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Um fundador e seus batalhões de IA: a nova fronteira e os limites das startups de uma pessoa só


Foram 18 anos apenas de Embraer. Lá, entre outras passagens, Sandro Valeri ergueu e liderou o ecossistema de inovação, por uma década, e foi um dos fundadores da EmbraerX, no Vale do Silício, onde morou por dois anos, além de gerir os fundos de investimentos da companhia nessa área.

Em 2020, já de volta ao Brasil, ele decidiu deixar o grupo. E uma das inspirações para essa nova etapa, que incluiu a participação na criação da Ahead Ventures, gestora de corporate venture capital (CVC), veio das conexões feitas no polo de inovação americano. Em particular, com a inteligência artificial (IA).

“Eu comecei como todo mundo começa: usando prompts. E fui evoluindo, aprendendo vibe coding. Não sabia programar. Mas quando vi, já estava fazendo”, diz Valeri, ao NeoFeed. “E o resultado foi absurdo. Eu criei o que eu não esperava”.

Esse fruto inesperado atende pelo nome de Pulso AI. Aos 51 anos, sem saber escrever uma única linha de código e investindo cerca de R$ 10 mil, Valeri desenvolveu uma plataforma de scouting, análise e due diligence de startups. A promessa da ferramenta é agilizar esses processos, de semanas para minutos.

A velocidade também dá o tom, até aqui, da curta vida da empresa. Há dois meses no ar e com o auxílio de 14 agentes de IA para tocar sua operação no dia a dia, a Pulso AI tem mais de 70 assinantes. E já tem versões engatilhadas para a América Latina e os Estados Unidos, com previsão de lançamento em 2027.

Longe de um ser uma exceção, a Pulso AI é um exemplo de uma tendência: as startups criadas e tocadas por apenas uma pessoa. Alguns dados reforçam como esses “exércitos de um homem só”, boa parte deles reforçados justamente por batalhões de modelos e agentes de IA, começam a ganhar terreno.

Segundo a americana Stripe, as companhias que se encaixam nesse perfil responderam por 63% das aberturas de empresas em sua plataforma no segundo trimestre de 2026, um recorde histórico dentro do serviço.

Já há casos de maior fôlego dentro desse universo. Criada no início de 2025 pelo israelense Maor Shlomo, a Base44, plataforma de criação de aplicativos via vibe coding, foi comprada em junho do mesmo ano pela Wix, também de Israel, em um negócio de US$ 80 milhões.

Outro exemplo é a Medvi, plataforma de venda de medicamentos baseados em GLP-1 criada em 2024. A startup teve uma receita de US$ 401 milhões em 2025, quando o fundador, Mathew Gallagher, contratou seu irmão, o primeiro funcionário da empresa. Em 2026, a projeção é faturar US$ 1,8 bilhão.

No Brasil, há cada vez mais fundadores solo dispostos a engrossar essa fileira. Muitos deles ostentam um currículo extenso em grandes empresas, assim como Valeri. Mas nem todos são marinheiros de primeira viagem nos bits e bytes e nas linguagens de programação.

Com 50 anos, formado em ciências da computação e com três décadas de experiência em tecnologia, o que incluiu passagens por companhias como Americanas, B2W, Buscapé, Estapar, IG, Zoom e Globo, William Silva é um desses nomes.

“Eu tive diversas oportunidades de montar, por exemplo, minha própria plataforma de e-commerce, antes de outras empresas explodirem. Eu fiz as plataformas da Americanas, do Submarino e do Shoptime do zero”, afirma Silva. Ele prossegue:

“Mas era algo que, na época, eu precisaria de mais gente. Hoje, eu sou um orquestrador de IAs. Com ela, você consegue codificar, monitorar, discutir e ‘prototipar’ produtos com muita velocidade. Isso faz toda a diferença. É como se eu tivesse todo um time à minha disposição”, diz ele.

Em junho, Silva deixou o posto de head de dados e de IA da Estapar para se dedicar 100% à pitchy.me. A startup criada por ele no início de 2026 e tocada com o auxílio de agentes e personas sintéticas é dona de uma plataforma para que empresas redesenhem suas operações sob uma mentalidade “AI First”.

