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Nas eleições de 2026, os grupos de WhatsApp, que antes eram arenas de intensa polarização política, passaram a evitar discussões sobre política. Em 2022, muitos eleitores deixaram de conversar sobre política para evitar conflitos, com 49% evitando discussões com amigos e familiares.
Agora, os grupos mantêm uma “constituição informal” que prioriza a preservação das relações em detrimento da discussão política. A política, embora ainda polarizada, se manifesta de forma diferente, com as pessoas optando por consumir conteúdo político através de notícias e entrevistas, em vez de debater em grupos.
Essa mudança reflete uma maturidade nas relações, mas também resulta na perda de um espaço onde a discordância era inevitável, transformando a política em uma experiência mais individual e menos comunitária.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
Na eleição presidencial passada alguns dos grupos de WhatsApp de que participo funcionavam como praças de guerra, com ataques, memes, vídeos, links e uma indignação que se renovava e escalava. Famílias brigaram, amizades esfriaram, e mais de um grupo precisou aprovar regras para atravessar a eleição inteiro: “aqui não se fala em política”.
Quatro anos depois, os mesmos grupos seguem ativos, as mesmas pessoas votam com a mesma convicção, e a política passa por essas conversas quase sem deixar marca.
Uma impressão pessoal vale pouco como evidência. Fui atrás dos números para saber se ela resistia. Não encontrei uma pesquisa que medisse diretamente a temperatura política dos grupos de família. Os dados disponíveis tratam do fenômeno por outros ângulos. Ainda assim, quando colocados lado a lado, sugerem uma mudança interessante.
A polarização segue intacta. A rodada da BTG/Nexus divulgada em 21 de setembro mostra Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno, diferença dentro da margem de erro. Entre os eleitores que escolheram algum candidato, 84% dizem que a decisão já está tomada. Entre os eleitores de Lula, são 90%; entre os de Flávio Bolsonaro, 92%.
A disputa continua dura. A convicção também. O que parece ter mudado é o lugar onde essa convicção se manifesta.
A pista está em 2022. Em julho daquele ano, o Datafolha registrou que 49% dos eleitores haviam deixado de conversar sobre política com amigos e familiares para evitar discussões. No WhatsApp, 43% haviam parado de falar sobre política e 19% haviam saído de algum grupo para evitar conflitos.
Havia, portanto, um movimento de retirada da conversa política justamente no ambiente em que ela havia ganhado enorme importância nas eleições anteriores. E deixado alguns cadáveres no caminho.
Albert Hirschman descreveu, em 1970, duas reações possíveis de quem está insatisfeito dentro de uma organização: sair ou protestar. A lealdade funciona como a força que mantém a pessoa dentro.
Os grupos de 2022 viveram as duas coisas ao mesmo tempo: gente que insistiu em continuar brigando por ali e gente que simplesmente decidiu ir embora, como demonstrou o Datafolha.
O que se observa agora parece diferente. A pessoa fica, preserva o vínculo e renuncia à voz naquele assunto. Não abandona o grupo. Abandona a discussão.
Uma espécie de autocensura relacional.
Constituição informal
Cada um continua sabendo o que pensa e o que o outro pensa. Só que ambos parecem ter concluído que aquele espaço existe para outra coisa.
Muitos grupos formalizaram esse acordo numa constituição informal, escrita na descrição ou apenas subentendida.
Quem acompanha governança de empresas familiares reconhece o mecanismo. Famílias empresárias assinam acordos de acionistas porque sabem que determinadas disputas podem ameaçar o vínculo que sustenta o negócio. O grupo da família chegou sozinho a uma conclusão semelhante: existem assuntos cujo custo de discussão é maior que o benefício.
O WhatsApp é especialmente inóspito para a guerra política porque ali a divergência tem rosto conhecido.
No X, a discussão acontece com um desconhecido. No Instagram, diante de uma plateia. No WhatsApp, com o irmão, o cunhado, a mãe do melhor amigo do seu filho ou alguém que estará na mesma mesa no Natal.
A política entra no grupo depois das relações. Quando entra em conflito com elas, costuma perder.
Seria tentador ler esse silêncio pela espiral do silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann, segundo a qual pessoas que percebem sua posição como minoritária tendem a escondê-la para evitar isolamento.
Mas o silêncio do grupo de família parece responder a um cálculo diferente: quanto custa uma briga política quando o adversário vai continuar sentado à sua mesa?
Esse cálculo pode ser feito pelos dois lados.
Para onde foi a política, então?
A pesquisa Genial/Quaest de julho oferece uma pista. Entrevistas com candidatos e propostas de governo foram citadas por 63% dos entrevistados como formas de acompanhar a campanha. O noticiário político apareceu logo depois, com 60%. Já 87% disseram que não pretendiam participar de grupos de WhatsApp sobre política.
Há uma diferença importante aqui. Não temos uma pesquisa que permita afirmar que os mesmos brasileiros que deixaram de discutir política em seus grupos passaram a consumi-la por entrevistas, notícias ou canais. Os levantamentos não foram desenhados para medir essa migração.
Mas há uma mudança de comportamento suficientemente clara para merecer atenção: menos disposição para entrar na conversa política horizontal e maior preferência por acompanhar conteúdo político por formatos informativos.
Essa mudança tem um lado evidentemente bom. Menos briga entre irmãos é uma conquista. Há algo de maduro em descobrir que uma divergência eleitoral não precisa decidir o destino de uma relação inteira.
Existe, contudo, uma ironia difícil de ignorar.
O grupo de família era um dos raros lugares em que pessoas que pensavam de modo diferente eram obrigadas a conviver. O adversário político tinha nome, história e lugar à mesa.
Quando a política migra da conversa para a audiência, ganhamos paz no almoço e podemos perder um dos últimos ambientes em que a discordância chegava por alguém que ninguém escolheu por afinidade.
A política continua falando alto. Só que, em muitos casos, fala no ouvido de cada um.
* Alexandre Loures é jornalista e advogado, com MBA em Administração e Negócios pela São Paulo Business School. Fundou a Loures Consultoria em 2015, incorporada à FSB Holding em 2018. Atualmente, é sócio e líder da área privada da FSB Holding, além de estar dentre os profissionais mais admirados do PR Scope 2023









