A disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia tecnológica da inteligência artificial (IA) ainda não tem um vencedor claro. É o que afirma a economista chinesa Keyu Jin, com longa vivência nos EUA e bagagem para dissecar essa disputa e seu impacto na tecnologia global.
“EUA e China possuem abordagens diferentes para IA, com os EUA focados em ciência de fronteira e inovação, e a China em aplicação e produção”, diz Jin, de 43 anos, nesta entrevista ao NeoFeed. “Há ainda uma terceira corrida, de implantação, que vai determinar quem terá vantagem de aplicar IA em larga escala na economia real, ainda em aberto.”
Segundo ela, porém, a ideia de que uma das duas potências sairá vencedora é discutível – os avanços de cada país são complementares, o que coloca em dúvida a eficácia de uma competição direta.
Essa visão objetiva das relações da China com o Ocidente permeia a análise da economista. Filha de um alto dirigente do Partido Comunista — que foi vice-ministro das Finanças e presidente de um banco estatal — Jin deixou Pequim nos anos 1990 para estudar nos Estados Unidos, onde se graduou e fez doutorado em economia na Universidade Harvard.
Jin ganhou projeção em 2023 com o livro A nova China: para além do socialismo e do capitalismo (Editora Edipro), no qual desvenda o enigma chinês — do mercado consumidor ao surgimento de grandes empresas —, oferecendo ao público ocidental uma rara visão chinesa de seu próprio país.
Ela argumenta que há um erro recorrente no Ocidente: acreditar que, se um país não seguir o modelo econômico ocidental, está fadado ao fracasso. Isso, diz, impede a compreensão de como a economia chinesa opera.
“Embora a centralização política seja real, a economia chinesa é, na verdade, uma das mais descentralizadas do mundo”, afirma Jin, que dedica um capítulo à “economia dos prefeitos”, exemplo do sistema híbrido chinês em que o governo central define diretrizes e os governos locais impulsionam a economia e a inovação.
“O aspecto mais importante a ser aprendido com a China é o benefício do planejamento estratégico de longo prazo, que transcende ciclos eleitorais e foca no futuro da nação”, acrescenta. Nesse contexto, cita lições para países emergentes, como o Brasil: capacidade estatal eficiente, competição de mercado sem protecionismo e mobilidade social.
Com carreira sólida — passou pelo Banco Mundial e lecionou por 15 anos na London School of Economics (LSE) —, Jin hoje divide seu tempo entre consultorias, palestras em vários países e aulas de Finanças na Hong Kong University of Science and Technology.
A economista virá ao Brasil para participar do HSM+ 2026, ciclo de palestras nos dias 4 e 5 de novembro, em São Paulo. De Londres, onde vive, concedeu a entrevista a seguir ao NeoFeed:
Estados Unidos e China travam uma corrida tecnológica pela inteligência artificial. Quem deverá liderar a IA nas próximas décadas?
Vejo três corridas simultâneas em curso. A primeira é a de fronteira, de quem cria a ciência mais avançada. Nessa, os EUA lideram, com universidades e laboratórios que produzem pesquisa de ponta. A segunda é a de eficiência, que a China está à frente, produzindo IA de forma mais barata, rápida e escalável. A capacidade manufatureira da China confere uma vantagem substancial em IA incorporada fisicamente, como robótica e veículos elétricos. A terceira é a de implantação, ou seja, que vai determinar quem terá vantagem de aplicar IA em larga escala na economia real. Esta ainda está em aberto.
Os formatos de IA que os EUA e a China desenvolvem não são excludentes entre si?
Os EUA e a China possuem abordagens diferentes — uma focada em ciência de fronteira e inovação, a outra em aplicação e produção — que vejo como complementares, e não necessariamente em competição direta.
As disputas comerciais e tarifárias durante os mandatos de Donald Trump aceleraram ou atrasaram a transição da China para setores de alta tecnologia?
Acredito que aceleraram. Embora as sementes dessa transição chinesa tenham sido plantadas há mais de uma década, o ritmo aumentou drasticamente após as guerras comerciais. O mundo não reagiu como os formuladores de políticas dos EUA esperavam, houve redirecionamento de comércio para países como Brasil, Vietnã e México. Para a China, exportar apenas bens baratos não era sustentável. A guerra comercial acabou globalizando as empresas chinesas.
Então, para a China, as guerras comerciais abriram uma nova frente de crescimento?
As restrições americanas forçaram o país a acelerar o desenvolvimento tecnológico por não ter outra escolha, já que o acesso a tecnologias críticas foi bloqueado. Isso custou caro para a China, para o mundo e para as próprias empresas americanas, mas é a realidade geopolítica atual.
“As restrições comerciais americanas forçaram a China a acelerar o desenvolvimento tecnológico, já que o acesso a tecnologias críticas foi bloqueado”
A China lidera a produção industrial e o registro de patentes, mas a produtividade média dos EUA ainda é cerca de 6,5 vezes maior. O que explica essa lacuna?
