A crise do endividamento das famílias brasileiras terá um impacto direto no mercado de smartphones. Com um volume anual acima de 35 milhões de unidades vendidas por ano, a perspectiva é que, em 2026, haja uma redução de 8% nas vendas. Isso significa cerca de três milhões a menos de telefones celulares.
Às vésperas do segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a única forma de mudar este panorama é que o próximo presidente encontre saídas para reduzir a taxa Selic – hoje no patamar de 13,75% ao ano -, os gastos públicos e de aumentar o consumo da população brasileira.
“O que o Brasil precisa é endereçar o tema dos juros e a questão fiscal. Independentemente de quem ganhar a eleição, é preciso encontrar uma solução. Hoje, o smartphone não é mais um item de luxo”, diz Rodrigo Vidigal, CEO da Motorola Brasil, em entrevista ao NeoFeed.
Segundo Vidigal, é necessário também criar mecanismos para diminuir o volume de celulares contrabandeados no mercado nacional, que em muitos casos são encontrados em marketplaces a preços até 40% abaixo dos aparelhos vendidos no varejo legalizado.
“Precisa simplificar a tributação. Isso já vai diminuir a parcela da ilegalidade, do desequilíbrio do contrabando, e tornar o mercado um pouco mais justo. Não é só para a Motorola ganhar, é para o Brasil avançar”, afirma o executivo.
Vidigal diz que, enquanto as questões de juros e tributação não forem definitivamente endereçadas, não há qualquer possibilidade de a Motorola Brasil voltar a exportar para os países da América Latina. Segundo ele, hoje é mais barato trazer da China do que receber das fábricas brasileiras.
Com 30% de participação do mercado nacional, a Motorola é a segunda colocada no geral no Brasil, atrás da sul-coreana Samsung. Levando em conta apenas os aparelhos ultrapremium, perde uma posição, para a Apple, dona do iPhone.
Para a empresa, a aposta de crescimento está justamente nas linhas ultrapremium, com aparelhos mais caros, para competir com a Apple. A chegada do novo iPhone dobrável ao Brasil, segundo Vidigal, é positiva para a Motorola, que já atua neste mercado.
A Motorola é controlada pela gigante chinesa Lenovo. A divisão brasileira ocupa o terceiro maior mercado global da companhia, atrás de Estados Unidos e Índia.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Como tem sido o ano para a Motorola?
O ano tem sido difícil sob a ótica do cenário macroeconômico. Uma taxa de juros muito elevada que impacta muito o consumidor brasileiro. O endividamento hoje das famílias é muito alto. E impacta o nosso setor. Na prática, ele acarreta uma redução de 8% em volume de vendas de smartphones no Brasil. Isso significa três milhões de celulares a menos em 2026 em relação ao ano passado.
“O endividamento hoje das famílias é muito alto. Na prática, ele acarreta uma redução de 8% em volume de vendas de smartphones no Brasil”
Qual segmento da população é mais afetado?
Isso impacta mais os consumidores de entrada, que compram os celulares mais baratos. O de baixa renda precisa esperar mais, porque muitas vezes não tem o crédito aprovado. O grande problema no varejo é o endividamento deste consumidor. Afeta várias categorias, inclusive a telefonia.
Em que faixa de preço está esse consumidor?
O grande volume das vendas no Brasil, cerca de 60%, é de celulares de até R$ 1,5 mil. E é nessa maior faixa que sofre este impacto. Os outros 40% são de consumidores que pagam mais caro pelos aparelhos mais de topo de linha. Os clientes que gastam mais sentem menos esse impacto.
Como executivo, o que significa ver o Brasil vendendo três milhões a menos de celulares?
É um pouco do cenário que a gente está vivendo no país de grande redução do poder de consumo da população. Isso causa efeito direto no varejo. O que o Brasil precisa é endereçar o tema dos juros e a questão fiscal. Independentemente de quem ganhar a eleição, é preciso encontrar uma solução. Hoje, o smartphone não é mais um item de luxo. Ele é necessário e ajuda na segurança, no trabalho. As pessoas querem ter um telefone mais moderno. Talvez demore um pouco mais, mas é necessário que o país encontre esse caminho.
“O que o Brasil precisa é endereçar o tema dos juros e a questão fiscal. Independentemente de quem ganhar a eleição, é preciso encontrar uma solução”
Seja Lula ou Flávio Bolsonaro, esses temas terão de ser enfrentados pelo próximo presidente?
Eles precisam ser enfrentados. Hoje temos uma das taxas de juros mais altas do mundo. Eles já vêm falando sobre os caminhos para que as famílias retomem o poder de compra. Isso precisa ser atacado imediatamente. E eles precisam cuidar da reforma tributária. Essa é uma grande expectativa do mercado.
Em que sentido?
