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Na era da IA, Humberto Campana faz do trabalho manual um “ato político”


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Enquanto a inteligência artificial avança, Humberto Campana busca nos saberes manuais caminhos para o futuro. “Acho que o fazer manual hoje é um ato político”, diz ao NeoFeed. Para o designer de 73 anos, preservar essas tradições significa gerar empregos, renda e afeto. Seu trabalho mais recente é a pop-up da Tiffany & Co., no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo. Com plástico reaproveitado e tramas feitas à mão, criou uma fachada azul que lembra as ondas do mar. A linguagem se estende aos móveis e espelhos. Consagrados internacionalmente, os Irmãos Campana ajudaram a renovar o design brasileiro. Desde a morte de Fernando, em 2022, Humberto encontrou na criação uma forma de lidar com o luto. Realizou projetos em vários países e se dedica ao Parque Campana, em Brotas, que integra arte, educação e natureza. “Lógico que eu sinto muita falta dele, mas para não sentir a falta prefiro criar. Chega a ser compulsivo”, afirma. E segue em busca de renovação: “Não quero nunca falar: ‘Olha, alcancei fama, sucesso profissional’”.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Enquanto o mundo avança com a inteligência artificial (IA), o designer Humberto Campana, de 73 anos, vai na contracorrente. Olha para o futuro e seu desafio é buscar cada vez mais, no passado, os saberes manuais. “Me sinto voltando para trás. Acho que o fazer manual hoje é um ato político”, diz, em entrevista ao NeoFeed. “Eu vejo que a inteligência artificial está tirando tantos empregos, tem tanta gente perdida que não sabe para onde ir… E o fazer manual gera empregos.” Para ele, o trabalho manual também ajuda a preservar tradições que estão desaparecendo: “A manualidade é insubstituível, porque é um saber imbuído de afeto, de paixão, que tem um lado terapêutico e também pode dar renda para pessoas que, às vezes, não têm acesso nem à educação. Ela permite uma vida melhor.” A conversa com o NeoFeed aconteceu durante a inauguração da pop-up da Tiffany & Co., no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, seu trabalho mais recente. Humberto praticamente embrulhou a loja com uma fachada de tramas em tons de azul, cujos movimentos lembram as ondas do mar. A mesma linguagem aparece no interior, nas banquetas de vime e metal e nas molduras dos espelhos, com um tratamento ultrasofisticado de materiais simples como o EVA. “Foi uma miniarquitetura toda feita e tramada manualmente com plástico reciclado. Acho importante frisar que é plástico reaproveitado. Pegamos o pantone [a paleta de cores] da Tiffany e reproduzimos no fio a ser tramado. Isso se vê nos móveis e nos espelhos”, explica. A parceria do Estúdio Campana com a marca de alta joalheria começou há dois anos para a renovação da loja do Shopping Iguatemi, também na capital paulista. Ali fez as vitrines, o café e alguns móveis.

O trabalho rendeu um convite de Anthony Ledru, CEO global da grife, que integra o grupo de luxo LVMH, para assinar as vitrines da marca pelo mundo afora. Entre os endereços estão a Via Montenapoleone, em Milão, e a The Landmark, na rua 57, em Nova York.

Depois dos modernistas, os Irmãos Campana foram os primeiros a apresentar ao cenário internacional uma nova vitrine do design brasileiro. Com a morte de Fernando, em 2022, Humberto seguiu sozinho, cada vez mais produtivo. Ao falar do trabalho, porém, ele ainda usa o “nós”.  “Olha, aconteceu tudo tão rápido que eu não tive tempo de processar, sabe?”, conta. “Lógico que o luto existe até hoje, mas ou eu parava ou continuava.” Ao pensar em tudo o que realizou depois, avalia que foi fruto de um mergulho interior no qual buscou o melhor de si: “No sentido da garra, da criatividade, de me renovar para não deixar a peteca cair”. Fez exposição em Xangai, na China, e desenvolveu trabalhos nos Estados Unidos, na Itália e no Brasil. Também dedica boa parte de sua energia ao Parque Campana, em Brotas, no interior paulista, onde os irmãos passaram a infância. O espaço de 52 hectares integra arte, educação e natureza, com pavilhões projetados pela dupla. “Lógico que eu sinto muita falta dele, mas para não sentir a falta prefiro criar. Chega a ser compulsivo”, diz. O que Humberto evita é estagnar: “Tenho muita ansiedade em me renovar para não me sentir envelhecendo artisticamente. Não quero nunca falar: ‘Olha, alcancei fama, sucesso profissional’. Depois de ter exposições em museus, você tem de guardar a responsabilidade de seguir seu início, saber de onde veio. E percorrer aquela estrada sem seguir qualquer modismo”.

Na entrada da pop-up da Tiffany, em São Paulo, Humberto Campana criou tramas de plástico reciclado em tons de azul que evocam as ondas do mar (Foto: Fran Parente)

Desenvolvida em parceria com a marca italiana Edra, a “Cadeira Vermelha” está no acervo do Museu da Arte Moderna de Nova York, o MoMa (Foto: Edra)

Na poltrona Banquete All Animals, dos Irmãos Campana, bichos de pelúcia costurados à mão rompem com os estofados tradicionais (Foto: Fernando Laszlo)

No Musée d’Orsay, em Paris, o Café Campana tem todo o mobiliário assinado pelos irmãos (Foto: musiam-paris.com)

O Parque Campana reúne pavilhões projetados pelos irmãos e integra arte, educação e natureza em Brotas, no interior paulista, cidade natal de Humberto e Fernando (Foto: parquecampana.com.br)

Os irmãos conheceram o sucesso juntos com a cadeira de cordas, a Cadeira Vermelha, de 1993, que está no acervo do MoMA — Museu de Arte de Nova York. Depois veio a célebre Coleção Banquete, em 2002, com dezenas de animais de pelúcia costurados à mão sobre uma base de lona numa estrutura de aço inoxidável. Inspirada nos vendedores de rua, representou uma ruptura com os estofados tradicionais. Teve versões de tubarões, jacarés, golfinhos, pandas e ursos, e até hoje é copiada em todo lugar. A dupla também é conhecida por projetos como o Café Campana, no Musée d’Orsay, em Paris, para o qual criou todo o mobiliário. Suas peças integram ainda os acervos de instituições como o Centre Pompidou, também na capital francesa, e o Museum of Fine Arts, em Boston, nos Estados Unidos. Hoje, Humberto trabalha com paisagismo no Parque Campana e se dedica a projetos como o mobiliário urbano e o calçamento da Alameda das Flores, cuja inauguração está prevista para novembro. A rua exclusiva para pedestres ligará a avenida Paulista ao Complexo Cidade Matarazzo, em São Paulo, com mesas e bancos assinados pelo designer. Ele também dá muita importância ao Instituto Campana, em Piracicaba, onde atua junto a comunidades carentes. A organização possui uma parceria com a Aliança de Misericórdia, que acolhe alcoolistas, dependentes químicos e “pessoas sem rumo”, como ele diz. A inspiração nos saberes manuais é vasta e cada vez mais presente. “Olha, o Brasil é tão rico. É um continente com diferentes culturas. Hoje em dia, quando tiro férias, prefiro viajar pelo Brasil”, diz. “Mas, às vezes, dá uma tristeza enorme ver certos lugares onde se destrói tudo para construir resorts e acabar com a natureza. Quero conhecer tudo dos biomas brasileiros.”



Fonte: NeoFeed

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