Negócios

Da Copasa ao gás: a tese de R$ 3,9 bilhões da Perfin em infraestrutura


A transformação da Copasa após a privatização, a expansão do gás natural liquefeito no transporte pesado e a presença em negócios de ferrovias e distribuição de gás ajudam a mostrar onde a Perfin está colocando seu capital em infraestrutura. Por trás dessas posições está o Infra II, uma família de fundos com tamanho-alvo de R$ 3,3 bilhões a R$ 3,9 bilhões.

Essas informações constam na IFC, o braço de investimentos do Banco Mundial para o setor privado, que no fim do primeiro semestre aprovou um investimento de até US$ 40 milhões no veículo offshore da família da Perfin. Essa foi a primeira captação com compromissos de investidores estrangeiros realizada pela gestora criada em 2007 por Ralph Rosenberg.

A Perfin não divulga quanto o Infra II efetivamente captou, quanto já investiu ou o capital disponível para novas alocações. Mas os documentos dos fundos permitem enxergar uma carteira que combina saneamento, geração solar, transmissão de energia, gás, logística e rodovias.

Nos investimentos diretos, a gestora se associa a operadores para financiar projetos e acompanhar a execução. Na bolsa, procura companhias cujo preço, em sua avaliação, ainda não reflete o potencial de crescimento ou de melhora operacional.

A conexão entre essas duas frentes é o conhecimento dos negócios. Ou seja, o custos de construção, cronogramas, licenciamento, financiamento e regulação entram tanto na análise de uma concessão quanto na escolha de uma ação.

A plataforma Perfin Infra reúne mais de R$ 16 bilhões em ativos sob gestão. Dentro desse universo estão os fundos de participações, como os veículos do Infra II, e a estratégia de ações listadas Infra Equity, que completou cinco anos recentemente e tinha patrimônio de aproximadamente R$ 435 milhões em agosto,

O saneamento tem ocupado uma posição de destaque nas carteiras. Fundos geridos pela Perfin Infra e pela Perfin Equities aparecem com 20,11% na composição acionária divulgada pela Copasa, atrás dos 30% da Equatorial.

A presença vai além da exposição financeira. No fim de setembro, a companhia mineira anunciou a nova diretoria e o novo conselho de administração, que passou a contar com dois nomes da Perfin: Rosenberg, sócio-fundador e CIO, e Gustavo Miranda, head of research da Perfin Infra.

“Vemos oportunidades enormes de renovação de contratos com os municípios, de execução de investimentos para a universalização e de captura de bônus regulatórios”, afirma Miranda ao NeoFeed.

Carol Rocha, COO da Perfin Infra, explica que o acompanhamento das investidas vai da aprovação dos planos de negócios e do capex a decisões sobre investimentos específicos e remuneração de longo prazo dos executivos.

“É um processo constante de investimento e lições aprendidas. Sendo especializado nisso, a gente consegue achar as idiossincrasias de uma coisa e outra para encontrar as arbitragens que possivelmente outros investidores não estariam olhando”, diz Rocha.

Do saneamento aos corredores de gás

A composição do Infra II ajuda a dimensionar as teses da gestora. No início de setembro, uma consulta aos cotistas relaciona posições já presentes na carteira, como Copasa, Virtu GNL, Infra Social Participações, as usinas solares Coromandel e Pedro Leopoldo e uma holding que investe na Transmissora Paraíso do Café.

Também aparecem o Perfin Voyager e o Perfin Infra Rally, veículo que investe na Cosan. Por meio desta, a exposição chega a negócios como Rumo, em ferrovias, e Compass, em distribuição de gás.

Os documentos tratam de propostas de reorganização e rebalanceamento entre fundos da estratégia. Na Virtu GNL, por exemplo, a tese combina gás e logística. A empresa desenvolve corredores de transporte pesado abastecidos com gás natural liquefeito e, ao anunciar o aporte da Perfin, apresentou planos de ampliar a operação e avançar na cadeia com investimentos em liquefação.

Em rodovias, a atuação passa pela parceria com a Equipav, iniciada em 2022 e materializada na EPR. A plataforma nasceu após a conquista de uma concessão no Triângulo Mineiro e expandiu sua presença em Minas Gerais e no Paraná.

Miranda vê oportunidades tanto em projetos novos quanto em concessões existentes, por meio de aditivos e reequilíbrios contratuais. A avaliação depende de quanto será necessário investir, das condições dos contratos e da capacidade de execução dos operadores.

O que chega à bolsa

No Infra Equity, o saneamento também ocupa o centro da carteira. Em agosto, o setor representava 32% da exposição líquida, seguido de distribuição de energia, com 25%, geração, com 22%, e transportes, com 12%. Segundo Miranda, a Copasa é a maior posição individual do fundo.

A Sabesp está entre as teses acompanhadas pela gestora. A leitura é de que a companhia já iniciou sua transformação operacional após a privatização, mas ainda tem espaço para ganhos de eficiência, crescimento e execução de investimentos.

O Infra Equity ficou de fora das ofertas de ações realizadas nos processos de privatização de Copasa e Sabesp, apesar do desconto em relação aos preços de tela. Outros veículos da Perfin participaram das operações.

“Isso gera um efeito artificial sobre a performance. Ser bem alocado nesta oferta passa como uma geração de alfa, e não é isso que a gente queria”, afirma Miranda.

O conhecimento dos investimentos diretos também orientou uma decisão de ficar de fora de parte do setor elétrico na carteira de ações: a geração renovável.

“O ilíquido permite antecipar muita coisa. A gente viu que o mercado renovável estava passando por uma espécie de deterioração, com o movimento do curtailment, da modulação, várias coisas que o mercado de capitais não olhava direito”, diz ele.

Em distribuição, a gestora destaca a Equatorial, combinando a avaliação positiva sobre a companhia com a expectativa de ganhos regulatórios para a atividade.

Nos transportes, a Rumo está entre as principais apostas. A Perfin aprofundou a análise e, segundo Miranda, tem atuado junto à empresa em temas como estrutura de capital, comercialização, precificação e aumento de volumes.

O desempenho mais fraco da ação nos últimos anos abriu, na visão da gestora, espaço para uma reprecificação caso a companhia avance nessas frentes.

“Tem muita coisa para arrumar a casa. Quando isso acontecer, acho que o efeito de compressão da mola leva a um retorno muito alto”, diz o executivo.

Entre as eleições e os juros

Depois da valorização das ações do setor em 2025, a Perfin avalia que ainda existe espaço para retorno. No fechamento de agosto, o Infra Equity acumulava rentabilidade de 102,75% desde o início, em dezembro de 2020, ante 53,18% do Ibovespa.

Com as eleições no radar, a gestora destaca a resiliência dos serviços essenciais. Água, energia e transporte de mercadorias tendem a preservar demanda mesmo em períodos adversos, embora os negócios continuem expostos a riscos de execução, financiamento e regulação.

“Boas empresas que se planejaram e se prepararam bem aproveitam para fazer boas alocações de capital”, diz Miranda.

Uma eventual queda dos juros seria um impulso adicional para o setor, mas não é vista pela gestora como condição para que essas teses se sustentem.



Fonte: NeoFeed

Administrador

About Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

    Cadastre seu e-mail e receba notícias e novidades em primeira mão!