Indicadores de atividade, política monetária e política fiscal no Brasil e no exterior perdem audiência na semana que desemboca no segundo turno da eleição presidencial no domingo, 25 de outubro. A agenda econômica prevê a divulgação de informações que podem ser relevantes, mas não decisivas para revisão de cenários.
Duas informações locais podem ganhar algum espaço sem concorrer, contudo, com expectativas quando ao futuro do País a ser cravado no desfecho da eleição: o resultado da reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) na quinta-feira, 22, e a divulgação do índice prévio de inflação, IPCA-15 de outubro, na sexta, 23.
Simultaneamente, promete pegar fogo o confronto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro com novas pesquisas de opinião em meio à contagem regressiva para debates – se confirmados – entre os adversários previstos para domingo, 18 de outubro, na Band, e sexta-feira, 23 de outubro, na TV Globo.
Com expectativa de desaceleração da economia no terceiro trimestre e também no quarto – após avanço do PIB de 1,1% no primeiro trimestre, 0,5% no segundo e estimativa entre queda de 0,2% e zero no terceiro período – o mercado foca propostas de Lula e Flávio, sobretudo, para a política fiscal.
E aqui mora um problema: nenhuma das duas campanhas apresentou com clareza de detalhes, até às vésperas do segundo turno, programas que convençam agentes, investidores e empresários da economia real de que o endividamento ascendente do Brasil – de 82,9% do PIB em agosto – será contido no curto prazo.
O presidente Lula, que busca a reeleição, pretende, em síntese, manter o arcabouço fiscal; levar as contas públicas de um déficit equivalente a 0,5% do PIB em 2026 para superávit de 1,5% do PIB em 2030, com desaceleração de despesas obrigatórias durante o mandato; implementar a Reforma Tributária; manter a valorização do salário mínimo acima da inflação, a despeito da repercussão em aposentarias, pensões e Benefício de Prestação Continuada; sustentar o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil, o Plano de Transformação Ecológica; um sistema de crédito para pequenas empresas e programas de renegociação de dívidas – aliás turbinados às vésperas do segundo turno para perplexidade de famílias e empresas que mantém as contas em ordem.
Os pilares do programa de Flávio Bolsonaro, vocalizados sobretudo pela assessora para a área econômica Daniella Marques, privilegiam, também em síntese, o corte de despesas via redução da máquina pública; corte de ministérios; redução de cargos comissionados; revisão de gastos e maior controle das despesas discricionárias dos três Poderes. O candidato também pretende promover um ajuste fiscal da ordem de 1,5% do PIB, algo em torno de R$ 250 bilhões; reformular o arcabouço fiscal com foco na estabilização e posterior redução da Dívida/PIB; rever a Reforma Tributária; conceder reajuste real de aposentadorias e do salário mínimo – após informar que não haveria aumento real.
Flávio aponta uma “saída fiscal” relativamente simples de ser “vendida”, mas de resultado incerto. Aposta na credibilidade do seu governo – se eleito – e numa consequente redução de risco e da taxa de juro. Combinação que resultaria em uma economia bilionária de recursos e, por tabela, na melhora das contas públicas.
Agenda econômica
Até pela acirrada disputa política, as expectativas são baixas em torno do CMN e da inflação. Primeiro, porque é improvável que o Conselho, instância máxima de decisões monetárias e de regulação bancária, anuncie medidas que possam alterar o rumo de transações financeiras ou que tenham implicações na contabilidade das instituições. Segundo, porque o IPCA-15 não deve sinalizar uma guinada em projeções que apontam inflação acima do teto da meta neste ano.
Liderado pelo ministro da Fazenda e com participação do ministro do Planejamento e do presidente do Banco Central, o CMN tem outro “incentivo” para evitar decisões que poderão, eventualmente, repercutir no futuro: desconhecer quem estará no comando do País a partir de janeiro de 2027.
As recentes pesquisas eleitorais sinalizam empate técnico entre os dois adversários. E o resultado das urnas mais à esquerda ou mais à direita, avaliam cientistas políticos, possivelmente será o mais apertado do período de redemocratização que teve, nas eleições de 1982, um marco após o ciclo autoritário iniciado em 1964 com governos militares.
Na seara econômica, o IPCA-15 de outubro é relevante por antecipar a inflação oficial de início do quarto trimestre. Entretanto, sua variação não deverá alterar projeções estabelecidas. De possível declínio mensal e elevação interanual, suficiente para manter o indicador acima do teto da meta vigente, 4,50%.
Em setembro, o IPCA-15 avançou 0,70% e, em 12 meses, 4,47%, ajuste que antecipou a inflação oficial, com divulgação subsequente, à alta de 0,82%, acima das estimativas. A inflação foi puxada por preços administrados – gasolina e energia elétrica. Nesse contexto, o IPCA subiu, em 12 meses, a 4,58%.
A pesquisa Focus publicada após o primeiro turno da eleição, na segunda-feira 13, registrou um salto na projeção mediana para o IPCA deste ano de 5,01% para 5,22%. Para 2027, ano que importa à gestão monetária, a estimativa de inflação ficou inalterada em 4,30%. Abaixo do teto, mas bem acima da meta central de 3%, sugerindo que o Banco Central ainda tem um árduo trabalho pela frente.
A resistência da inflação poderia sancionar expectativas de interrupção do ciclo de corte da Selic, hoje em 13,75%. No entanto, entre agentes do mercado prevalece a perspectiva de queda gradual da taxa, em 0,25 ponto percentual, em novembro e dezembro. A Focus corrobora a avaliação. Aponta 13,25% em dezembro de 2026.