“Se não fosse a IA, eu precisaria de pelo menos dez profissionais e três anos para desenvolver a pitchy.me. Isso se conseguisse desenvolver nesse tempo”, conta. “E, em termos de recursos, teria investido dez vezes mais. Se contar minhas horas de trabalho, devo ter gasto R$ 1 milhão”.

Essa equação tem atraído, inclusive, pessoas que não pensavam necessariamente em criar uma empresa. Esse é o caso de Luiz Brito, que, aos 34 anos, desenvolveu a plataforma por trás da Catálogo Web nos intervalos do seu trabalho como engenheiro de software na Thomson Reuters.

Lançada em agosto, a Catálogo Web é dona de uma ferramenta baseada em IA focada em centralizar, aprimorar e agilizar as rotinas de pequenos varejistas – do financeiro às questões fiscais, passando por pagamentos, gestão de estoque e de todos os canais de vendas, físicos e online, entre outras áreas.

“Eu não tenho tanto essa veia empreendedora. Eu tentei resolver um problema e isso acabou virando um negócio”, diz Brito. “Um sistema dessa complexidade levaria de seis meses a um ano, com pelo menos quatro desenvolvedores, para ser feito. Com IA, eu fiz em quatro meses e sozinho”.

Além da rapidez e dos menores custos na largada, outro traço une as trajetórias das startups ouvidas pelo NeoFeed: apesar do pouco tempo de estrada, todas já têm clientes e geram receita. Algumas, inclusive, já se “pagam”. É o caso da Pulso AI, cujo faturamento mensal varia entre R$ 15 mil a R$ 20 mil.

Com planos de assinatura na casa de R$ 200, a Catálogo Web, por sua vez, já tem 40 usuários em sua plataforma, em pouco mais de dois meses no ar. Enquanto a pitchy.me atende oito clientes, de diferentes setores e portes, de empresas de serviços até uma siderúrgica.

Superpoderes?

Um outro padrão também parece ser uma tônica nessas empresas criadas por fundadores-solo. Aqui, porém, a conta pode não ser tão favorável em alguns casos. Ao menos na visão de um investidor que tem tido contato mais frequente com esse perfil de empreendedor.

“É legal ver a velocidade com que eles testam, pivotam e chegam a um produto que, aparentemente, tem alguma tração”, diz Rodrigo Borges, sócio-fundador da DOMO.VC. “Mas, nesse estágio, há um pouco o sentimento de superpoder. Porque, nessa fase, eles conseguem, de fato, fazer tudo”.

Há quem reconheça os riscos desse modelo turbinado pela IA. “Você consome essa dopamina de ver tudo funcionando rápido e fica viciado”, diz Brito, da Catálogo Web. Valeri, da Pulso AI, acrescenta. “O maior risco é ficar preso na frente do computador e esquecer de fazer relacionamento”, afirma.

Sandro Valeri, fundador da Pulso AI

Esse isolamento e o excesso de confiança também podem mascarar uma armadilha para quem decide se aventurar nessa tese: a ilusão de que a IA, o vibe coding e os agentes podem fazer tudo.

“A inteligência artificial está mudando com certeza o jogo, mas eu enxergo essa história com um pouco menos de purpurina”, afirma Brito. “Você não chega e simplesmente constrói um produto. É preciso ter toda uma bagagem técnica e entender o que está fazendo”.

Valeri reforça o coro de que nada substitui a experiência e o olhar do empreendedor. “Eu costumo brincar que criei a regra 10 por 2. São 10 minutos de IA para dois dias de análises feitas por mim, o ser humano”, afirma.

Silva, da pitchy.me, também recorre à bagagem que acumulou ao longo de sua carreira como um fator essencial para o desenvolvimento de um negócio que não dependa exclusivamente de prompts e agentes de IA.

“A IA tem uma coisa boa: ela faz o que você pede. E uma ruim: ela faz exatamente o que você pede”, diz Silva. “Então, por mais mágica que ela pareça ser, é preciso ter critérios e fazer as perguntas certas. Do contrário, você vai cair no risco de entregar algo que parece bonito, mas que não para em pé”.

