Em um ponto equidistante entre o caderno Ideias e o caderno Cidade do saudoso Jornal do Brasil, conheci Zuenir Ventura. Eram editorias talvez distantes pelo perfil, equivalentes ao Atlântico e ao Pacífico, mas que ficavam geograficamente próximas, em ilhas de edição, na antiga sede do JB no Rio de Janeiro do fim dos anos 1980.
Zuenir era um editor especial. À época, ele fechava o caderno Ideias, resolvia problemas na redação e estava sempre à frente de importantes projetos editoriais, como a cobertura da morte de Chico Mendes, que lhe rendeu o prêmio Esso de Jornalismo em 1989. E, com a coragem de seu coração valente, a tutela de um menino de 13 anos que testemunhou a conspiração pelo assassinato do líder seringueiro.
Para uma repórter estagiária de 19 ou 20 anos, o Jornal do Brasil era uma constelação no Rio de Janeiro, como muitos assim viam. João Saldanha circulava diariamente pela editoria de esporte, papas e papisas do jornalismo, como Ancelmo Góis, Zózimo Barroso do Amaral, Miriam Leitão, Ruth de Aquino, Tim Lopes, Rosental Calmon Alves, Cora Ronai e Regina Zappa cruzavam frequentemente a enorme redação carioca no sexto andar de um prédio que hoje virou um hospital de ortopedia, próximo à ponte Rio-Niterói.
Dos aquários centrais, comandavam a redação o editor-chefe Marcos Sá Corrêa, os editores executivos Flávio Pinheiro e Roberto Pompeu de Toledo. A redação tinha tons de bege — como o colunista Zózimo dizia ser “politicamente”, em uma de suas clássicas tiradas —, mas o sorriso cheio de graça de Mestre Zu coloria tudo, com sabedoria leve e bom-humor, quando ele passava com seu tênis Bamba por aqueles corredores amplos.
A notícia da saída de cena definitiva de Zuenir Ventura (1933-2026), aos 95 anos, faz a gente viajar por muitos tempos. Mineiro nascido em Além Paraíba e criado em Nova Friburgo (RJ), filho de um pintor de parede que também o ensinou a pintar casas e apreciar a humildade, teve influência na resistência à ditadura militar, que o prendeu por três meses após o decreto do AI-5, quando ele trabalhava na revista Visão.
Passou pelo Correio da Manhã, Fatos&Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ, JB e, nos últimos anos, O Globo. Presidiu a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo em 1979 e teria causado “embaraço” ao regime com uma reportagem premiada.
Professor e jornalista brilhante, aplaudido por obras fundamentais como 1968: O Ano que não Terminou, Cidade Partida, e a série de reportagens que resultou no livro Chico Mendes — Crime e Castigo, ele se reinventava o tempo todo. A beleza de sua vida dedicada ao trabalho jornalístico, à crônica e à literatura ganhou presença na cadeira 33, sucedendo Ariano Suassuna na Academia Brasileira de Letras (ABL).
“Sinto-me como um aluno repetente antes de prestar seu exame oral”, assim ele discursou, mencionando o nervosismo pela liturgia do novo cargo. “O peso simbólico desse fardão é muito maior do que o peso físico”. Mas, para muita gente — e eu me incluo nessa turma —, ele já era imortal muito antes de se tornar.
“Zuenir era suave como mestre. Ele só abria o sorriso e ensinava lições com o seu exemplo”
Ficou marcado em mim um dia em que cheguei à redação, lá pelas 18 horas, na hora do fechamento, depois de passar o dia no Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Havia um recado que Zuenir estava me procurando. Só o conhecia de vista. “Geeente”, pensei.
Do alto dos meus 20 anos, fui até o caderno Ideias. Ele me recebeu sorrindo. Queria checar a data efeméride do discurso de Márcio Moreira Alves, que fora pretexto para o AI-5 e os anos de Chumbo da Ditadura Militar. Em seu discurso, Márcio Moreira Alves lembrava a passagem de uma comédia de Aristófanes, Lisístrata.
O então deputado federal sugeriu que, durante as comemorações da semana da pátria, houvesse um boicote às paradas, acrescentando que o boicote deveria ser também protagonizado pelas moças, namoradas, àquelas que dançavam com cadetes e frequentavam jovens oficiais. Referia-se a uma peça do teatro grego. No enredo, a história é de uma imaginária ateniense que chefiou uma greve de sexo.