Precisa simplificar a tributação. Isso já vai diminuir a parcela da ilegalidade, do desequilíbrio do contrabando, e tornar o mercado um pouco mais justo. Não é só para a Motorola ganhar, é para o Brasil avançar. Quem vencer, precisa enfrentar esses desafios. Quem entrar, precisa trabalhar com mais previsibilidade.
No dia seguinte ao primeiro turno, o Ibovespa ultrapassou 209 mil pontos e o dólar chegou a R$ 5. Que mensagem o mercado quis passar?
A movimentação do mercado reflete uma posição que é explícita há muito tempo. Está todo mundo preocupado com o ajuste fiscal, com a questão dos juros e com o combate à corrupção. São os pontos que o Brasil precisa olhar e enfrentar, para voltar a crescer de maneira justa para todos. Como brasileiro, o que eu quero é isso: um movimento que ajude a reduzir a inadimplência e fazer o país crescer.
“Quero poder produzir mais, o que ajuda a gerar empregos e é importante para o crescimento”
O que o setor privado pode fazer para ajudar?
Quero poder produzir mais, o que ajuda a gerar empregos e é importante para o crescimento. Tecnologia e inteligência artificial são caminhos fundamentais para isso. Estou otimista. Dá para voltar a crescer.
A Motorola deixou de exportar seus produtos do Brasil para a América Latina. Há chance de reverter essa tendência?
Não há essa possibilidade enquanto esses temas não forem endereçados. Não dá para competir com a China. Para atender o mercado, a empresa precisa ser competitiva. E, para atender a América Latina, é mais vantajoso para a Motorola trazer da China do que do Brasil, que tem duas fábricas [Jaguariúna e Manaus]. Há no Brasil custos adicionais ao custo do produto, que quando vem da China não sofre.
Quais são esses custos?
São três pilares: o tributário, que se sobrepõe ao custo de produção, o trabalhista, e o logístico. É um problema da indústria nacional. O Brasil hoje não consegue exportar para seus países vizinhos porque sua estrutura de custo inviabiliza esse acesso. O produto brasileiro chega lá muito mais caro do que o da China.
“Hoje um produto contrabandeado, por exemplo, é vendido em um marketplace a 35% ou 40% mais barato do que em um varejo oficial”
Qual é o reflexo disso na economia do país?
Vejo isso como uma perda de oportunidade para um país que precisa crescer, que precisa aumentar a arrecadação, reduzir a pobreza. É uma oportunidade que o Brasil perde e que a China captura. Hoje um produto contrabandeado, por exemplo, é vendido em um marketplace a 35% ou 40% mais barato do que em um varejo oficial. Essa é a diferença de custo tributário.
De que forma a empresa consegue sofrer menos impacto do que o setor no Brasil e avançar em participação?
Tem a ver com a nossa estratégia de lançamentos no Brasil. Neste ano, lançamos a linha Signature, que colocou a Motorola em outro patamar, em relação a consumidores que querem smartphones ultrapremium. Esse era um segmento que a empresa não atuava, com exceção do smartphone dobrável. E nossa performance foi boa. Mas ainda é uma parcela pequena. O maior volume ainda é no formato tradicional.
Como tem sido a disputa direta com o S26 Ultra, da Samsung, também lançado neste ano, com este público de alto padrão?
Tem sido uma briga boa. Mas o nosso desafio hoje tem sido comunicar. Mostrar para o consumidor que a Motorola atua nesta faixa. Que o consumidor não estava acostumado a ver a marca da empresa nesta prateleira. A gente está conseguindo aumentar essa participação a partir da qualidade do produto.
A chegada no Brasil do iPhone Duo, o primeiro dobrável da Apple, impactou a Motorola?
A gente acha muito positivo, porque a Motorola foi pioneira no telefone dobrável. Além de ter inventado o celular, inventou o dobrável. A solução hoje usada por todas as empresas foi desenvolvida pela Motorola. Aumentar a quantidade de oferta de dobráveis diminui a resistência do consumidor. Acho que vai nos ajudar a vender mais.
Por quê?
É como aconteceu com o carro elétrico. Com mais oferta, a resistência diminuiu. Mas eles estão acabando de chegar. Nosso concorrente direto ainda segue sendo a Samsung. Hoje nossa linha premium vem crescendo muito ano a ano. No último ano, cresceu 57%. E já representa mais de um terço.
Quais são as apostas de crescimento ?
Vamos seguir com inovação e lançamentos. E apostando no segmento ultrapremium. Estamos consolidados nos demais segmentos. A gente não exporta mais produto, mas desenvolve muita tecnologia no Brasil que é implementada globalmente. A Motorola tem quatro hubs de P&D no mundo, e um deles é no Brasil. Aqui, o foco é câmera e IA. Para o jovem brasileiro, é uma oportunidade de trabalhar no país, sem precisar ir para fora. Em novembro, a gente lança um celular ainda mais topo de linha, que é o Signature 2027, com o novo processador da Qualcomm. Será um lançamento global e o Brasil está dentro, com fabricação local.









