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Como a rádio que salvou vidas em guerras se prepara para virar a “bateria” do Vaticano


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Criada em 1931 para levar a voz dos papas além das fronteiras de Roma, a Rádio Vaticano atravessou guerras, revoluções tecnológicas e mudanças profundas na comunicação.

Aos 95 anos, integra hoje um ecossistema multimídia que produz conteúdo em 57 idiomas para rádio, sites, podcasts, vídeos e redes sociais.

Mas as ondas curtas continuam estratégicas: chegam a regiões remotas ou afetadas por guerras, crises e desastres mesmo quando redes locais e internet deixam de funcionar.

Em paralelo, o centro de transmissão de Santa Maria di Galeria ganhará uma fazenda solar de cerca de € 100 milhões, capaz de suprir toda a demanda de eletricidade da Santa Sé.

A transformação também é institucional: desde 2015, rádio, Vatican News e outros braços de mídia estão reunidos no Dicastério para a Comunicação, que, a partir de novembro, será comandado pela primeira vez por uma mulher, Maria Montserrat Alvarado.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Roma — Quando era missionário na América Latina, Robert Prevost encontrava na Rádio Vaticano uma conexão com o mundo. Mesmo em regiões isoladas, fora do alcance da maioria das emissoras, as ondas curtas levavam até seu radinho as mensagens de Roma. “Muitas vezes, até nas montanhas, eu encontrava as notícias, uma boa palavra”, lembraria ele, pouco depois de ter sido eleito papa Leão XIV.

A recordação veio em junho de 2025, durante visita a Santa Maria di Galeria, o centro de transmissão da emissora. Criada para fazer a voz dos pontífices alcançar os fiéis ao redor do planeta, a Rádio Vaticano atravessou guerras, rompeu barreiras geográficas e linguísticas e acompanhou as sucessivas revoluções na maneira de se comunicar. E, aos 95 anos, ela permanece como uma das engrenagens mais estratégicas da estrutura de comunicação da Santa Sé.

Coube ao engenheiro Guglielmo Marconi (1874-1937), Prêmio Nobel de Física em 1909, inaugurar a emissora, em 12 de fevereiro de 1931. Na ocasião, o rádio estava entre as tecnologias mais avançadas e o papa Pio XI (1857-1939) apostava na novidade para ampliar o alcance da Igreja.

No início, predominavam o latim e o italiano, mas a programação rapidamente se expandiu. Em 1939, quando o conclave e a eleição de Pio XII foram transmitidos, a rádio já operava em nove idiomas. Atualmente são cerca de 40 — a programação em língua portuguesa chegaria em março de 1958.

Há quase sete décadas, Santa Maria di Galeria é o endereço das antenas da Rádio Vaticano. A cerca de 40 quilômetros de Roma, o complexo se prepara para ganhar uma nova função e abrigar uma das iniciativas de sustentabilidade mais ambiciosas da Santa Sé: uma fazenda de energia solar capaz de suprir a demanda de eletricidade de todo o Vaticano.

Orçado em aproximadamente € 100 milhões, segundo a agência Reuters, o projeto prevê a instalação de painéis fotovoltaicos em 200 dos 450 hectares do complexo radiofônico, em sintonia com a atividade agrícola já existente no local.

A capacidade instalada da usina será de 80 a 90 megawatts e o excedente deve ser injetado diretamente na rede elétrica da Itália. O plano faz parte de uma estratégia mais ampla da Santa Sé para reduzir em pelo menos 28% suas emissões de carbono até 2035 e zerá-las em 2050.

Mas as mudanças em Santa Maria di Galeria não são as únicas em curso. Há mais de uma década, a própria Rádio Vaticano passa por uma profunda reorganização institucional. Em 2015, o papa Francisco (1936-2025) criou o Dicastério para a Comunicação.

Espécie de Ministério das Comunicações da Santa Sé, o órgão reúne os diferentes braços de mídia do Vaticano — além da rádio, o portal multimídia Vatican News; o Vatican Media, responsável pela produção e distribuição audiovisual; o jornal L’Osservatore Romano e a Tipografia Vaticana, cujas origens remontam a 1587.