A medição da produtividade é complexa. A menor produtividade da China pode ser explicada pelo volume massivo de investimento de capital. Se estamos falando de produtividade total dos fatores, trata-se de uma “caixa-preta” difícil de medir. Não creio que os números atuais reflitam com precisão as capacidades industriais e a eficiência da China.
O declínio demográfico chinês pode atrapalhar a melhora dos níveis de produtividade da economia do país?
Não acredito que o envelhecimento demográfico seja um grande problema para a China. Estamos na era da robótica e da IA, onde tecnologias que poupam mão de obra são fundamentais. Ainda há um excedente de mão de obra nas áreas rurais. O desafio real é criar empregos suficientes, não a falta de pessoas. As vantagens da China residem na eficiência, no ecossistema tecnológico e no talento, não apenas no número de habitantes.
Quais são as principais forças da economia chinesa que o mundo deveria aprender?
O aspecto mais importante a ser aprendido com a China é o benefício do planejamento estratégico de longo prazo, que transcende os ciclos eleitorais e foca no futuro da nação e de seu povo. Embora nem todos os sistemas políticos possam ou queiram adotar essa postura, é uma força central. As conquistas tecnológicas recentes da China não são fruto do acaso, mas de um processo de planejamento, mobilização e implementação cumulativa iniciado há 15 anos.
“O aspecto mais importante a ser aprendido com a China é o benefício do planejamento estratégico de longo prazo, que transcende os ciclos eleitorais”
Como se dá a avaliação do planejamento de longo prazo, uma vez que esse modelo é elaborado e executado pelo próprio governo central?
Há na China um sistema abrangente de avaliação de funcionários públicos, que utiliza métricas empíricas para motivar burocratas. Embora não seja perfeito e possa criar incentivos distorcidos, é fundamental para a prestação de contas, algo que também vemos em modelos de países como os de Singapura e do Vietnã.
O peso excessivo do Estado não prejudica a atuação do setor privado e o mercado?
O Estado pode desempenhar um papel crucial no início, impulsionando o ecossistema de inovação, mas deve recuar quando o mercado estiver pronto para assumir. Não se deve subestimar nem superestimar o poder do Estado: o sucesso industrial chinês recente baseou-se em uma mobilização inicial leve, seguida por uma intensa competição de mercado.
“Não se deve subestimar nem superestimar o poder do Estado: o sucesso industrial chinês recente baseou-se em uma mobilização inicial leve, seguida por uma intensa competição de mercado”
A China não seguiu manuais tradicionais de planejamento econômico; improvisou e corrigiu o curso com uma visão de longo prazo. Essa seria a fórmula ideal para um país emergente como o Brasil?
É preciso adotar mecanismos e elementos, não um modelo específico, pois os sistemas políticos diferem. Há várias lições que o Brasil pode aprender. Primeiro, a necessidade de uma capacidade estatal focada e eficiente, com políticas industriais bem pesquisadas. Segundo, a importância vital da competição de mercado, evitando protecionismos que geram monopólios. Terceiro, a responsabilidade dos funcionários locais, atrelando recompensas a resultados mensuráveis. Quarto, a criação de um senso de oportunidade e mobilidade social.
O Brasil não preenche integralmente esses requisitos. Isso significa que está condenado ao baixo desenvolvimento econômico?
Países em desenvolvimento sofrem com corrupção, falta de transparência e instabilidade macroeconômica. Esse é o gargalo, pois presta um desserviço a si mesmos.
“Países em desenvolvimento, como o Brasil, sofrem com corrupção, falta de transparência e instabilidade macroeconômica. Esse é o gargalo”
Qual é o maior equívoco que os países ocidentais cometem ao tentar compreender a China?
O maior erro é acreditar que, se um país não seguir o modelo de desenvolvimento econômico ocidental, está fadado ao fracasso, à ineficiência ou ao desperdício. Existe a crença de que apenas um modelo funciona. Com isso, o Ocidente usa lentes culturais específicas para julgar a felicidade, a opressão ou a segurança do povo chinês, o que é um erro.
Como você descreveria o modelo chinês?
Há uma compreensão profundamente equivocada de como a China opera: muitos acreditam que o país é extremamente centralizado e que uma única pessoa decide tudo. Embora a centralização política seja real, a economia chinesa é, na verdade, uma das mais descentralizadas do mundo.
Em que sentido?
O sistema econômico descentralizado é um legado histórico, não um evento recente. Dada a vastidão da China, o controle vertical absoluto, como ocorria na União Soviética, é inviável. Nosso sistema é horizontal e vertical. Temos o que chamo no livro de “economia dos prefeitos”. O governo municipal — e até o distrital — é responsável por desenvolver a economia, gerar receitas, fomentar o setor imobiliário e, cada vez mais, produzir empresas de tecnologia de ponta. Assim, esse modelo da “economia dos prefeitos” provou ser útil na era das reformas, pois permitiu que cidades e províncias experimentassem modelos de sucesso que poderiam ser replicados, limitando os danos caso falhassem.
