A promulgação da PEC que acaba com a escala 6×1 deu início a uma partida de xadrez nas empresas brasileiras. Com apenas dois meses de transição pela frente, CEOs estão reorganizando peças no tabuleiro para acomodar a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas sem redução salarial.
O NeoFeed ouviu uma dezena de empresários e executivos para entender como diferentes setores estão reposicionando suas peças diante da nova legislação e quais os impactos esperados para os próximos meses.
A conta envolve rever escalas, dimensionar equipes, contratar pessoal em alguns casos e buscar ganhos de produtividade para compensar o aumento dos custos. “Essa não é uma mudança banal. A gente está falando de pessoas”, diz Jonas Marques, CEO da Pague Menos, ao NeoFeed.
O movimento afeta praticamente toda a economia, mas setores como varejo e transporte estão entre os que terão menos espaço para manobras. Segundo estudo da FGV-Ibre, a jornada média semanal é de 43 horas no comércio e de 43,4 horas nos transportes, patamares próximos ao limite atual e acima da nova carga horária que deverá ser implementada até dezembro de 2027.
Além da redução gradual da jornada semanal para 40 horas, a nova regra garante dois dias de descanso aos trabalhadores. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), cerca de 14,9 milhões de trabalhadores cumprem atualmente a escala 6×1 e serão alcançados pela mudança.
Com 1.700 lojas no Brasil, a Pague Menos ainda estuda quais saídas serão adotadas para atender a nova lei. Com 28 mil funcionários, a empresa vem realizando testes sobre novas jornadas, nos últimos meses, para definir qual o melhor formato para as unidades da companhia.
Segundo o Marques, hoje uma drogaria precisa ter quatro farmacêuticos por dia para atender a legislação, que exige a presença de um profissional enquanto ela estiver aberta. “Tenho necessidade de arrumar as escalas e de contratar mais pessoas. Vamos apoiar e cumprir integralmente a lei”, diz ele.
Nas próximas semanas, a farmacêutica irá concluir um estudo para definir qual será exatamente o caminho traçado para permitir que os funcionários tenham dois dias de folga na semana. Isso pode passar por reduzir o número de farmácias que funcionam 24 horas.
“Isso pode resultar até em mudança de hábito da população, que poderá passar a realizar compras durante o dia”, afirma Marques. “Há lugares em que vou precisar ter mais gente. Mas hoje ninguém está com isso fechado.”
Em estudo publicado na segunda-feira, 19 de outubro, especialistas do Banco Safra afirmam que o setor de saúde, que tem uma dinâmica particular em hospitais, clínicas e operadoras, que dependem de equipes contínuas e serviços que funcionam 24 horas por dia, terá pressão sobre os custos trabalhistas a partir do fim de 2026. Após a entrada em vigor da jornada de 40 horas, a alta acumulada no setor de saúde alcança 10% em relação à força de trabalho originalmente exposta ao regime.
Assim como as redes de farmácias e o setor de saúde, o varejo alimentar está aumentando investimentos em tecnologia, fazendo testes com vários modelos de escala – o 4×3 ou o 12 horas de trabalho por 36 de descanso -, e até possibilidade de redução de tempo de funcionamento de unidades.
Para Carlos Guerra, fundador e CEO da rede Giraffas, a tendência é que a companhia, que tem 400 lojas, absorva parte dos custos com o possível aumento de mão-de-obra. Segundo o empresário, a tendência é que a nova legislação resulte em um acréscimo de 12% no custo da folha de pagamento. Isso vai significar, no fim, um aumento de 5% nos custos totais.
Nos últimos meses, a Giraffas vem fazendo testes para entender qual seria a melhor solução para atender a nova jornada e reduzir em parte o impacto financeiro. Uma saída, segundo Guerra, pode ser a implementação de uma nova jornada de 12×36.
“Seria necessário mais um acordo coletivo, mas ele atende as 42 horas semanais de agora e ainda garante folga aos domingos. Hoje, cerca de 20% de nossa rede já atende dessa forma”, afirma o empresário.
A rede de fast food também tem realizado investimentos em tecnologia, como a criação de um aplicativo, que poderia atender o cliente que já esteja na praça de alimentação, por exemplo, sem precisar do atendimento humano.
O estudo da FGV Ibre estima que a nova legislação poderá elevar em até 20% o custo da mão de obra e pode ocasionar em uma redução de até 2,9% no Produto Interno Bruto (PIB), além de perdas de produtividade.
Entre a venda e a distribuição
Enquanto algumas empresas ainda avaliam o que será feito, outras buscam se adaptar a essa nova realidade. Uma grande rede varejista de moda explicou ao NeoFeed que dividiu suas iniciativas entre as frentes de lojas e de logística.
