O pastor batista e teólogo Yago Martins criticou o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) após uma publicação nas redes sociais que relacionava a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Ceará a episódios de violência atribuídos ao Comando Vermelho. A manifestação do religioso ganhou repercussão e foi tema de uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo no domingo (1º).
A polêmica começou quando Nikolas compartilhou, na rede social X, duas notícias. Uma delas informava que Lula havia vencido Flávio Bolsonaro (PL) nos 184 municípios cearenses no segundo turno das eleições presidenciais. A outra abordava ataques atribuídos à facção criminosa no estado.
Ao publicar as duas informações, o parlamentar escreveu: “Plantou, colheu”.
A mensagem foi interpretada por Yago Martins como uma insinuação de que os eleitores de Lula seriam responsáveis pela violência enfrentada no Ceará e, por isso, mereceriam sofrer suas consequências.
“Seu comportamento revanchista envergonha o evangelho que você diz seguir”, escreveu o pastor em resposta ao deputado.
Em entrevista à Folha, Yago explicou que sua indignação está relacionada ao fato de Nikolas se apresentar publicamente como cristão.
“Me incomoda ver um funcionário público eleito pelo povo zombar do sofrimento das pessoas porque elas votaram diferente”, afirmou.
O religioso também criticou a utilização da fé para justificar ataques a adversários políticos.
“Esse tipo de postura revanchista é o total oposto daquilo que é o núcleo mais fundamental do evangelho, que é justamente o amor ao próximo, a misericórdia”, declarou.
Quem é o pastor Yago Martins?
Yago Martins é pastor batista, teólogo e responsável pelo canal Dois Dedos de Teologia, que reúne cerca de 1 milhão de inscritos no YouTube.
Identificado com posições políticas de direita, ele também é autor do livro A Religião do Bolsonarismo: Um Ensaio Teológico, no qual analisa a relação entre a fé evangélica e o movimento político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O pastor afirmou que sua crítica a Nikolas não representa uma aproximação com a esquerda. Segundo ele, a indignação surgiu justamente por identificar no deputado uma pessoa que compartilha suas convicções religiosas e parte de suas posições políticas.
“Percebi alguém do meu próprio lado político tendo uma atitude tão desumana em nome de um tipo de revanchismo político por causa do resultado das eleições”, disse.
Para Yago, a direita brasileira precisa rever sua relação com o bolsonarismo e deixar de tratar adversários políticos como inimigos.
Em sua avaliação, o movimento liderado pela família Bolsonaro acabou absorvendo grande parte da direita tradicional.
“Conseguiu arrastar a direita inteira de forma que mal existe direita no Brasil, existe bolsonarismo”, afirmou.
O teólogo também defendeu que lideranças religiosas se afastem de práticas que, segundo ele, utilizam a imagem de Jesus como instrumento de mobilização eleitoral, sem compromisso com os princípios cristãos.
Pastor diz que votaria em Flávio Bolsonaro
Apesar das críticas ao bolsonarismo, Yago Martins afirmou que, caso tivesse participado do segundo turno das eleições presidenciais, teria votado em Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula em 25 de outubro.
O pastor explicou que estava viajando durante os dois turnos e, por isso, não compareceu às urnas.
Segundo ele, a escolha pelo candidato do PL seria feita “com muita dor no coração”, principalmente por suas preocupações com as futuras indicações ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Yago também criticou a decisão de Flávio de deixar o Brasil após a derrota eleitoral, embora tenha ponderado que a rapidez das medidas judiciais relacionadas ao passaporte do senador poderia alimentar alegações de perseguição política.
Yago Martins critica perseguição a eleitores de Lula
Além da publicação de Nikolas Ferreira, o pastor condenou campanhas de boicote e demissão de trabalhadores por suas preferências eleitorais.
Para ele, o resultado das urnas não pode servir de justificativa para ataques pessoais ou perseguições contra quem votou em candidatos diferentes.
“Não tem como viver numa cultura de revanchismo e ódio e dizer que isso representa um tipo de política cristã em qualquer nível”, afirmou.
O religioso também defendeu que pessoas de esquerda possam professar a fé cristã sem serem tratadas como adversárias religiosas.
Yago reconheceu que discursos hostis também estiveram presentes em setores da esquerda, mas afirmou que isso não justifica atitudes semelhantes entre lideranças identificadas com a direita evangélica.








