Negócios

Indústria de fundos perde mais de R$ 100 bilhões no dia seguinte à reeleição de Lula


Os fundos de investimento brasileiros perderam R$ 118,7 bilhões no dia seguinte ao segundo turno das eleições. Em 26 de outubro, o Ibovespa desabou 13,88%, com circuit breaker na abertura, e o dólar subiu 8,25%.

Os fundos de ações concentraram a maior parte do prejuízo, com R$ 74,8 bilhões a menos em um único pregão, segundo levantamento do NeoFeed com base nas cotas diárias informadas à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Para chegar aos números, o NeoFeed comparou as cotas de 23 de outubro e de 26 de outubro de 23,8 mil classes de fundos financeiros e aplicou a variação ao patrimônio de cada uma.

Seguindo o critério semelhante ao da Anbima, ficaram de fora os fundos de cotas, que só aplicam em outros fundos, para evitar dupla contagem. FIDCs, fundos imobiliários, fundos de participações e ETFs também não entram na conta, porque não fazem parte do informe diário da CVM.

O número ainda é preliminar e tende a crescer. Até quarta-feira, 28 de outubro, 1,4 mil fundos, com R$ 329 bilhões de patrimônio, ainda não tinham informado a cota de 26 de outubro. Outros 1,9 mil repetiram o valor da sexta-feira anterior, sinal de que a perda do dia ainda não foi refletida.

Em valores absolutos, as maiores perdas ficaram com as maiores gestoras do país. Os fundos geridos pela Itaú Asset perderam R$ 11,4 bilhões no dia, e os da BB Asset, R$ 9,2 bilhões. Em proporção, porém, o tombo foi pequeno: 1% e 0,5% do patrimônio, respectivamente, porque as duas casas concentram R$ 2,8 trilhões em renda fixa.

O BTG Pactual aparece logo depois, com R$ 7,9 bilhões a menos somando suas carteiras. A perda representou uma queda de 1,9% da carteira, sendo que R$ 5,6 bilhões vieram de fundos de ações.

Na Opportunity, de Daniel Dantas, o estrago foi proporcionalmente maior, com a perda de R$ 6,4 bilhões sendo equivalente a 11,6% do patrimônio da casa. A gestora tem quase 90% dos recursos em ações. O Opportunity Lógica P, a maior carteira de ações da gestora, perdeu R$ 4,8 bilhões no dia.

Em proporção, quem mais sofreu foram as gestoras independentes focadas em ações. A Gávea perdeu 44,3% do patrimônio de suas carteiras em um único pregão, puxada pelo Speed, seu fundo de ações, que caiu 49,1%. A ARC Capital e a Versa não ficaram muito atrás, com quedas de 42,5% e 41,4%, e a Southtree, com queda de 38,2%.

Encore, Safari e Moat viram mais de 30% do patrimônio sumir no dia, assim como a Alaska, que caiu 30,9%. Por ser a maior desse grupo, a Alaska teve o maior prejuízo nominal, de R$ 2,9 bilhões.

As quedas mais fortes entre os fundos vieram de carteiras de ações concentradas. O Alaska Black caiu 44,6% no dia, atingindo quase 16 mil cotistas nas suas duas versões abertas ao público. Com cerca de 1,4 mil cotistas, o Stoxos, da Southtree, caiu 42,9%.

Entre as gestoras mais tradicionais de ações, as perdas também foram grandes. A Atmos perdeu R$ 2,9 bilhões, ou 21,7% do patrimônio, o mesmo valor da Alaska. Só o Atmos Master perdeu R$ 2,7 bilhões. A Dynamo recuou 15,3% (R$ 1,9 bilhão), a Squadra, 22,2% (R$ 1,5 bilhão), e a Tarpon, 21,2% (R$ 1,2 bilhão).

Nos fundos de small caps, as perdas passaram de 30%, superando a queda de 26,9% do índice que reúne essas empresas na B3. O AZ Quest Small Mid Caps recuou 35,8%, o equivalente a R$ 590 milhões, e o Caixa Small Caps Ativo, 32,8%. Entre todos os fundos que caíram mais de 30% no dia, o que tem mais cotistas é o Alaska Institucional Long Only, com 29,3 mil investidores e queda de 33,8%.