O maior impacto será nos centros de distribuição. A rede entende que essa ponta já opera com patamares de produtividade e acordos de níveis de serviço elevados, o que limita as margens para ganhos de eficiência – ao menos no curto prazo.
“Vamos revisar os turnos, mas provavelmente teremos que ampliar esse time em até 10% até que seja possível trazer mais automação a essa operação”, diz uma fonte da empresa, que pediu anonimato. “Não tem como fazer isso em 60 dias e é pouco provável conseguir fazer esse ajuste até o prazo final de um ano de adaptação.”
Uma das ações para minimizar o impacto do aumento desse quadro será acelerar uma iniciativa que vinha sendo tocada na frente das lojas físicas, até então, como um projeto-piloto: a instalação de caixas de autoatendimento, hoje presente em 10% das 200 unidades da rede – aquelas com maior fluxo.
“Estamos indo para uma lógica de varejo alimentar nesse projeto, estendendo para 60% a 70% das lojas, que terão poucos caixas humanos”, diz a mesma fonte. “Essa é uma alternativa para financiar o aumento do time do outro lado e não ter uma redução da rentabilidade.”
Ele observa que a varejista ainda calcula qual será a redução necessária do quadro para fechar essa equação. Mas acrescenta que, caso não implementasse nenhuma medida, o impacto negativo projetado no Ebitda da operação ficaria entre 6 e 7%.
Impacto na prestação de serviços
Na Petrobras, o impacto do fim da escala 6×1 recai sobre os contratos de terceirizados. A empresa tem cerca de 50 mil empregados próprios – que não serão afetados pela nova regra -, mas quase 130 mil pessoas contratadas por centenas de empresas prestadoras de serviços, que cumprem jornadas variadas e atuam em diferentes frentes, de plataformas offshore a refinarias, relatou a coluna da Broadcast, do Estadão.
Quem também está fazendo contas é a Resolv, que atua nos segmentos de facilities, higiene hospitalar, segurança e alimentação corporativa. A empresa tem cerca de 10 mil funcionários, dos quais 20% trabalham hoje sob o modelo 6×1 – os 80% restantes se dividem nos formatos 5×2 e 12×36 horas.
Para reduzir a necessidade de contratar – o aumento do quadro é estimado entre 7% e 10% –, o grupo já mantém conversas com seus clientes. Hoje, a Resolv atende mais de 500 empresas, entre universidades, hospitais, shoppings, operadores logísticos e usinas de açúcar e etanol.
“Cada contrato e situação é uma análise. Tenho dois cenários para cada cliente”, diz Douglas Imforzato, diretor de gente e gestão da Resolv. “Um é a adequação, o que eu consigo prestar o serviço com menos gente. O outro é ter que crescer o time caso ele queira manter a qualidade que eu ofereço hoje.”
O executivo observa que, caso essa última opção seja a escolhida, o impacto nos custos será de 7%. E que, a princípio, a ideia não é repassar esse valor adicional aos contratos. E sim, identificar alternativas que satisfaçam as demandas da Resolv e também do cliente.
Uma das possibilidades para reduzir a necessidade de contratações é recorrer à tecnologia. O grupo já tem, por exemplo, robôs responsáveis pela higiene de hospitais. Já em segurança, uma das opções é substituir parte do efetivo adicional por drones, entre outros recursos.
“Não tem como fazer isso, claro, sem criar parcerias com os clientes”, diz Imforzato, quando questionado a respeito do custo desses projetos. “Mas, no fim do dia, enxergamos essas possibilidades até como um divisor de águas para repensar e redesenhar alguns processos.”
Reorganizando a casa
Na contramão dessa mudança, há quem planeje, nesse momento se adaptar a esse novo contexto reorganizando o que já está dentro de casa. Essa é a orientação inicial de outra varejista de moda ouvida pelo NeoFeed.
“A princípio, não vamos demitir nem contratar”, diz o CEO da companhia, que pediu anonimato. “Vamos tentar reorganizar as escalas e ficar com menos funcionários por loja. Acho que esse vai ser, em linhas gerais, o playbook de todo mundo. Mas temos o risco de comprometer o atendimento.”
Com mais de 100 lojas e um volume de mais de mil funcionários, a rede vai buscar minimizar esse risco fazendo “mais com menos”. Para isso, está investindo em treinamento e na aceleração do desenvolvimento de um aplicativo para municiar os vendedores com dados.
“Vamos monitorar diariamente como essas iniciativas funcionam, pois não conseguimos aumentar o time. Esse é o ponto”, afirma. “O que pode acontecer é, cada vez mais, desincentivarmos o varejo físico e buscarmos mais automatização e, no fim das contas, as vendas online.”