Guglielmo Marconi (de pé, à esquerda) inaugurou a Rádio Vaticano ao lado do papa Pio XI (à direita), em 12 de fevereiro de 1931 (Foto: Vatican Media)

À frente da equipe de língua portuguesa, Silvonei José Protz resume a responsabilidade da emissora: “Nós não temos a possibilidade de errar” (Foto: Vatican Media)

Escolhida por Leão XIV, Maria Montserrat Alvarado será a primeira mulher a comandar o Dicastério para a Comunicação, a partir de novembro (Foto: Vatican Media)

Painéis solares ocuparão 200 dos 450 hectares de Santa Maria di Galeria (Foto: Vatican Media)

Nos tempos de missionário na América Latina, Leão XIV encontrava na Rádio Vaticano uma conexão com o mundo: “Muitas vezes, até nas montanhas, eu encontrava as notícias, uma boa palavra” (Foto: Vatican Media)

A partir de novembro, pela primeira vez, a “pasta” será comandada por uma mulher: Maria Montserrat Alvarado, mexicana criada nos Estados Unidos e atual presidente da EWTN News, divisão de jornalismo de uma das grandes redes internacionais de mídia católica.

Na Piazza Pia, em Roma, quartel-general do dicastério, trabalham cerca de 500 jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, produtores e técnicos.

A reforma também levou aproximou a Rádio Vaticano do universo digital. Lançado em 2017, o Vatican News passou a se apoiar nas dezenas de redações e equipes linguísticas da emissora, que hoje produzem conteúdo para diferentes plataformas — do rádio ao site, podcasts, vídeos e redes sociais. Uma máquina gigantesca de divulgação em 57 idiomas.

A “voz brasileira” do papa

No núcleo de língua portuguesa, trabalham sete jornalistas brasileiros e três de países africanos. À frente da equipe está Silvonei José Protz, conhecido como “a voz do papa no Brasil”. Ele começou em uma estação diocesana em Guarapuava, no Paraná, e, aos 19 anos, seguiu para a Rádio Aparecida.

Depois de passar por outras emissoras, no final dos anos 1980, foi convidado para trabalhar em Roma. Aceitou pensando em ficar seis meses. “Estou aqui há 37 anos”, conta ao NeoFeed, de sua sala, onde coleciona relíquias e guarda uma imagem de Nossa Senhora Aparecida abençoada por Leão XIV.

Ele acompanhou de perto boa parte da transformação tecnológica da Rádio Vaticano. Lembra-se de quando os programas destinados à América Latina eram gravados em fitas-cassete e enviados para emissoras do continente. Depois vieram os satélites. Em seguida, os arquivos digitais, os sites, as redes sociais e os aplicativos.

Nas quase quatro décadas em Roma, acompanhou quatro pontífices. Entre os momentos mais marcantes da carreira, cita a morte de João Paulo II, em 2005, e a oração de Francisco na Praça de São Pedro, em 27 de março de 2020, durante a pandemia de Covid-19.

Onde o sinal não se perde

Quase um século depois da primeira transmissão, em plena era digital, a Rádio Vaticano segue como uma ferramenta poderosa. Em regiões remotas e afetadas por guerras, crises e desastres naturais, as ondas curtas têm uma vantagem sobre a internet: o sinal atravessa fronteiras sem depender de redes locais de telecomunicações.

A diversidade de idiomas amplia essa relevância ao manter transmissões em línguas pouco presentes nos grandes meios de comunicação.

Foi assim que a emissora rompeu o silêncio durante a Segunda Guerra Mundial e continua a fazê-lo em conflitos mais recentes, como a invasão da Ucrânia, os confrontos no Oriente Médio e a tragédia na Faixa de Gaza.

Um dos casos mais emblemáticos aconteceu no genocídio de Ruanda, em 1994. Em meio ao colapso das comunicações locais e à violência que deixou centenas de milhares de mortos, a emissora transmitiu boletins em francês e em línguas locais e levou ao ar relatos clandestinos enviados por missionários e religiosos em zonas de conflito.

Essa transmissão global não apenas ajudou no resgate de civis como também guiava os refugiados até rotas de fuga seguras. Com o êxodo de milhões de ruandeses, a emissora também passou a divulgar nomes e mensagens de refugiados, em uma tentativa de aproximar famílias separadas pela violência.

A forma de fazer a informação circular mudou; a responsabilidade sobre ela, não. Se lá na década de 1930, nos tempos de Marconi, o desafio era levar a notícia aos mais diversos cantos do mundo, agora é acompanhar a velocidade com que ela circula sem abrir mão da precisão.

“Nós não temos a possibilidade de errar”, afirma Silvonei. “E, nessa velocidade, precisamos preservar dois princípios: a verdade e a credibilidade.”

Depois das ondas curtas, das fitas-cassete, dos satélites, dos sites e das redes sociais, qual será o próximo formato? “Um podcast com o papa Leão? Quem sabe?”, provoca ele. Talvez, do outro lado do mundo, algum jovem missionário encontre ali a mesma conexão que Robert Prevost encontrou um dia em seu radinho.



Fonte: NeoFeed

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