A dificuldade para encontrar profissionais especializados levou a Gerdau a buscar uma solução fora dos processos tradicionais de recrutamento. Em vez de buscar no mercado uma mão de obra escassa, a siderúrgica procurou a Ânima Educação para ajudar a formá-la.
A partir de conversas entre Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, e Paula Harraca, CEO da Ânima, a Una – uma das 17 instituições de ensino superior do grupo – desenvolveu uma graduação tecnológica em Processos Produtivos da Indústria do Aço. O curso é oferecido em Conselheiro Lafaiete, a poucos quilômetros da usina de Ouro Branco, em Minas Gerais, que emprega cerca de 8 mil pessoas.
“Não é sair vendendo cursos. É entender quais são os profissionais que a empresa precisa e preparar essas pessoas”, diz Harraca, em entrevista ao Números Falam, programa do NeoFeed em parceria com a CNN Brasil.
A formação foi desenhada com a participação de professores e profissionais das duas empresas. Segundo a CEO da Ânima, o processo seletivo recebeu 30 candidatos por vaga e a demanda justificou a abertura de uma segunda turma.
Mais do que uma parceria pontual, o projeto serve de modelo para o crescimento da Ânima. Ao criar cursos a partir das lacunas de mão de obra das empresas, o grupo de educação conecta formação, recrutamento e carreira.
A mudança inverte a lógica tradicional do ensino superior. Em vez de desenhar uma grade, abrir matrículas e esperar que os formados encontrem espaço no mercado, a Ânima começa pela demanda.
A universidade identifica as competências necessárias, desenvolve a formação e aproxima o aluno de uma oportunidade concreta de trabalho.
“Você entra para estudar sabendo que aquilo funciona quase como um processo de recrutamento e seleção, um fast track para a empresa”, afirma Harraca.
“A pessoa não precisa esperar o diploma para começar a contribuir. Ela pode ingressar na companhia e continuar sua formação”, complementa.
Em recuperação
Essa nova frente surge em um momento no qual a Ânima tenta conciliar o crescimento da receita com a recuperação da base de estudantes. A companhia encerrou o primeiro semestre com 354,8 mil alunos, redução de 7,1% em um ano. No Core, que reúne a maior parte das instituições tradicionais, a base recuou 3,2%.
A queda ocorreu apesar da atração de novos estudantes na graduação do Core ter aumentado 5,5%, para 66,2 mil alunos. A evasão, porém, subiu de 15,8% para 20,2%. Em números absolutos, 37,9 mil alunos deixaram os cursos no semestre, 25,3% mais do que no mesmo período de 2025.
O crescimento do tíquete compensou a perda de volume. O valor líquido mensal do ensino acadêmico no Core avançou 9,4%, para R$ 957. Com isso, a receita do segmento cresceu 7,4%, alcançando R$ 1,19 bilhão.
“A receita de qualidade é crescer a atração e o tíquete, com menos inadimplência. Não é vender um diploma. É criar uma conexão direta com as competências de que o aluno precisa para trabalhar, empreender ou realizar aquilo que deseja”, afirma Harraca.
Mesmo com a redução da base, a receita líquida consolidada cresceu 6,1%, para R$ 2,17 bilhões. O Ebitda ajustado ex-IFRS 16 avançou 7,6%, para R$ 690,9 milhões, com margem de 31,8%.
Décima oitava marca
A disciplina também será necessária para integrar a FMU, aquisição anunciada em julho que acrescentará 51 mil alunos e seis campi à Ânima e que ainda depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A companhia estima que a operação elevará sua alavancagem das atuais 2,41 vezes para um intervalo entre 2,72x e 2,74x.
A prioridade será recuperar a participação da FMU no mercado paulistano, que caiu de aproximadamente 9% para 6%, e aproximar sua rentabilidade à das operações comparáveis do grupo. Por isso, novas aquisições estão fora do horizonte de curto prazo.
“Não estamos olhando novas aquisições. Nossa energia agora está na captura de valor da FMU”, diz Harraca.
Ao mesmo tempo, o custo da dívida continua limitando a capacidade de investimento. A Ânima gerou R$ 448,8 milhões em caixa no primeiro semestre, alta de 7,2%, mas desembolsou R$ 340,7 milhões em juros. Segundo a CEO, cada ponto percentual de redução da taxa de juros acrescentaria aproximadamente R$ 30 milhões líquidos ao caixa.
Na B3, a ação ANIM3 está em queda de 6,1% no ano. O valor de mercado da Ânima é de R$ 1,25 bilhão.









