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Aos 16 anos, com o título recém-tirado, o estudante Maurício Melzer se viu perdido entre siglas, cargos e discursos políticos. Ao perceber que os amigos tinham as mesmas dúvidas, decidiu aprender o “politiquês” — e traduzi-lo para sua geração.
Assim nasceu a Votae.
Lançada em junho, a plataforma apartidária reúne dados públicos do TSE, da Câmara e do Senado, explica as atribuições dos cargos e permite consultar e comparar candidatos.
Oferece uma cola eleitoral, um simulador de voto e um congresso virtual, onde jovens apresentam, debatem e votam propostas.
“Não quero que os jovens cheguem à urna com aquele sentimento de não ter estudado para uma prova, com um frio na barriga por não saber o que vai cair”, diz ao NeoFeed. “Quero que cheguem seguros.”
A iniciativa surge em um momento de redução do eleitorado adolescente: cerca de 1,6 milhão de brasileiros de 16 e 17 anos estão aptos a votar em 2026, ante 2,1 milhões em 2022.
“Todo voto conta, todo voto é importante”, afirma Maurício.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Diante de um universo de siglas, cargos e discursos herméticos, o estudante paulistano Maurício Melzer se viu perdido ao tentar entender a dinâmica da política brasileira. Aos 16 anos, com o título recém-tirado, descobriu não ser o único. A maioria de seus amigos da St. Paul’s School também se atrapalhava naquele labirinto.
Embora o voto ainda fosse facultativo para eles, muitos estreariam nas eleições sem saber o que faz um deputado, como funcionam os Três Poderes ou por onde começar a escolher seus candidatos. O adolescente resolveu então aprender o “politiquês” — e traduzi-lo para a sua geração.
“Não quero que os jovens cheguem à urna com aquele sentimento de não ter estudado para uma prova, com um frio na barriga por não saber o que vai cair”, diz ele, em conversa com o NeoFeed. “Quero que cheguem seguros.”
O “dicionário” criado por Maurício é a Votae. Lançada em 2 de junho e disponível em site e aplicativo, a plataforma foi pensada para quem vai apertar o “confirma” pela primeira vez. Explica as atribuições dos cargos em disputa, destrincha jargões e mostra como as decisões de Brasília chegam ao dia a dia dos brasileiros.
Expressões como “cláusula de barreira”, “quórum” e “obstrução”, por exemplo, ganham definições curtas e diretas. Sete etapas explicam como nasce uma lei. E, no Youth Congress, uma espécie de congresso virtual, os jovens podem apresentar, debater e votar propostas.
Entre os assuntos mais discutidos estão a presença de psicólogos nas escolas públicas de ensino médio, a obrigatoriedade da educação cívica e o passe livre estudantil em todas as capitais. Mesmo na simulação, o exercício da cidadania é real.
Um dos grandes méritos da Votae é reunir em um só lugar informações normalmente dispersas. São 19.660 perfis de candidatos à Presidência, aos governos estaduais, à Câmara dos Deputados e ao Senado registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É possível consultá-los por nome, estado e partido e compará-los lado a lado.
A plataforma traz também um breve histórico dos representantes atuais — do presidente e 27 governadores aos 81 senadores e 513 deputados federais. E, para que o frio na barriga não se transforme em um branco diante da urna, a Votae oferece uma cola eleitoral e um simulador de voto.
Com a proximidade das eleições, a procura pela Votae cresce. Os 250 visitantes únicos em agosto eram, até 22 de setembro, quase 4 mil. Um crescimento de quase 16 vezes! Em média, cada visita percorre 3,37 páginas e dura 3 minutos e 29 segundos.
Apartidária, a Votae utiliza APIs — interfaces que permitem a troca automática de informações entre sistemas — para acessar dados públicos do TSE, da Câmara dos Deputados e do Senado. “Nosso trabalho é que você entenda. A decisão é sempre sua” é um dos lemas do projeto.
Os textos são produzidos por inteligência artificial e, segundo Maurício, passam por sua checagem, com a ajuda de uma pessoa da área de tecnologia.
“Exemplo auspicioso”
A repercussão do projeto tem levado Maurício a ocupar espaços de discussão sobre a participação dos jovens na política. Em agosto, a convite do TSE, foi a Brasília para o Confirma, evento que reuniu influenciadores na celebração dos 30 anos da urna eletrônica.
