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Um livro, uma sala: a fórmula da livraria japonesa mais minimalista do mundo


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Em Ginza, bairro das grifes de luxo em Tóquio, uma pequena livraria oferece algo cada vez mais raro: tempo para se dedicar a um único livro.

Na Morioka Shoten, há apenas um título à venda por semana. A cada troca, a sala de 16,5 metros quadrados se transforma para levar o leitor ao universo da obra escolhida.

Para apresentar o volume 3 do mangá “Bless”, Yoshiyuki Morioka pendurou 176 sacolas de pano, cada uma estampada com uma página. Em outra ocasião, galhos deram ao espaço ares de floresta.

Autores e editores também são convidados a conversar com os visitantes.

Criada em 2015, quando se previa o fim das livrarias físicas, a Morioka ganhou atenção internacional com sua curadoria radical.

A proposta mostra por que ainda vale sair de casa para encontrar um livro: descobrir algo inesperado, conhecer quem o criou e mergulhar em uma obra sem a pressa dos algoritmos.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

No refinado distrito de Ginza, em Tóquio, onde grifes como Chanel, Hermès e Louis Vuitton mantêm suas boutiques, está um estabelecimento peculiar. Em meio ao luxo material de seu entorno, o lugar oferece preciosidades cada vez mais raras na vida contemporânea. Tempo, silêncio, curadoria.

A filosofia do negócio é tão minimalista quanto sua estrutura física: uma única sala dedicada a um único livro. Nos cerca de 16,5 metros quadrados da Morioka Shoten, a cada semana apenas um título é colocado à venda, escolhido criteriosamente por seu fundador — o bibliófilo convicto Yoshiyuki Morioka, de 52 anos.

Inaugurada em maio de 2015, quando a concorrência das lojas online, como a Amazon, e a ascensão dos e-books alimentavam previsões sobre o fim das livrarias físicas, a Morioka mantém há 11 anos sua aposta ousada — e atrai cada vez mais atenção mundo afora.

Em tempos de excesso de informação e atenção fragmentada, o livreiro de Ginza dispensa o cliente de uma tarefa que pode ser exaustiva: escolher entre tantas opções. Ali, a decisão se resume a levar ou não o livro da vez.

“A Morioka trouxe o conceito de curadoria radical, quando a discussão ainda não estava muito em voga nas livrarias”, explica Gabriel Mattos, doutorando na Universidade de São Paulo e pesquisador do mercado editorial, em entrevista ao NeoFeed.

A volta às lojas físicas

O caráter vanguardista de Morioka foi perceber, há muito tempo, que o maior trunfo das livrarias está no espaço físico e na seleção de títulos que os algoritmos talvez nunca sugerissem. A descoberta de uma obra dá ao leitor uma razão para sair de casa. Afinal, na disputa pelo menor preço, dificilmente será possível bater as gigantes do e-commerce.

Nos Estados Unidos, até as grandes redes voltaram a aumentar o número de lojas físicas. A expansão, por exemplo, foi uma das estratégias da Barnes & Noble para sair da crise. Ao mesmo tempo, a rede passou a dar às equipes de cada filial mais liberdade para selecionar e apresentar livros conforme os interesses do público local.

A mudança tem por objetivo recuperar parte do charme das livrarias de bairro — espaços mais intimistas, acervos menos padronizados e vendedores que conhecem muito bem o acervo e o gosto de seus clientes. Uma curadoria feita pelo “algoritmo humano”, como definido por Eliana Menegucci, CEO da Livraria da Vila, em entrevista ao NeoFeed em 2024.

Morioka leva a valorização da livraria como ponto de encontro às últimas consequências. Sua sala no térreo do Edifício Suzuki, prédio de 1929 tombado pelo governo de Tóquio, é um híbrido de livraria e galeria de arte.

Yoshiyuki Morioka transforma o espaço da loja a cada semana para que o leitor sinta que entrou no livro — e não apenas na loja (Foto: Instagram @moriokashoten)

O losango do logotipo representa um livro aberto e a pequena sala da Morioka (Foto: takram.com)

Para receber o volume 3 do mangá “Bless”, a Morioka pendurou 176 sacolas de pano, cada uma estampada com uma página do livro (Foto: Studio Hazeldean)

A Morioka ocupa o térreo de um prédio de 1929, reconhecido como patrimônio histórico de Tóquio. Ali funcionou a revista Nippon, criada em 1934 para apresentar o Japão ao público estrangeiro e posteriormente usada como propaganda de guerra (Foto: takram.com)

Toda semana, o espaço se transforma para receber o título escolhido, com obras e objetos que dialogam com seu conteúdo. A proposta é levar a obra para além das páginas. Morioka quer que o cliente vivencie a experiência de estar dentro de um livro — e não apenas dentro de uma livraria.

