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Especialistas em educação defendem cultura de aprendizagem


Como preparar as novas gerações para um futuro que ainda não conhecemos? Essa foi a provocação central do painel “O Futuro da Educação”, realizado na quinta-feira (22) no Auditório HP durante a última edição do Tecnopuc Experience.

Mediado por Karen Sica, coordenadora do Tecnopuc EduX Hub, o debate reuniu Cheila Milczarek, diretora da regional Porto Alegre do Marista Brasil; Leonardo Franke, CEO da Casa da Vida AftersCOOL; e Debora Conforto, líder da equipe multidisciplinar de disciplinas online da PUCRS.

Diante de um cenário de rápidas transformações tecnológicas e sociais, a conclusão dos especialistas é de que a educação não pode mais se apoiar em modelos passivos de transmissão de conteúdo.

Os painelistas concordam: o futuro exige uma reconfiguração profunda, com o estudante no centro do processo, a integração estratégica da tecnologia e a preservação das relações humanas.

Desconexão com o presente

Para abrir o debate, a mediadora questionou se os modelos de ensino atuais são capazes de responder às necessidades dos estudantes de hoje. Cheila Milczarek pontuou que um dos desafios da educação básica é a desconexão entre os adultos mediadores e a realidade das novas gerações.

“A escola precisa ser um espaço de relevância na vida dos jovens. O acesso ao conhecimento hoje é vasto e acontece fora dos muros da escola”, afirmou. Segundo ela, é preciso abandonar a visão do aluno como um ser passivo e enxergar a educação como um espaço de oportunidades.

Nessa mesma linha, Leonardo Franke defendeu uma mentalidade mais colaborativa. Ele trouxe o conceito de “Cidade Educadora”, no qual todo o ambiente urbano (incluindo museus, instituições e espaços públicos) é utilizado intencionalmente para o aprendizado.

A Casa da Vida AftersCOOL, segundo ele, atua como um laboratório de aprendizagem. “É a mesma lógica das startups: testar rápido, errar rápido. Precisamos criar ambientes seguros, com inteligência emocional, onde o aluno se sinta acolhido para experimentar. A relação entre educador e aluno precisa ser humana”, destacou.

Uso crítico da IA

O avanço da Inteligência Artificial (IA) não escapou às discussões. Debora Conforto destacou que a IA é uma tecnologia disruptiva porque eliminou a barreira de entrada para o conhecimento. Afinal, para utilizá-la, não é mais necessário aprender a linguagem da máquina, pois a interação ocorre em linguagem natural. “Isso democratiza o acesso, é um ganho gigante. Mas há dois perigos: o imediatismo e a terceirização cognitiva”, alertou.

De acordo com a professora, a velocidade com que a IA entrega respostas faz com que os estudantes percam o processo de construção do conhecimento, resultando em uma espécie de “desnutrição cognitiva”.

Essa mudança impacta diretamente a avaliação. “O modelo tradicional, focado em memorização, não vale mais. Precisamos avaliar o desenvolvimento de competências e o processo”, explicou.

Para Debora, a virada de chave exige uma transição da “cultura de ensino” (onde o professor apenas professa) para a “cultura de aprendizagem”, na qual o aluno é protagonista e o professor atua como mentor. “A tecnologia é o meio, nunca o fim. O fim é a aprendizagem humana“, resumiu.

Para Karen Sica, integração entre diferentes etapas e ambientes da educação é importante para desenvolver soluções inovadoras Divulgação/Tecnopuc

Formação docente

Outro ponto abordado pelo painel foi a necessidade de repensar a formação de professores. Cheila Milczarek destacou que o Brasil vive um “boom” de formação docente, mas os resultados educacionais seguem baixos.

“A equação não está funcionando. Precisamos de parcerias interinstitucionais, aproximando a educação básica da universidade e dos centros de inovação, para que o professor se reconheça como um produtor de conhecimento e um aprendiz contínuo.”

Para guiar a construção da escola do futuro, Cheila apontou três pilares, os “três P’s”:

  • Projetar (ter clareza de onde se quer chegar);

  • Preparar (desenvolver habilidades para um mundo incerto);

  • Proteger (preservar o pensamento crítico e a metacognição).

“O Proteger é o mais importante na contemporaneidade. Precisamos proteger a capacidade do aluno de construir argumentos e refletir sobre o próprio pensamento”, enfatizou.

O novo papel do estudante

Após o painel, a mediadora Karen Sica conversou com exclusividade com o Portal AMANHÃ. Ela avaliou que não é possível pensar no futuro sem olhar para os desafios do presente, como as desigualdades de acesso e o engajamento dos alunos. “O futuro da educação não será construído de forma isolada. Ele depende de diálogo, colaboração e da disposição de todos para transformar”, afirmou.

Sobre o papel do estudante nesse novo cenário, Karen foi enfática: o aluno precisa deixar de ser um receptor de conteúdos para se tornar um questionador. “A IA pode ser uma ferramenta extraordinária para apoiar a aprendizagem, mas existe uma diferença abissal entre usar a tecnologia para ampliar a nossa capacidade de pensar e simplesmente delegar a ela o próprio pensamento”, alertou.

Para a coordenadora do EduX Hub, independentemente de onde a aprendizagem aconteça, seja na escola, na universidade ou em espaços não formais, alguns elementos são inegociáveis: as relações humanas, a curiosidade, o pensamento crítico e a capacidade de aprender continuamente.

“O futuro da educação será cada vez mais tecnológico, mas precisará ser, acima de tudo, humano. O verdadeiro protagonismo do estudante está na capacidade de transformar informação em conhecimento e conhecimento em ação”, concluiu.



Fonte: Amanhã

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