Nova York – Depois de o Pix transformar os pagamentos no Brasil, o BTG Pactual acredita que as stablecoins podem fazer o mesmo pelas transferências internacionais. Para André Portilho, head de digital assets do BTG Pactual, essas moedas digitais, geralmente vinculadas ao dólar, poderão ganhar escala nos próximos três a cinco anos, tornando mais rápidas e baratas as movimentações de dinheiro entre países.
“Esse movimento é a união de três forças: o amadurecimento da tecnologia, a regulação para que grandes bancos possam participar e a educação sobre essa tecnologia dentro das instituições. Essas três forças agora estão se juntando”, disse Portilho.
Em entrevista ao NeoFeed durante o Swell, evento promovido pela Ripple em Nova York, Portilho disse que a principal oportunidade está em tornar as transferências internacionais tão simples para os clientes quanto os pagamentos domésticos. A tecnologia pode reduzir a dependência de intermediários e permitir que os bancos desenvolvam novos serviços para movimentar recursos entre países.
Embora admita que as instituições financeiras talvez precisem sacrificar parte das receitas associadas aos modelos tradicionais de pagamentos, Portilho acredita que os bancos brasileiros têm “muito mais a ganhar do que a perder”, visto que poderão aproveitar a nova infraestrutura para desenvolver outras fontes de receita.
“Desde o primeiro momento, geramos receita nova para o banco. Isso acaba permitindo que a gente consiga fazer tudo que fez, porque torna um negócio sustentável”, afirmou Portilho.
O BTG Pactual encerrou junho com R$ 930 bilhões em ativos totais, crescimento de 14,9% em relação aos R$ 809,3 bilhões registrados em dezembro de 2025. O banco, porém, ainda não apresenta separadamente a contribuição dos ativos digitais para seus resultados.
Uma aposta que começou em 2017
O interesse do BTG por ativos digitais começou quase dez anos atrás, antes da popularização das stablecoins. Segundo Portilho, o banco atua nesse mercado desde 2017, inicialmente por meio de operações de arbitragem com criptomoedas. Desde então, a estratégia avançou para outras aplicações da tecnologia blockchain, incluindo a tokenização de ativos financeiros.
Uma das iniciativas mais recentes envolve uma parceria entre a Ripple e a CSD BR, infraestrutura autorizada a realizar registro, depósito e liquidação de ativos financeiros.
Na primeira fase, cotas de fundos de investimento do BTG depositadas na CSD BR serão tokenizadas e terão seus registros espelhados no XRP Ledger, blockchain pública utilizada no projeto. A tecnologia funcionará como uma camada adicional de consulta e auditoria, levando a tokenização para operações reais do mercado financeiro. A CSD BR informa ter mais de R$ 22 trilhões em ativos registrados.
Se a primeira etapa for validada, a parceria poderá avançar para a emissão de ativos diretamente em blockchain e para negociações entre participantes autorizados. Entre os instrumentos considerados estão os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e do Agronegócio (CRA).
Para Markus Infanger, vice-presidente da RippleX, o avanço da tokenização não significa que a tecnologia blockchain substituirá os bancos e as estruturas tradicionais do mercado financeiro. A transformação, segundo ele, deverá ocorrer por meio da integração entre os dois sistemas.
“Queremos fazer a compatibilidade com o sistema que funciona hoje, as regras e tudo isso”, afirmou Infanger, durante o Swell. Na avaliação do executivo, a adoção dessa nova infraestrutura depende justamente da colaboração com as instituições financeiras já estabelecidas.
O BTG também prepara novos anúncios relacionados a ativos digitais para os próximos meses, segundo Portilho, com a aposta de que stablecoins e ativos tokenizados passem a integrar cada vez mais a infraestrutura do sistema financeiro tradicional.
*A jornalista viajou a convite da Ripple.