Essa visão crítica e a capacidade de fazer os questionamentos necessários não excluem, porém, uma outra pergunta que ganha força à medida que esses negócios passam a exigir outras habilidades para darem seus próximos passos e ganharem escala.

“No médio e longo prazo, há um desafio, porque por mais que a IA ajude, você não é um growth hacker, um CTO e um vendedor ao mesmo tempo”, diz Borges, da DOMO.VC. “É importante ter uma complementaridade e alguns desses founders são menos abertos a trazer outros sócios e pessoas”.

Com um olhar mais técnico e menor veia empreendedora, quem já começou a seguir esse caminho foi Brito, da Catálogo Web. Hoje, a startup já tem três funcionários na área comercial e no atendimento, o que, segundo o empreendedor, foi crucial para a tração inicial da companhia.

Já a pitchy.me trouxe cinco estagiários de tecnologia. “Eu digo que estou criando agentes e criando pessoas que criam agentes”, diz Silva. Ele ressalta outro racional por trás desse passo. “Estou organizando meu trabalho com automações e esse time para que eu não seja um gargalo na operação”.

Do MVP ao Mínimo Produto Distribuível

Deixar de centralizar 100% da empresa em uma única pessoa e trazer outros perfis para a operação são questões que dialogam com outro desafio. Se a IA elimina barreiras para criar um negócio, a competição será muito mais acirrada, pois outros empreendedores seguirão esse mesmo atalho.

“Desenvolver o produto ficou muito mais fácil e barato, mas essas startups vão esbarrar na mesma dor de sempre, que é distribuir”, diz Arthur Frota, fundador e CEO da AFPAR, venture builder de startups de IA.

“Você também tem a possibilidade de monetizar mais rápido. Antes, você demorava mais para gerar receita”, afirma ele. “Mas já se exige maior robustez do produto, o que eu chamo de mínimo produto distribuível, e não mais um MVP. Essa régua subiu”.

Sócio-fundador da gestora EXT Capital, Gabriel Sidi segue na mesma linha. “Para conseguir brigar nessa arena, você vai precisar ter um padrão mínimo, que agora é mais alto”, diz. Ele aponta, porém, algo que não muda sob a ótica dos investidores na hora de avaliar um investimento em qualquer startup.

“O que mudou foi o patamar, mas a responsabilidade do empreendedor continua igual”, afirma. “Se a IA traz ganhos de eficiência e produtividade, no fim do dia, o que se avalia é o que ele fez com o dinheiro que tinha em mãos. Com o que ele gastou? O que ele entregou?”

Se a IA abre caminho para que startups sejam criadas e operadas com times enxutos e poucos investimentos, muitas vezes, do próprio bolso do empreendedor, isso não significa que essa regra se aplique às próximas etapas a serem cumpridas, em particular, o go to market e o ganho de escala.

“O custo de atenção ficou mais alto. Todo mundo vai se especializar em criar prompts, o que pasteuriza e coloca todos no mesmo campo de batalha”, diz Borges, da DOMO.VC. “Muitos desses produtos não serão bons, mas para se destacar, essas startups vão precisar, na média, de mais dinheiro”.

Em entrevista recente ao programa Café com Investidor, do NeoFeed, Romero Rodrigues, head de venture capital da XP e gestor da Headline, disse que, nessa corrida, a IA tende a reforçar quem já está estabelecido. “Se o incumbente está muito forte, provavelmente é um setor que vamos ficar de fora”, afirmou.

Para Rodrigues, em muitos casos, as companhias tradicionais terão muito mais capacidade de empacotar e distribuir ferramentas e plataformas de IA do que essas startups recém-chegadas ao mercado.

Ainda sob a ótica dos investidores, Borges ressalta que esse novo contexto aumenta a “nebulosidade” sobre quais startups podem trazer maior retorno. O que passa, inclusive, pelas dúvidas sobre essas empresas e suas ferramentas vão ser engolidas por gigantes do setor, como a Anthropic e a OpenAI.

“O fato é que a IA possibilita que muitas startups existam sem recursos do venture capital”, diz. “Algumas delas vão captar. E se for um mercado de ‘winner takes it all’, aquela que pegar o pote de dinheiro primeiro ganha a corrida. As outras nove vão morrer na praia”.



Fonte: NeoFeed

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