O tamanho do estrago tem a ver com o otimismo com que os gestores chegaram à eleição. Na pesquisa mensal do Bank of America com gestores que investem na América Latina, feita depois do primeiro turno, o caixa caiu para 4,4% das carteiras, o menor nível desde fevereiro de 2025 e abaixo da média histórica de 5,5%. A disposição para correr risco atingiu o maior patamar desde fevereiro deste ano.

Às vésperas do segundo turno, um gestor de ações que preferiu não se identificar contou ao NeoFeed que estava “bem comprado”, mas em ações “muito líquidas”, a ponto de conseguir mudar a carteira inteira em um ou dois dias, se precisasse.

Os fundos de pensão também sentiram o golpe. Nos veículos ligados à Petros, dos funcionários da Petrobras, a perda foi de R$ 1,8 bilhão (−3,6%), concentrada em ações. Só o Petros Seleção Alta Liquidez, fundo de ações gerido pela própria fundação, caiu 23,8% e perdeu R$ 697 milhões.

Na Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, os fundos perderam R$ 3,5 bilhões no dia, o equivalente a 4,9% dos R$ 70,6 bilhões aplicados nessas carteiras. O prejuízo veio quase todo da renda fixa (R$ 2,9 bilhões), num dia em que a taxa do DI para janeiro de 2029 saltou 2,65 pontos percentuais, para 15,25%.

O BB RF Liquidez, gerido pela própria fundação, perdeu R$ 1,7 bilhão (−6,5%), e o Previ Renda Fixa IMA-B5+ Ativa, que compra títulos públicos atrelados à inflação com vencimento acima de cinco anos, caiu 10,2%.

No total, os fundos de renda fixa perderam R$ 23,2 bilhões no dia. Quase metade dos 7,4 mil fundos de renda fixa fechou o dia no negativo, e 1,3 mil caíram mais de 5%. As perdas se concentraram nos fundos com títulos de prazo mais longo. Os fundos indexados a índices de títulos públicos, como o IMA-B, recuaram 2,5%. Os de crédito privado com duração livre, que compram debêntures, perderam R$ 7,2 bilhões.

Os grandes multimercados macro aguentaram melhor: Verde e Kapitalo K10 caíram cerca de 5%, o Legacy Alpha TR, 8%, e o SPX Nimitz e o Capstone ficaram perto de zero.

Quem saiu ganhando

Nem todo mundo perdeu dinheiro após a reeleição de Lula. Pouco mais de um terço dos fundos fechou o dia no positivo, mas só 5,8% do total subiram mais de 1%, um grupo de 1,4 mil fundos que ganhou R$ 12,5 bilhões.

Entre as gestoras locais, o destaque foi a Adam Capital, cujas carteiras subiram 9,6% e ganharam R$ 289 milhões. O Adam Macro avançou 7,9%, e o Adam Advanced, que investe no exterior, 14,4%.

Também se salvaram os fundos dolarizados. Os cambiais subiram 8,2%, acompanhando a alta do dólar, e fundos de BDRs e de ouro também passaram de 8% de retorno no dia. O Western Asset BDR Nível I, da Franklin Templeton, ganhou 8,6% para seus 36 mil cotistas. O Nikos Ouro, com 33 mil investidores, subiu 10%.

Apostar contra a bolsa também deu certo. O Itaú Short Ibovespa 2x, que aposta na queda do índice com alavancagem de duas vezes, subiu 28,9% no dia. O fundo, porém, é pequeno: tem R$ 9,4 milhões de patrimônio.

Os maiores ganhos em reais ficaram com fundos exclusivos ligados a bancos estrangeiros, cada um com um único cotista. Os dois fundos geridos pelo Bank of America ganharam R$ 1 bilhão no dia. Só o Ágata, de R$ 6,5 bilhões, subiu 13%.

O BNP Paribas Proprietário avançou 13,4% (R$ 676 milhões), o Kona, do Morgan Stanley, 14,6% (R$ 398 milhões), e o Oak, do Rabobank, 9,4% (R$ 350 milhões). Todos são multimercados com investimento no exterior e, juntos, ganharam R$ 2,4 bilhões no pregão em que a bolsa derreteu.



Fonte: NeoFeed

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