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A eletrificação no setor automotivo deixou de ser uma exclusividade de mercados desenvolvidos e entrou em uma nova etapa, marcada por uma redistribuição geográfica clara do crescimento. Os dados do estudo The EV leapfrog – how emerging markets are driving a global EV boom mostram que os veículos elétricos já representam mais de 25% das vendas globais de carros novos, um salto expressivo frente aos menos de 3% registrados em 2019.
Mas a diferença fundamental não está apenas na velocidade do avanço, e sim no mapa desse avanço. Hoje, 39 países já superaram 10% de participação nas vendas, enquanto, seis anos atrás, apenas quatro haviam alcançado esse patamar, todos europeus. Um terço dos países acima de 10% agora está fora da Europa.
Essa mudança numérica revela uma transformação estrutural. O centro de gravidade do mercado começa a se deslocar para além do eixo tradicional China e Europa, e os mercados emergentes deixam de ser tratados como promessa futura para se tornarem agentes ativos da expansão global.

Em várias regiões, a participação de elétricos e híbridos plug-in já supera a de economias consolidadas. Índia, México e Brasil registram share superior ao do Japão, cujo mercado permanece próximo de 3% desde 2022. A Indonésia atingiu 15% em 2025, ultrapassando os Estados Unidos em penetração proporcional.
Na América Latina, o Uruguai alcançou 27%, nível semelhante ao da média da União Europeia, enquanto a Costa Rica chegou a 17%. Brasil e Colômbia se aproximam de 10%, mantendo trajetória consistente de alta. O estudo considera dados até outubro de 2025, mas no início de 2026 o Brasil já supera os 10% de participação de EVs, consolidando essa virada simbólica.
O caso do Sudeste Asiático é ainda mais emblemático. O Vietnã, que em 2021 tinha participação praticamente residual, inferior a 0,05%, deve fechar 2025 com algo próximo de 40% das vendas de carros novos eletrificadas, quase todas compostas por veículos 100% elétricos.

GWM Ora 03 com produção na Tailândia
Singapura já supera 40%, e a Tailândia rompeu a barreira de 20%. Esses percentuais colocam países da ASEAN acima da média europeia, que gira em torno de 26%, e acima do Reino Unido, com cerca de 33%. A velocidade da curva não indica crescimento orgânico tradicional, mas um salto tecnológico direto, impulsionado por política industrial, incentivos direcionados e, em alguns casos, estratégias agressivas de fabricantes locais.
Essa aceleração tem fundamentos concretos. Em diversos mercados emergentes, políticas públicas foram estruturadas com foco claro em industrialização e redução de dependência energética. A Indonésia reduziu o IVA para modelos que atingissem determinado conteúdo local e flexibilizou tarifas de importação para fabricantes que se comprometessem a produzir no país até 2026.
Até maio de 2025, sete montadoras já haviam anunciado fábricas no país, além da fabricante chinesa de baterias CATL. A Turquia adotou cortes tributários e atraiu investimentos produtivos, inclusive com a instalação de fábrica da BYD.

Foto de: BYD
No Vietnã, a VinFast combinou vendas corporativas para serviços de mobilidade com a expansão de sua própria infraestrutura de recarga antes de migrar com sucesso para o consumidor final. Três quartos das vendas da empresa em 2025 já são diretas ao varejo, e o modelo VF 3, um elétrico urbano compacto, tornou-se o carro mais vendido do país no ano.
Além da lógica industrial, há a dimensão energética. A eficiência intrínseca dos veículos elétricos altera a equação macroeconômica para países importadores de combustíveis. Um carro a combustão desperdiça cerca de 80% da energia contida no combustível, enquanto um elétrico utiliza aproximadamente 80% da eletricidade consumida.
Considerando a matriz elétrica de 2024, a substituição de um veículo a combustão por um elétrico reduz a demanda primária por combustíveis fósseis em cerca de 94% no Brasil, graças à elevada participação de fontes renováveis na geração. No Reino Unido, a redução estimada é de 81%; no Vietnã, 63%; na China, 59%; na Índia, 49%; e na Indonésia, aproximadamente 48%, mesmo com matriz ainda fortemente baseada em fontes fósseis.

Pontos de recarga da UTE instalado em um shopping na zona nobre de Montevidéu
Foto de: Motor1 Brasil
Isso significa que, mesmo onde a eletricidade não é majoritariamente limpa, a eficiência energética já garante ganhos substanciais.
Outro dado que reforça a mudança estrutural está no fluxo comercial. Desde julho de 2023, praticamente todo o crescimento no valor das exportações chinesas de veículos elétricos veio de mercados fora da OCDE, o que diz muito sobre a nova dinâmica dos emergentes.
O valor exportado para países não integrantes da organização quase triplicou, com aumento de US$ 16,2 bilhões no período analisado, enquanto as exportações para países da OCDE cresceram apenas cerca de 5%, o equivalente a US$ 2,7 bilhões.

BYD – produção na fábrica de Camaçari (BA)
Foto de: BYD
Entre os dez principais destinos em valor em 2025, quatro estão fora da OCDE: Brasil, México, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. O crescimento global recente do setor, portanto, não está mais ancorado exclusivamente em consumidores de renda alta da Europa ou da América do Norte, mas em economias emergentes que ampliam rapidamente sua absorção de produto.
Esse rearranjo geográfico tem implicações de longo prazo. Projeções que partem da hipótese de estagnação das vendas de elétricos fora da China e da Europa tornam-se cada vez mais frágeis diante de um cenário em que mercados emergentes já superam economias avançadas em participação e concentram a maior parte do crescimento incremental.
Considerando que a maior parte das vendas globais de carros até 2050 deverá ocorrer justamente nesses mercados, a trajetória de adoção nesses países passa a ser determinante para o ritmo da transição global e para a própria dinâmica futura da demanda por petróleo.

Foto de: Geely
O Brasil, nesse contexto, ocupa posição ambivalente, mas estratégica. Ainda não figura entre os líderes absolutos em participação, porém já supera mercados tradicionais, integra o grupo de principais destinos comerciais na nova geografia das exportações e dispõe de vantagem estrutural energética difícil de replicar.
A redução estimada de quase 90% na demanda por combustíveis fósseis no uso veicular não é apenas um argumento ambiental; é também um vetor de política industrial e de estabilidade macroeconômica. A eletrificação deixa de ser uma pauta importada e passa a dialogar diretamente com balança comercial, segurança energética e competitividade de longo prazo.
O que se desenha não é apenas a expansão de uma tecnologia, mas uma redistribuição de protagonismo no setor automotivo global. Mercados emergentes, tradicionalmente vistos como dependentes do timing das potências industriais, passam a influenciar escala, estratégia de produto e direção de investimento.
A próxima fase da transição elétrica tende a ser definida cada vez mais por decisões tomadas em São Paulo, Hanói, Jacarta ou Cidade do México, e não exclusivamente em Bruxelas ou Washington. O movimento que os números de 2025 revelam é menos conjuntural do que estrutural: a eletrificação do transporte deixou de ser uma agenda concentrada no Norte desenvolvido e passou a ser moldada por países do Sul Global, onde o crescimento demográfico, urbano e de renda ainda está em curso e onde o mercado automotivo do futuro será numericamente mais relevante.
Fonte: Ember
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Fonte: UOL









