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Milei aposta na “revolução subterrânea” de Vaca Muerta para levantar a economia argentina


O presidente argentino Javier Milei parece ter encontrado um trunfo para consolidar seu programa de recuperação da economia do país vizinho, que em três anos mescla avanços macroeconômicos com retrocessos que vêm minando sua popularidade.

Sua nova arma vem do que ele chama de “revolução subterrânea” da Formação de Vaca Muerta, localizada na Bacia Neuquina, bacia sedimentar terrestre localizada no sudoeste da Argentina, abrangendo principalmente as províncias de Neuquén, Río Negro e Mendoza.

Considerada uma das maiores fontes de petróleo não convencionais do planeta – abriga a segunda maior reserva de shale gas e a quarta maior de petróleo de xisto do mundo –, Vaca Muerta literalmente renasceu após passar anos sem investimentos, por causa da crise fiscal do país.

Agora, essa espécie de versão argentina de abundância do pré-sal brasileiro está se consolidando sob o governo Milei como o eixo da nova estratégia energética do país, usando o boom de preços do petróleo no mercado internacional e, por tabela, atraindo petroleiras estrangeiras.

Milei aproveitou a abertura da feira Argentina Oil & Gas Patagonia 2026, na cidade de Neuquén, que bateu o recorde de empresas expositoras – cerca de 550, incluindo 30 dos EUA e 20 do Canadá – para reforçar o convite para investimentos estrangeiros em Vaca Muerta e defender as reformas econômicas de seu governo, afirmando que a Argentina estava se aproximando da produção de um milhão de barris por dia.

“Hoje batemos o recorde de exportações em um único mês, ultrapassando os US$ 10 bilhões”, disse o presidente argentino em seu discurso, na tarde de segunda-feira, 19 de outubro.

O avanço de Vaca Muerta já começa a impactar diretamente a balança comercial. No ano passado, o país exportou mais energia do que importou pela primeira vez em 14 anos, uma mudança significativa para uma economia historicamente pressionada por déficits externos e escassez de dólares. Para o governo, a geração de divisas por meio das exportações de energia é estratégica para estabilizar as contas públicas e fortalecer o peso, a moeda local.

A aposta de Milei no setor energético ocorre em um momento de forte tensão global. O risco-país da Argentina superou os 700 pontos na terça-feira, 20 de outubro, o maior nível desde outubro do ano passado, refletindo incertezas políticas, recessão prolongada e dúvidas sobre a sustentabilidade social do ajuste fiscal.

Ao mesmo tempo, o mercado internacional de petróleo vive uma escalada: o preço futuro do barril no índice Brent ultrapassou os US$ 111 na abertura na manhã de terça-feira, o nível mais alto em cinco meses, impulsionado por cortes de produção da Opep+, ataques de milícias hútis a refinarias sauditas e estoques globais em queda.

A crise energética ganhou novo alerta após o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmar que os mercados devem levar mais de um ano para retornar à normalidade, permanecendo vulneráveis a “crises sobrepostas” no Oriente Médio. “Não vejo nenhum caminho crível para que 2027 seja um ano de normalização”, advertiu Birol, em Londres.

Trunfo duplo

É nesse cenário que Milei tenta transformar Vaca Muerta em trunfo geopolítico e econômico para seduzir investidores estrangeiros.

Em seu discurso, mencionou o progresso do oleoduto Vaca Muerta Oil Sur, um projeto de US$ 3 bilhões que permitirá exportações de cerca de US$ 15 bilhões anuais, e lembrou o acordo de US$ 7 bilhões com os Estados Unidos para o desenvolvimento de infraestrutura crítica.

Horas antes, o Diário Oficial argentino confirmou a aprovação de um projeto de US$ 12,4 bilhões em Vaca Muerta, apresentado pela Pluspetrol — o maior investimento individual já anunciado na formação sedimentar.

O superávit energético argentino acumulado entre janeiro e setembro, de US$ 9,4 bilhões, já supera o total de 2015. O resultado é explicado tanto pelos preços internacionais mais altos quanto pelo aumento do volume exportado.

Com potencial de mais de 27 bilhões de barris de petróleo de xisto e cerca de 8,72 trilhões de metros cúbicos (m³) de gás shale, Vaca Muerta mantém produção em torno de 1,3 milhão de barris equivalentes por dia — cerca de 800 mil bpd de petróleo e 500 mil bpd de gás natural. Isso representa quase 60% da produção petrolífera nacional e 35% da oferta de gás.

O petróleo não convencional é hoje o vetor mais dinâmico, impulsionado por investimentos de YPF, Chevron, Shell e ExxonMobil. No gás, a formação já responde por 45% a 50% da oferta nacional, com projetos de expansão de gasodutos e planos de exportação de gás natural liquefeito (GNL).

