Uma crise bancária que deixou milhões de paraguaios preocupados com suas economias, provocou protestos nas ruas de Assumpção e outras cidade do país e levou até os jogadores da seleção nacional de futebol a exigir punição aos responsáveis resultou na queda do presidente do Paraguai.
Na quinta-feira, 5 de novembro, Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência do Paraguai em meio à derrocada do Ueno Bank, banco digital que cresceu rapidamente no país e agora está sob intervenção do banco central paraguaio (BC), que identificou problemas de solvência.
O colapso da instituição, que deixou milhões de correntistas sem acesso a seus recursos, desencadeou uma grave crise política no país, chegando ao Poder Executivo em razão das antigas ligações societárias de Peña com o grupo controlador do banco e da atuação de seu governo diante dos problemas financeiros do Ueno.
A pressão sobre o presidente se intensificou quando parlamentares apresentaram um pedido de impeachment por suposto conflito de interesses – Peña foi acionista de um grupo que controlava o Ueno Bank e desvinculou totalmente apenas em 2025 – e má gestão. Sem contar sequer com o apoio de seu próprio partido, o Colorado, Peña anunciou sua saída por meio de um vídeo publicado nas redes sociais.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, afirmou o presidente.
A renúncia poderia permitir que Peña evitasse a destituição e preservasse a condição de senador vitalício, algo previsto para ex-presidentes, que lhe garantiria prerrogativas parlamentares, como foro privilegiado. No entanto, a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade, com 78 votos, a acusação contra o presidente, deixando para o Senado a decisão sobre a continuidade do processo.
Oito executivos ou ex-executivos do Ueno Bank foram presos preventivamente, e o presidente do BC, Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia, junto a outros diretores da autoridade monetária. Carvallo comandou a instituição financeira que deu origem ao banco digital antes de assumir o órgão regulador, em 2023, por indicação de Peña.
O escândalo, que vem abalando o Paraguai nos últimos dias, guarda algumas semelhanças com o caso do Banco Master, que abalou o sistema financeiro brasileiro, embora as duas instituições tenham dimensões distintas e peso diferente nos mercados em que atuam – da trajetória meteórica, passando pela presença de recursos públicos, suspeitas de irregularidades financeiras e até as conexões do banco com o poder político.
Lançado em 2022 pelo Grupo Vázquez, a partir da aquisição da Financiera El Comercio, instituição fundada em 1976, o Ueno se transformou em banco em 2023. No ano seguinte, incorporou o Visión Banco, movimento que acelerou sua expansão e fez com que deixasse de ser uma fintech de nicho para conquistar uma posição relevante no sistema financeiro paraguaio.
O Ueno apostou na digitalização dos serviços bancários, na distribuição simplificada de cartões e em benefícios comerciais agressivos, incluindo descontos e cashback de até 40% em compras. A estratégia ajudou a instituição a alcançar quase 3 milhões de clientes, o equivalente a quase metade da população do Paraguai.
Segundo informações divulgadas pelo próprio Ueno Bank em setembro, a instituição encerrou junho de 2026 com US$ 4,2 bilhões em ativos, uma carteira de crédito de US$ 2,5 bilhões e aproximadamente US$ 2,8 bilhões em depósitos.
Ainda de acordo com o banco, desse total, cerca de US$ 827 milhões correspondiam a recursos de instituições públicas, incluindo US$ 295 milhões em depósitos a prazo do Instituto de Previsión Social (IPS), responsável pela previdência e assistência médica dos trabalhadores paraguaios, e US$ 532 milhões de outras instituições públicas.
Causas e consequências
A velocidade do crescimento passou a despertar questionamentos sobre a qualidade da carteira de crédito do Ueno, sua exposição a empresas relacionadas aos próprios acionistas e o volume de recursos públicos concentrados na instituição.
O primeiro alerta foi dado em junho de 2025. Segundo informações do jornal paraguaio ABC Color, a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) alertou para riscos relacionados ao crescimento acelerado e à deterioração de indicadores financeiros de uma instituição, sem mencionar o Ueno, mas dando a entender que se tratava do banco.
Os questionamentos se intensificaram ao longo de 2026, com a identificação de operações de crédito com empresas ligadas ao Grupo Vázquez e de possíveis fragilidades em sua estrutura de capital. Em abril, o BC paraguaio notificou formalmente o Ueno sobre operações que ultrapassavam os limites legais de crédito a empresas vinculadas.
Dois meses depois, documentos internos da autoridade monetária obtidos pelo ABC Color apontavam problemas de solvência e levantavam questionamentos sobre a contabilização de determinados ativos. Apesar dos alertas, a instituição continuou operando e, em setembro, divulgou uma carta pública defendendo sua solidez financeira.
Na ocasião, o Ueno informou que havia encerrado junho com índice de capital regulatório de 14,5%, acima do mínimo exigido de 12%. Menos de dois meses depois da divulgação da carta, porém, o BC afirmou que a solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo regulatório, após ajustes em seus demonstrativos financeiros, e determinou a intervenção.
A medida paralisou o funcionamento de aplicativos e cartões, deixando milhões de clientes sem acesso ao dinheiro depositado no banco e provocando protestos pelo país.
Jogadores da seleção de futebol do Paraguai, liderados pelo capitão Gustavo Gómez, zagueiro do Palmeiras, juntaram-se aos protestos, cobrando providências das autoridades e punição aos responsáveis pela crise. Em comunicado, os atletas afirmaram que também foram atingidos pelos problemas do banco, mas defenderam que a prioridade fosse dada às famílias de menor renda que tiveram suas economias comprometidas.
O caso também chegou à esfera criminal. A Justiça determinou, na quarta-feira, 4 de novembro, a prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno, incluindo seu presidente, Juan Manuel Gustale, e o CEO Federico Miguel Vázquez Villasanti, diante de suspeitas de irregularidades na administração da instituição.
A grande questão é se o caso vai respingar sobre outros nomes. O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do país e completar o mandato presidencial, previsto para terminar em agosto de 2028. Ele também é acusado de envolvimento, e deputados da oposição tentaram articular seu impeachment, mas o pedido foi rejeitado.
Enquanto o caso se desenrola e testa a estabilidade financeira e institucional do Paraguai, que vinha buscando se consolidar como destino de investimentos estrangeiros na América do Sul, os correntistas do Ueno tentam reaver seus recursos.
O sistema paraguaio de garantia de depósitos prevê cobertura de até 228,3 milhões de guaranis por cliente, o equivalente a aproximadamente US$ 38 mil. Segundo estimativas divulgadas pelas autoridades, o mecanismo seria suficiente para proteger cerca de 97% dos depositantes.
Ainda assim, permanecem dúvidas sobre a recuperação integral dos valores acima desse limite e sobre a destinação dos recursos públicos e previdenciários mantidos na instituição.








