Quase dois meses após o Mercado Livre anunciar que passaria a vender medicamentos com retenção de receita médica no Brasil, incluindo as canetas emagrecedoras, a guerra entre a plataforma digital e as varejistas farmacêuticas ganhou um novo capítulo. Pela primeira vez, um executivo de uma importante rede de farmácias do Brasil abre o jogo e fala abertamente da estratégia do marketplace: Jonas Marques, CEO da rede Pague Menos.
“O Mercado Livre comprou uma pequena farmácia, no bairro do Jabaquara [em São Paulo], e quer atender o Brasil todo, sem se submeter às mesmas regras. A empresa tem vários processos de falsificação de produtos farmacêuticos e de perfumaria e não se responsabiliza por isso”, afirma Marques, ao NeoFeed.
“Tudo que a gente quer é que o Mercado Livre se submeta à mesma regra da rede varejista. Como é possível a plataforma vender produtos dos quais ela não consegue comprovar a origem?”, complementa o executivo.
O executivo cobra providências por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em razão dessa concorrência que ele julga ser desleal e pela falta de cumprimento de normas regulatórias. “Estamos assustados com isso”, diz Marques.
O CEO da Pague Menos afirma que o Mercado Livre vende, em seus canais, produto da Dauf, que é uma marca própria de itens de higiene pessoal e de beleza da Pague Menos, sem qualquer autorização. Ele afirma que a empresa é notificada, mas surgem outros canais de vendas na plataforma.
“Como ele consegue vender os nossos produtos e ainda mais baratos do que os das nossas lojas? A gente não vende para distribuidores e entrega somente nas nossas farmácias. Como eles explicam isso?”, indaga Marques.
A questão levantada pelo CEO da Pague Menos está no que diz a legislação. Lei sancionada em março deste ano permitiu que farmácias e drogarias pudessem contratar plataformas para serviços de logística e entrega. No entanto, não autorizou que canais de marketplace pudessem realizar essas vendas de forma direta.
A Anvisa também restringe a comercialização direta. Uma resolução de 2009 veta a venda de medicamentos em sites que não tenham conexão com redes varejistas autorizadas.
Recentemente, a Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) se mostrou contrária à decisão da companhia e enviou um ofício à Anvisa para apurar a atuação do Mercado Livre neste segmento. A autarquia federal notificou a empresa.
Agora, as próprias redes de varejo avançaram na insatisfação com a medida da plataforma digital, vista por elas como um sinal de quebra da segurança jurídica e de riscos à saúde pela falta de controle do que é vendido pelos sellers.
O mercado financeiro havia enxergado uma possível ameaça competitiva para as redes físicas de farmácias com a entrada do Mercado Livre no fim de setembro. Tanto que as ações das farmacêuticas listadas na B3 sofreram um baque.
A Pague Menos caiu 8% no pregão de 24 de setembro, com pico acima de 10% durante o dia de negociação. A líder do segmento, a RD Saúde (dona da Raia e da Drogasil) teve uma retração de 5,38% naquele pregão e a gaúcha Panvel, queda de 4,9%.
Quando a Anvisa notificou o Mercado Livre, a reação foi inversa: Pague Menos fechou em alta de 6,63%; RD de 4,11%; e Panvel, 3,23%.
Concorrência de marketplaces
Em setembro de 2025, o Mercado Livre anunciou a aquisição da farmácia Target, uma loja pequena em São Paulo. Ter uma unidade física é condição essencial para o comércio eletrônico. Mas, naquele momento, a empresa não falou sobre a entrada no mercado de medicamentos de prescrição em toda a sua plataforma, via marketplace.
O CEO da Pague Menos, varejista farmacêutica criada em Fortaleza, afirma que, globalmente, as grandes redes de marketplace sempre tiveram dificuldade de se estabelecer no mercado de venda de remédios com receita, justamente pela complexidade da operação e pela necessidade de rigor no controle sanitário.
“Não existe nenhum marketplace no mundo que tenha se consolidado na venda de medicamentos. A Amazon comprou a rede Pillpack [em 2018], com todas as regras do FDA, e mesmo assim ainda tem 1% do mercado. Não deu certo”, afirma.
Ele complementa: “Medicamento passa pela questão de confiança, uma relação mais próxima com o farmacêutico e com a loja física. É verdade que uma parte do faturamento das grandes redes vem do digital, mas isso ocorre dentro do nosso ambiente.”