Mas o avanço convive com desafios estruturais. A curva de declínio dos poços é acentuada — queda de 60% a 70% no primeiro ano —, exigindo perfuração contínua para manter níveis de produção. Os custos de completamento variam entre US$ 8 milhões e US$ 12 milhões por poço, enquanto o petróleo de Vaca Muerta costuma ser vendido com desconto de US$ 8 a US$ 15 em relação ao Brent.

A volatilidade internacional, somada à complexa equação fiscal argentina, pressiona margens e dificulta previsibilidade para projetos de longo prazo.

Ainda assim, o potencial é robusto. A demanda global por GNL cresce entre 3% e 4% ao ano, e a Argentina poderia abastecer plantas de liquefação com vantagem competitiva se avançar em tecnologias de captura de carbono. Projeções para 2026 a 2030 indicam produção estável entre 1,2 milhão e 1,4 milhão de bpd, com possibilidade de chegar a 1,6 milhão caso novos projetos de Shell e Chevron se concretizem.

O Brasil já está atento ao potencial da região. Em novembro de 2025, num raro gesto de convergência política, os governos da Argentina e do Brasil assinaram um acordo para a importação de gás natural de Vaca Muerta. O entendimento envolveu diretamente as administrações de Javier Milei e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa é que o Brasil comece a importar até 30 milhões de metros cúbicos de gás por dia da Argentina até 2030.

Economia em transição

De olho em boas notícias para o público interno visando à eleição presidencial de 2027, Milei aproveitou o evento em Neuquén para reforçar sua narrativa de recuperação econômica.

O presidente afirmou que a melhora recente se deve às políticas fiscais de sua administração, lembrando que a Argentina enfrentava US$ 25 bilhões em vencimentos de dívida. Segundo ele, a combinação de déficit fiscal e balanço energético negativo aumentava a necessidade de financiamento externo — algo que, afirma, está sendo revertido.

Com esse argumento, Milei rebateu críticas sobre atraso cambial. “Quem apostou contra o peso já perdeu muito dinheiro e continuará perdendo”, advertiu. O presidente atribui o crescimento da produção às alterações na Lei de Hidrocarbonetos, na Lei Quadro e ao RIGI (Registro Geral de Incentivos), que flexibilizou regras para investimentos estrangeiros.

A situação macroeconômica da Argentina em 2026 combina forte ajuste fiscal, queda expressiva da inflação e melhora externa, mas também recessão técnica, risco-país elevado e fragilidade social.

Desde que assumiu em dezembro de 2023, Milei implementou um choque fiscal profundo, com corte de gastos, desregulamentação e eliminação do déficit público. Em 2026, o governo registra superávit primário de 1,2% do PIB e superávit financeiro próximo de 977 bilhões de pesos (equivalente a US$ 640 milhões).

O ajuste, porém, veio acompanhado de forte contração da atividade: o PIB caiu 0,6% no segundo trimestre, e o indicador mensal de atividade (EMAE) despencou 2,9% em julho, o pior resultado da atual gestão.

Em contrapartida, a inflação acumulada em 12 meses caiu para 33,4%, contra quase 290% em abril de 2024 — uma desinflação histórica. A inflação mensal está entre 1,7% e 1,9%, os menores níveis em mais de uma década. O FMI projeta inflação média de 32,5% em 2026, caindo para 21,2% em 2027.

Apesar da melhora fiscal e da queda da inflação, o risco-país permanece elevado devido à incerteza política, tensões institucionais, recessão e queda do consumo, além do histórico de defaults.

O superávit comercial projetado, entre US$ 20 e US$ 25 bilhões, impulsionado por energia, mineração e agroindústria, traz um alento ao governo Milei. Vaca Muerta, lítio e colheitas de soja/milho são os principais motores da entrada de dólares – dado essencial na equação macroeconômica argentina.

Os dados mostram que, ao longo de 2026, as reservas cambiais oscilaram entre US$ 44,8 bilhões e US$ 49,7 bilhões, com tendência de recuperação gradual desde julho, mas ainda abaixo das metas estabelecidas pelo FMI — um dos fatores que contribuem para o risco-país elevado, superando na terça, 20, a marca de 700 pontos, de acordo com o índice calculado pelo J.P. Morgan, considerado um indicador da confiança dos investidores estrangeiros na dívida de uma nação.

A reação do índice reflete a queda dos títulos argentinos no exterior, que se aproximava de 1,5%. Tecnicamente, o risco-país mede o prêmio que um país precisa pagar para emitir dívida em relação aos títulos do Tesouro dos Estados Unidos.



Fonte: NeoFeed

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