De mangás e publicações de arte a romances, biografias e clássicos, como Contos de Fadas, do dinamarquês Hans Christian Andersen, ou A Traidora Honrada, da finlandesa Tove Jansson, a variedade de gêneros e estilos é tão vasta quanto o público que o livreiro quer atrair.

Para receber o volume 3 de Bless, da mangaká Yukino Sonoyama, por exemplo, o livreiro pendurou 176 sacolas de pano, cada uma estampada com uma página do livro.

Em outra semana, o espaço ganhou ares de floresta. Para One Day in the Forest, de Mariko Hirasawa, Morioka espalhou galhos e troncos pelo recinto, levando para dentro da loja o cenário evocado pelo livro da ilustradora e designer japonesa.

“Quando um ambiente contém muitas distrações, pode ser difícil para os clientes se lembrarem de uma mensagem específica, pois há muitos estímulos concorrentes”, diz a doutora Yujia Huang, da Universidade de Dundee, na Escócia, ao NeoFeed.

“Na Morioka Shoten, a mensagem fica muito mais clara, e os objetos e elementos presentes na exposição passam a fazer parte da memória que o cliente tem do livro e da experiência vivida”, complementa a autora de um estudo sobre o impacto do design na livraria de Ginza.

A vitrine renovada é fotografada e publicada no Instagram, como um convite aos eventos em torno do título da semana. Morioka procura trazer autores e editores para a livraria e incentivá-los a permanecer ali pelo maior tempo possível.

Para o leitor, é a chance de conversar com quem criou o livro que acaba de folhear.

Uma ideia, uma folha de papel

Antes de abrir a loja de Ginza, Morioka trabalhou por oito anos em uma livraria de usados na região de Jimbocho — o bairro dos sebos e das antiguidades de Tóquio. Depois, montou seu próprio negócio.

Ali, ao promover lançamentos, percebeu que um único livro era capaz de atrair muitos visitantes. Ele então começou a imaginar uma livraria inteiramente dedicada a apenas um título.

Mas, entre uma ideia e um negócio sustentável, há um longo caminho a se percorrer. Quem, além dele, apostaria em um projeto tão audacioso quanto provocador?

Uma década se passou até setembro de 2014. Em um evento da Takram, estúdio global de inovação e design, Morioka apresentou seu projeto para Masamichi Toyama. Os planos de uma vida em uma folha de papel: “Regeneração do livreiro Átomo → Uma livraria com um único livro”.

CEO da Smiles Co., empresa de design, consultoria de marca e gestão de negócios, Toyama ficou encantado e não titubeou: investiria em Morioka. Oito meses depois, nascia a livraria de um livro só.

A Takram traduziu a proposta minimalista em um projeto visual igualmente simples: um losango que pode ser visto tanto como um livro aberto quanto uma sala.

Criado a partir de um desenho de Morioka, o logotipo traz também o endereço da loja, valorizando sua presença física na era da leitura digital. A identidade recebeu prêmios internacionais de design.

O sustento da filosofia

A Morioka está longe de ser uma potência financeira. A receita não depende apenas dos exemplares do título da semana: obras e objetos ligados ao livro também são colocados à venda. Os eventos movimentam a loja e ajudam a criar uma comunidade em torno dela.

Por outro lado, os custos do negócio são relativamente baixos. Além do tamanho reduzido da sala, Morioka não precisa gerenciar um estoque grande nem lidar com devoluções — dois dos principais problemas das livrarias tradicionais.

A proposta de Morioka é radical e exige coragem. Mas, é na atenção a cada obra — e a cada leitor — que a sua experiência tem algo a ensinar.

A curadoria de um livreiro que olha nos olhos do cliente, escuta suas histórias e compartilha descobertas tem algo que nenhum prompt consegue oferecer. Seja para vender um único livro. Ou vários.



Fonte: NeoFeed

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