Em 1988, Zuenir estava finalizando seu livro 1968: O Ano que não terminou e citaria o episódio. Marcito, como era apelidado, era o secretário de Relações Exteriores do então governo Moreira Franco. Eu tinha feito uma matéria sobre o tema e escrevi que o fato ocorrera em 3 de setembro. “Já consegui checar”, ele me disse.
Zuenir acertou na checagem do discurso e eu errei por um dia. Havia sido em 2 de setembro de 1968. Fiquei com tanta vergonha que virei uma obsessiva com a precisão de fatos, dados e declarações, como, afinal, todo jornalista tem que ser. Mas Zuenir era suave como mestre. Ele só abria o sorriso e ensinava lições com o seu exemplo.
A sorte de, tempos depois, ter pertencido ao seu time de repórteres é marca que não se apaga. A oportunidade de ter testemunhado por alguns anos a sua rotina de trabalho como editor e também como repórter também não. Ele fez uma breve passagem de seis meses como editor do caderno Cidade do JB, após a saída de Manoel Francisco Brito, que tornar-se-ia correspondente em Washington.
“24 horas de chuva”, Zuenir resumiu, simples assim, de frente ao computador de fundo preto e letras alaranjadas, enquanto um grupo de editores pensava o título da capa do caderno sobre uma tempestade que assolou o Rio de Janeiro em 1988. A responsabilidade de preparar as manchetes, o estímulo que ele passava com as conquistas a cada cobertura, tudo era uma aula diária.
“Meio que sem perceber, Zuenir era também um mestre em provocar o exercício da liberdade entre os mais jovens”
A cada retorno da reportagem, ele correspondia em igual vibração. “Zuenir, o Nazareno me ligou de Bangu I!”, fui contar, eufórica. Era o personal trainer do então governador Moreira Branco. Nazareno tinha sido preso por ligações com o Comando Vermelho e estava no presídio de segurança máxima.
Eu o conhecia do Palácio Guanabara. Zuenir foi até a sala da rádio-escuta, onde eu estava, para entender exatamente como tinha sido aquela conversa. Fiz a matéria, seguindo suas orientações.
Gosto de lembrar dos dias em torno do lançamento do seu primeiro livro, 1968: O Ano que Não Terminou, porque explicam muito como era Zuenir. Tenho certeza de que ele sabia da sua grandeza, mas tinha uma humildade que inspirava. “Tô achando que não vai ninguém no lançamento”, ele confidenciava. Todos acharam graça.
Obviamente, o lançamento lotou. Meio que sem perceber, Zuenir era também um mestre em provocar o exercício da liberdade entre os mais jovens. Sua atenção e tratamento de igual para igual “aos colegas” deixava-nos à vontade. Guardo como relíquia até hoje meu livro autografado: “Para Gisele, gracinha de garota: com um beijo do colega, amigo, e presidente do seu fã clube. Espero que você curta esse trabalho como eu curto o seu”.
Pensando longe, nem acredito que tive a audácia de fazer essa piada na sequência: “Você esqueceu uma coisa muito importante de 1968”. “O que?”, ele perguntou: “Meu nascimento, ué?” E caímos na risada.
Um livro que começa com a história de um Réveillon “e termina com algo parecido com uma ressaca — ressaca de uma geração e de uma época” mostra a sua insustentável leveza para narrar o pior período da ditadura militar.
E seu texto continua: “Uma simples arqueologia dos fatos pode dar a impressão de que esta é uma geração falida, pois ambicionou uma revolução total e não conseguiu mais do que uma revolução cultural. Arriscando a vida pela política, ela não sabia, porém, que estava sendo salva historicamente pela ética. O conteúdo moral é a melhor herança que a geração de 68 poderia deixar para um país cada vez mais governado pela falta de memória e pela ausência de ética.”
No mesmo final dos anos 1980, eu me sentia uma privilegiada ao assistir ao mergulho do repórter Zuenir Ventura nas matérias de sua premiada série de reportagens sobre a morte de Chico Mendes. Todo dia, após horas vidrado no computador no aquário do editor do caderno Cidade, a redação era testemunha ocular de mais um capítulo daquela história que parou o país.
Todo aquele bastidor foi um capítulo à parte. Zuenir entrou na notícia. Nas palavras do então editor-chefe do JB, Marcos Sá Correa, presentes no posfácio do livro Chico Mendes – Crime e Castigo, lançado 15 anos depois do assassinato do líder seringueiro, em 1988, ele reagiu contrariado, com meia dúzia de piadas, à convocação para ir ao Acre, mas voltou com um trabalho decisivo para o caso: “(Zuenir) Foi ao Acre por quatro ou cinco dias. Ficou um mês. Ao voltar, não trazia só a reportagem que no fim do ano levaria o prêmio Esso. Trouxe mais”.