Ele também foi a Curitiba participar como jurado de um hackathon voltado à criação de um aplicativo de cidadania para as escolas públicas do Paraná. O chamado partiu da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Tribunal Regional Eleitoral do estado.
Em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, o publicitário Nizan Guanaes define Maurício como “exemplo auspicioso” desta eleição.
E o coloca ao lado de Tatiana Monteiro de Barros, do União BR; Alcione Albanesi, do Amigos do Bem; Geyze Diniz, do Pacto Contra a Fome; Luiza Helena Trajano, do Mulheres do Brasil; e Edu Lyra, do Gerando Falcões, entre outros nomes do empreendedorismo social.
O recuo do eleitorado jovem
A iniciativa do estudante surge em um momento de declínio do eleitorado adolescente. Em 2022, cerca de 2,1 milhões de brasileiros de 16 e 17 anos estavam aptos a votar. Hoje, eles somam 1,6 milhão.
A transição demográfica explica apenas parte do recuo. Afinal, no mesmo período, a população dessa faixa etária diminuiu 5,6%, ante os quase 24% de queda no número de eleitores.
Com menos peso nas urnas, os jovens recebem menos atenção nas estratégias de campanha e tendem a se sentir menos representados pela política partidária tradicional. Se suas demandas não chegam ao debate, fica mais difícil acreditar que o voto possa fazer diferença.
Maurício percebeu esse distanciamento entre muitos colegas do segundo ano do ensino médio da St. Paul’s. Alguns só despertaram para a possibilidade de participar das eleições com o burburinho no colégio em torno da Votae. Mas aí era tarde: o prazo para tirar o título já havia terminado.
A maneira como a política é apresentada também contribui para esse afastamento. Ele próprio achava o noticiário complicado demais; até “assustador”: “Se o jovem conseguisse entender, se recebesse as informações de uma forma mais apropriada para a idade, seria mais tranquilo e acho que haveria uma mudança nesses números”.
Para o adolescente, estar ciente do que acontece em Brasília passa também por reconhecer a própria capacidade de influir no futuro do país. “Muitos não têm a dimensão da importância do próprio voto”, afirma. “Mas, todo voto conta”, completa, lembrando que as últimas eleições presidenciais foram decididas por uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos.
No caso de Maurício, compreender o valor da cidadania exigiu aprender o básico. “Eu não sabia que o Legislativo tinha tanta importância na nossa vida. Achava que o Executivo é que mandava: se meu telefone fosse confiscado na escola, queria brigar com o presidente”, reconhece. “Mas tudo passa pelo Congresso. Tudo, todas as decisões.”
“Coragem para começar”
Outra descoberta “bem legal”, ele diz, foi perceber que, para transformar uma ideia em realidade, basta ter iniciativa. “Eu era 100% inexperiente em política e até em tecnologia”, conta. “Fui aprendendo enquanto fazia.”
E a disposição para começar vem de casa. Maurício é o filho caçula de Eduardo Sirotsky Melzer, fundador e CEO da eB Capital, e Lica Melzer, designer e empresária da moda, dona da marca LMG. Seu nome é uma homenagem ao bisavô Maurício Sirotsky Sobrinho, criador do grupo gaúcho RBS.
Em 2021, o irmão mais velho, Fernando, então com 16 anos, idealizou o Inspire Up, do qual Felipe, com 15, também participou. O movimento nasceu como uma rede de cidadania voltada para jovens.
Por meio de palestras e debates online, conectava estudantes do ensino médio de uma centena de escolas brasileiras a lideranças empresariais e do terceiro setor para estimular projetos em suas comunidades.
A ideia da Votae pegou Eduardo e Lica de surpresa. “Meus pais ficaram muito chocados… Foi meio do dia para a noite que desenvolvi um negócio sobre um assunto que não tinha muito a ver aqui em casa”, conta.
Ao espanto se seguiu o apoio, que, segundo o adolescente, viria qualquer que fosse o projeto. “Meu pai incentiva bastante: procurar começar um negócio, iniciar uma coisa, não importa o que seja”, lembra o rapaz. “Ter a coragem para começar.”
Com a Votae, Maurício deu o seu primeiro passo. Agora, quer ajudar outros jovens a dar o deles — rumo às urnas.







