A forte alta da Bolsa, a queda do dólar e o recuo dos juros futuros após o primeiro turno das eleições refletem a aposta do mercado em uma mudança na condução da política econômica. Parte dos investidores já passou a precificar não só uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas também a possibilidade de uma base mais ampla no Congresso, capaz de aprovar reformas e sustentar uma agenda de ajuste fiscal por mais tempo.
A euforia, porém, convive com uma dúvida central: até aqui, a campanha de Flávio Bolsonaro não detalhou compromissos concretos sobre como pretende reduzir despesas e melhorar o quadro fiscal – pontos que economistas de mercado vêm destacando como fragilidades durante o atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em vídeo publicado nas redes sociais na quinta-feira, 8, um dos assessores da área econômica do plano de governo, o ex-ministro Adolfo Sachsida, afirmou que não há intenção de mexer em benefícios sociais como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC). “Nós iremos não apenas preservar os programas sociais, mas também fortalecê-los”, disse.
O crescimento dos gastos com o BPC tem sido citado com frequência por agentes do mercado como foco de preocupação.
Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e coordenadora do plano de governo de Flávio, também tem reiterado a promessa de ajuste fiscal, mas sem se comprometer com medidas sensíveis como mudanças em benefícios sociais ou novas regras para o reajuste do salário mínimo. Em vez disso, tanto ela quanto Sachsida têm defendido combate a desperdícios e privilégios, redução do número de ministérios e venda de ativos da União. Privatizações, porém, não têm sido prioridade no discurso.
Em live na quinta-feira, o próprio Flávio Bolsonaro repetiu que pretende manter reajustes acima da inflação para aposentados e disse que quer “melhorar” e reajustar o Bolsa Família.
Para o economista-chefe da Garantia Capital, André Perfeito, a reação do mercado está ancorada na leitura de que, com Flávio eleito, maioria no Congresso e Lula fora das próximas disputas, abre-se “uma avenida” para governos de direita e uma agenda liberal.
Ele avalia, no entanto, que a campanha segue pouco clara sobre o ajuste fiscal – em parte por estratégia eleitoral – e afirma que, se a sinalização continuar vaga, os ativos podem sofrer correção. “Não seria surpreendente se, após a vitória, caísse a Bolsa e os juros futuros subissem. Se Flávio ganhar, ele vai ter que dizer o que quer fazer de fato”, diz.
O economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, observa que a resposta positiva do mercado indica que havia “gordura grande” na precificação dos juros futuros antes do primeiro turno. Para que o movimento continue, afirma, será necessário um programa efetivo de ajuste, formulado e aprovado rapidamente no Congresso.
Ele ressalta que medidas “cosméticas” têm pouco impacto e que o mercado sabe disso. “Nomes fortes na equipe econômica ajudam e isso é precificado”, diz, ponderando que ainda faltam sinais concretos. “Se é um sonho de uma noite de verão, vamos ter de aguardar.”
A consultora econômica e pesquisadora da Fundação Getulio Vargas Tatiana Pinheiro concorda que faltam definições. “Fala-se em um ajuste entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões, mas não está claro quais despesas seriam reduzidas, como e em qual horizonte. Essa indefinição é especialmente relevante diante das sinalizações de preservação de reajustes reais para aposentadorias e outros benefícios”, afirma.
Para ela, o mercado pode dar algum tempo para a apresentação do programa, desde que as sinalizações permaneçam coerentes com a expectativa de ajuste e a governabilidade no Congresso se confirme.
Já a economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, avalia que o mercado tem dado à equipe econômica de Flávio o “benefício da dúvida” – uma postura que considera “bastante otimista”. “Está mais associado ao diagnóstico do problema do que a elementos concretos apresentados até aqui”, diz.
Segundo ela, falta detalhamento quando a campanha fala em “excesso de gastos”, ao mesmo tempo em que as maiores rubricas do Orçamento, como Previdência e benefícios sociais, seguiriam com aumentos reais. “Há um distanciamento entre os objetivos anunciados e as ferramentas apresentadas”, conclui.
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