E Sá Correa emendou: “Trouxe um modelo de cobertura jornalística que, sem ter uma linha de isenção, conseguia mostrar todos os lados de uma história que, no fundo, tinha um lado só. E acabou trazendo até a testemunha que poria os assassinos de Chico Mendes na cadeia. Ou seja, o adolescente Genésio Ferreira da Silva (…)”.
“Zuenir deixou marcas no Acre”
Lembro de Genésio bem novinho, cabelos cortados, camiseta e calça jeans, caminhando ao lado de Zuenir nos corredores da redação do JB de 1988. “Havia um plano para sequestrá-lo e nem a Polícia Militar e nem o Exército tinham como garantir sua integridade”, escreveu Zuenir em Chico Mendes – Crime e Castigo: “A sugestão era que o garoto saísse de lá e ficasse sob minha tutela. Só assim, bem distante, estaria seguro. Não tive como recusar.”
Isso revelava a sua preocupação com o outro, traço autêntico que aparecia em diversas de suas histórias como repórter e editor.
Há quase dois anos, em dezembro de 2024, na 36ª Semana Chico Mendes (que coincidiu com o 80º aniversário de nascimento do ambientalista), tive a sorte de revisitar seus caminhos por Xapuri, no Acre, tendo seu livro Chico Mendes – Crime e Castigo, como guia amuleto.
Eu participava de um projeto audiovisual da produtora Estúdio Escarlate para um filme de ficção sobre Chico Mendes, dirigido por Sergio Machado e Sergio de Carvalho e produzido por Joana Henning, em desenvolvimento. Todos se lembravam do “jornalista”. Zuenir deixou marcas no Acre.
Na reserva extrativista Chico Mendes, na casa do seringueiro Raimundo Mendes, o Raimundão, primo de Chico Mendes, sem querer derramei água no livro, logo após andar pela mata onde jequitibás convivem com seringueiras. Molhou, as páginas enrugaram, mas entendi que foi um batismo.
Encontrei o menino Genésio, testemunha chave do crime contra o líder seringueiro que Zuenir protegeu até a maioridade. Eu me recordava nitidamente dele andando pela redação do Jornal do Brasil. Foi uma emoção revê-lo. Fizemos uma longa conversa ao lado de Sergio Machado e Sergio de Carvalho.
Tive um impulso de contar aquela epopeia a Zuenir. Mas sua saúde já não ia bem. Contei por meio do jornalista Mauro Ventura, seu filho, mandando mensagens efusivas do Acre: “Mauro, te escrevo de Xapuri, estou aqui refazendo os caminhos do Zuenir, muito emocionada, carregando o livro dele como um amuleto”.
Era uma sensação bonita, de muita responsabilidade, como se pudesse ter a chance de continuar os caminhos do mestre. Depois, eu e Mauro tomamos um café em Ipanema, onde pude contar mais e ouvir.
Após passar anos no Rio até a sua maioridade, Genésio voltou para o Norte, mas continuava considerando Mauro um irmão, e Zuenir, o pai que ele não teve. Zuenir e Mauro ajudaram a editar seu livro Passaro Sem Rumo, uma Amazônia Chamada Genésio, lançado em 2015 parceria com o Instituto Vladimir Herzog.
Mauro segue buscando ajudar Genésio, à distancia. Um filme baseado no seu livro está em desenvolvimento.
Nesse tempo de olhar para o legado de Zuenir, enxergo no mar de depoimentos nas redes sociais, o Mestre Zu de cada um, narrado por tantas histórias juntas e isso se transpõe de um sentimento individual para uma ciranda coletiva e carinhosa.
Como disse Mauro Ventura a Andrea Sadi, em entrevista à Globonews, essa inundação de afeto é resultado de tudo o que Zuenir Ventura cultivou: “Ele tinha um interesse genuíno pelo outro. Meu pai fez da vida um exercício diário de aprendizado, de humildade, de descobertas. Ele foi um paizão para muita gente, e isso nos orgulha.”
A admiração e imenso afeto por essa especial pessoa permanecerá, nos aprendizados de seus valores transmitidos, e na memória de vê-lo passar com seu jeans, tênis Bamba e o sorriso largo Alegria Alegria.
Sua influência marcou gerações de jornalistas e “colegas” pela capacidade de ensinar, com seu exemplo, com um jeito de ser, escrever e ler a vida. com suavidade e alegria. Que bom também ter tido Mestre Zu na vida. Por tudo que ensinou, ele segue imortal.









