pela primeira vez em 2005, os panda bonds vêm se expandindo rapidamente. No acumulado do ano até o início de outubro, foram realizadas 130 emissões, que somaram 234 bilhões de yuans (US$ 36,3 bilhões), superando o volume registrado em todo o ano de 2025, segundo estudo do UBS.
No ano passado, ocorreram 123 emissões, que totalizaram 183 bilhões de yuans (US$ 27,3 bilhões). O número de emissores estrangeiros também vem aumentando. Segundo o banco, em 2026, 50 nomes já acessaram o mercado, 67% acima do total registrado em 2025. Entre eles estão bancos, empresas e instituições multilaterais, além de companhias como o Deutsche Bank e a Volkswagen e governos, como o da Indonésia.
O crescimento dos panda bonds tem muito do dedo de Pequim. De olho em atrair recursos, as autoridades vêm promovendo reformas no mercado nos últimos anos, com a flexibilização de regras e a simplificação dos procedimentos de emissão.
As mudanças incluem maior flexibilidade no uso dos recursos captados e facilidades para transferir o dinheiro para fora da China. Esse movimento reduz barreiras operacionais e pode tornar o mercado mais acessível a empresas internacionais. “A ideia do governo chinês é permitir que emissores globais tenham acesso a esse mercado”, diz Remizov.
O acesso aos investidores chineses também pode trazer vantagens financeiras. Dependendo das condições de mercado, emitir em yuan e converter os recursos para dólares pode resultar em um custo total inferior ao de uma operação realizada diretamente no mercado americano.
Segundo Remizov, a economia após o hedge cambial pode chegar a 100 pontos-base ou mais em determinadas operações. Em outros casos, fica na faixa de 30 a 50 pontos-base. “A vantagem depende das condições de mercado”, afirma o executivo, destacando que a comparação precisa considerar o custo final da captação e não apenas a taxa nominal em yuan.
A questão do custo foi um fator que chamou a atenção da Suzano. Segundo o CFO Marcos Assumpção, as captações que a companhia fez tiveram um custo cerca de 50 pontos-base inferior ao de uma operação equivalente no mercado americano, mesmo após a conversão dos recursos para dólares.
“Mesmo considerando o custo total da operação e convertendo os recursos para dólares por meio de swap, moeda que usamos para avaliar todas as nossas emissões, o custo ficou abaixo do que teríamos em um título de prazo equivalente no mercado americano”, afirma Assumpção.
Mais do que o custo, o CFO da Suzano vê os panda bonds como uma forma da maior produtora de celulose do mundo diversificar suas fontes de financiamento e fortalecer suas relações em um país que absorveu 40% de suas vendas ao exterior.
A estratégia também representa uma aposta no futuro desse mercado, diante dos esforços do governo chinês para ampliar o acesso de emissores estrangeiros. Ao fim de 2025, o mercado de títulos da China somava 196,7 trilhões de yuans (cerca de US$ 28 trilhões), segundo dados do Banco Popular da China, o banco central chinês, divulgados pela agência estatal Xinhua.
Desafios
Outras companhias brasileiras também têm considerado o instrumento. Segundo Camila Ohno, advogada do Pinheiro Guimarães, escritório que assessorou as duas emissões de panda bonds da Suzano, houve um aumento na procura por informações sobre o mercado. Ela ressalta, porém, que isso não significa que novas emissões estejam prestes a acontecer.
“Temos visto uma procura muito maior, eu diria, esse ano de companhias querendo entender como é que funciona para talvez se preparar para fazer emissão de panda bonds”, diz Ohno. “As empresas querem entender melhor como acessar o mercado e quais ajustes precisam fazer antes de emitir.”
No curto prazo, porém, os panda bonds ainda estão longe de substituir as principais praças globais, tanto pela profundidade dos outros mercados como pelas particularidades do mercado chinês.
Apesar de sua dimensão, o mercado de títulos chinês é menor, em termos de acesso para emissores internacionais, do que o dos Estados Unidos, cujo estoque de títulos de renda fixa chegou a US$ 61,2 trilhões em 2025, de acordo com a Securities Industry and Financial Markets Association (SIFMA), associação do setor de valores mobiliários dos Estados Unidos. Dentro do próprio mercado chinês de dívida, os panda bonds ainda representam menos de 1%.
“É um mercado restrito a poucos investidores na China”, diz Samy Podlubny, chefe da área de dívida do UBS BB. “Ainda não vejo como uma alternativa ao mercado de dólar, nem em tamanho, nem em prazo, nem em profundidade, nem em complexidade.”
Podlubny destaca que o mercado ainda é concentrado em bancos chineses e algumas seguradoras, com participação mais restrita de outros tipos de investidores. Isso pode limitar o volume que uma companhia consegue captar e tornar a distribuição dos títulos menos ampla do que nos mercados internacionais mais maduros.
Além disso, as emissões de panda bonds ainda envolvem volumes menores e prazos mais curtos. É o caso da Suzano, cujos títulos têm vencimentos em três e cinco anos, enquanto o prazo médio da dívida da companhia supera seis anos. Os cerca de US$ 340 milhões captados nas duas operações representam menos de 3% da dívida líquida total da empresa, próxima de US$ 13 bilhões.
Ohno aponta ainda que as exigências dos reguladores chineses permanecem um desafio, apesar das flexibilizações. Os emissores precisam atender às regras locais de classificação de risco e apresentar demonstrações financeiras em padrões aceitos pelas autoridades chinesas, o que pode exigir adaptações em relação às práticas adotadas em outras jurisdições.
Além disso, as empresas precisam fazer um esforço para se apresentar aos investidores locais. Com isso, o acesso tende a ser mais natural para companhias que já mantêm relações comerciais ou financeiras com a China, embora nem mesmo esse vínculo garanta que uma operação seja bem-sucedida.
“É uma coisa que dá bastante trabalho e que, para empresas grandes, quando você olha para o volume e para o prazo dos títulos emitidos, não me parece que seja um game changer para seus passivos”, diz Podlubny.
Uma eventual emissão soberana brasileira pode ajudar a ampliar esse universo. Em junho, o governo iniciou o processo para sua primeira emissão de títulos públicos em yuan no mercado chinês. A operação pode chegar a 5 bilhões de yuans (US$ 747,8 milhões), segundo disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, à agência Reuters.
Ao NeoFeed, o Tesouro informou que o plano continua sendo emitir neste ano, mas que a definição exata do momento e das características da operação ainda depende da conclusão de etapas legais e operacionais e das condições de mercado.
Uma emissão do governo brasileiro é vista como um possível caminho para abrir espaço para empresas privadas brasileiras, embora existam dúvidas sobre a continuidade do plano caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, diante da postura menos amigável de seu pai, Jair Bolsonaro, em relação à China durante seu mandato.
“Se o governo fizer isso, ele abre caminho para várias empresas”, diz Assumpção, da Suzano. “Como o crivo de muitos investidores é de empresas com investment grade, uma emissão do governo pode ajudar a trazer empresas que não têm esse rating, porque ajuda a atrair interesse pelas companhias brasileiras.”
Procurada pelo NeoFeed, a Vale informou que não comentaria para além do informado no comunicado divulgado na terça-feira.