Qual o principal diferencial desse modelo chinês?
A China, apesar dos desafios recentes — como a Covid, tensões comerciais e desemprego entre os jovens —, ainda oferece um ambiente onde o trabalho árduo é recompensado. A cultura de aprendizado constante, absorção e adaptação é um diferencial que explica o sucesso chinês.
Quais são as principais deficiências desse modelo descentralizado que o governo deveria corrigir?
O modelo tem deficiências, claro. Por exemplo: a China realmente precisa de 300 marcas diferentes de veículos elétricos? Isso gera desperdício de recursos. Além disso, a competição entre governos locais incentiva o endividamento excessivo e prioriza investimentos em empresas e no PIB em detrimento do gasto social. Isso explica por que, apesar das altas taxas de poupança, os chineses hesitam em consumir: o modelo não incentiva o gasto social necessário para elevar os níveis de consumo.
“É preciso mover o foco do investimento em “coisas” para o investimento em “pessoas”, garantindo segurança financeira”
O governo central deveria pressionar mais os governos locais para que aumentem o gasto social?
Sim, os governos locais devem ser avaliados pelo crescimento do consumo e da renda, e não apenas pelo PIB. É preciso mover o foco do investimento em “coisas” para o investimento em “pessoas”, garantindo segurança financeira e permitindo que as famílias diversifiquem seus investimentos para além do setor imobiliário.
O que o governo poderia fazer para estimular o consumo das famílias?
É necessário aumentar o gasto social, não necessariamente ampliando o sistema de bem-estar, mas focando em infraestrutura social, segurança e previdência. A disparidade entre as pensões urbanas e rurais é de 15 para 1; aumentar o investimento nessas áreas é crucial.
Até que ponto as altas taxas de poupança e o baixo consumo impedem a expansão do setor de serviços, uma grande fonte de empregos e um setor que na China é inferior ao de outros países do Primeiro Mundo?
Não creio que o setor de serviços seja prejudicado pela manufatura. O crescimento dos serviços acompanha a riqueza e a renda. A China acertou ao construir primeiro uma base manufatureira abrangente, ganhando produtividade e tecnologia. Mudar para serviços cedo demais, como ocorreu em outros países, pode ser um problema.
Por quê?
O setor de serviços na China é pequeno não por causa da manufatura, mas devido a barreiras regulatórias. Se o governo liberalizar setores como entretenimento, educação e finanças e permitir maior competição estrangeira, haverá um enorme potencial de crescimento.
O índice de desemprego na China é baixo, cerca de 5,3%, mas entre os jovens de 16 a 24 anos, excluindo estudantes, é de 18,9%. O que explica essa diferença?
O principal fator é a desaceleração econômica. Os jovens são, invariavelmente, os últimos a serem contratados e os primeiros a serem demitidos. Além disso, existe um profundo descompasso entre a educação e as competências exigidas pelo mercado.
“O elevado desemprego entre os jovens chineses é causado pela desaceleração econômica; eles são os últimos a serem contratados e os primeiros a serem demitidos”
Qual o impacto desse descompasso?
Embora tenhamos um grande contingente de jovens altamente escolarizados, essa formação não corresponde necessariamente ao que a economia, baseada na manufatura, demanda. Faltam o treinamento vocacional, a experiência prática, os estágios e o conjunto de habilidades não acadêmicas necessárias.
Quais áreas da economia esse gap é mais visível?
O setor de semicondutores é um exemplo. Há uma grande demanda por talentos, mas os jovens não possuem as competências técnicas adequadas. Por isso, o governo tem focado na qualidade e na escala do ensino vocacional, sendo essa uma iniciativa fundamental para reduzir esse descompasso entre a educação e as necessidades do mercado.
Até que ponto a política do filho único, que vigorou de 1980 até 2015, afetando duas gerações das famílias chinesas, foi decisiva para moldar esse novo perfil da juventude do país?
A política do filho único foi importante em diversos níveis. Primeiramente, acredito que ela empoderou as mulheres chinesas, ajudando a reduzir a disparidade de gênero em uma sociedade que, historicamente, privilegiava os homens. Em segundo lugar, a política alterou a estrutura familiar, consolidando núcleos menores e desestimulando famílias numerosas.
A política de filho único foi válida?
Isso influenciou as decisões familiares, que passaram a priorizar o investimento na qualidade dos filhos, em vez da quantidade. Esse fenômeno explica a intensa competitividade no cenário educacional e, consequentemente, no mercado de trabalho, já que o foco na qualidade dos filhos intensificou a pressão por desempenho desde cedo para os jovens