No caso da Pague Menos, 24,1% do volume de vendas da companhia no segundo trimestre veio dos canais digitais. Isso representou uma receita de R$ 1 bilhão somente com online.
Segundo Marques, o Mercado Livre já chegou a procurar várias vezes a rede Pague Menos para que pudesse se conectar ao marketplace, mas ele afirma que não há chance dessa operação conjunta.
“Não faz sentido. Não estaremos no Mercado Livre. E ficaria muito surpreso se qualquer rede farmacêutica séria estivesse lá na plataforma. Para que eu vou pagar para um terceiro fazer a nossa venda? Isso está fora de cogitação”, afirma ele.
Na indústria farmacêutica, o momento é também de apreensão. Uma fonte do setor ouvida pelo NeoFeed, de forma reservada, diz que dificilmente as fabricantes de remédios irão aceitar que seus produtos sejam vendidos no Mercado Livre sem que passem pelas redes tradicionais.
“Estamos em uma saia-justa e esperando o que vai acontecer. É importante que a Anvisa traga um posicionamento claro sobre isso. O que não vamos fazer é comprar uma briga com as farmácias, que são nossos principais canais de venda”, afirma este executivo de uma indústria do setor.
Procurado pelo NeoFeed, o Mercado Livre informa que “mantém diálogo com a Anvisa para contribuir com o entendimento sobre a evolução desse mercado e reafirma seu compromisso com a ampliação do acesso a medicamentos para os brasileiros, com responsabilidade e em conformidade com as normas aplicáveis”.
A companhia explica que iniciou a venda de medicamentos isentos de prescrição (MIPs) em março, em operação-piloto em São Paulo. Em julho, seguiu para medicamentos sob prescrição que não exigem retenção de receita e, no mês passado, para medicamentos com retenção de receita.
“Em outubro, a companhia iniciou a operação no modelo marketplace (3P), conectando consumidores a farmácias na cidade de São Paulo”, diz a companhia, que, no entanto, não revela quantas unidades e redes estão vendendo pela plataforma.
“O Magazine Luiza e a Casas Bahia, por exemplo, tem toda a logística de pesados e a compra desses produtos. Nós temos todo o tráfego e um app intuitivo”, afirmou, em setembro deste ano, Fernando Yunes, vice-presidente executivo de commerce na América Latina e head da operação do Mercado Livre no Brasil. “Com as farmácias, gostaríamos que isso fosse análogo. A ideia não é competir com elas, e sim, tê-las vendendo no Mercado Livre”.
Procurada, a Anvisa não respondeu aos pedidos de entrevista do NeoFeed.
Caminho de expansão
Enquanto trava esta batalha com o Mercado Livre pela venda online de medicamentos, a rede Pague Menos já planeja o avanço em seu plano de expansão. E ele passa pelo cenário de queda da taxa de juros, hoje em 13,75% ao ano.
Com 1,7 mil lojas no Brasil, a companhia deve chegar ao fim do ano com cerca de 50 novas farmácias, o que corresponde a 3% do total de unidades.
O objetivo é retomar o volume de abertura que corresponde a 10% do quadro total, o que representaria 170 novas lojas, e chegar ao ritmo de crescimento anual da RD Saúde. Para isso, a empresa enxerga um horizonte de uma Selic perto de 10% ao ano no fim de 2027.
A Pague Menos já teve esse ritmo de expansão de 10%, mas diminui a velocidade a partir de 2021, quando concluiu a compra da Extrafarma e abrigou 400 novas lojas de uma vez.
“A gente tem uma capacidade de expansão muito maior do que a atual. Uma loja custa entre R$ 1,7 milhão e R$ 2 milhões. Isso significaria que, a cada queda de um ponto, eu poderia abrir de 10 a 15 lojas. Ou até um pouco mais”, afirma.
E completa a análise: “A gente trabalha com vários cenários, mas acredito na queda dos juros. Se é mais aprofundada ou não, ninguém sabe. É necessário. Isso afeta demais o setor produtivo.”
No segundo trimestre deste ano, a companhia reportou receita líquida de R$ 3,9 bilhões, alta de 8% sobre a mesma base do ano anterior. O lucro líquido foi de R$ 73,6 milhões, aumento de 22%. Os resultados do terceiro trimestre serão divulgados no dia 4 de novembro.
No acumulado de 2026, as ações PGMN3 registram queda de 57%. Em 12 meses, a desvalorização é de 28,5%. A rede Pague Menos tem valor de mercado de R$ 1,95 bilhão.









