Uma onda de protestos de estudantes do ensino médio na França contra as escolas deterioradas, de espanhóis e portugueses contra a explosão do preço dos aluguéis e pela alta da inflação na Itália se espalhou nas últimas semanas pela Europa.
O que começou como reivindicações pontuais hoje é visto, por analistas, como sintoma de algo mais profundo: a dificuldade estrutural dos países europeus em sustentar o sistema de bem‑estar social criado no pós‑guerra.
Hoje, a proteção social responde por quase 40% de todos os gastos públicos na União Europeia — cerca de € 3,3 trilhões por ano, o equivalente a aproximadamente 20% do PIB do bloco. Fora da UE, o cenário é semelhante no Reino Unido, com indicadores ainda mais dramáticos.
É como se a panela de pressão atingisse o limite em função de uma série de fatores que ajudaram a implodir o sistema de bem-estar ao longo das últimas três décadas – envelhecimento da população, deterioração das finanças públicas e erosão da confiança na capacidade do Estado de garantir segurança econômica e justiça social.
Na França, símbolo maior tanto dos protestos recentes quanto do colapso do sistema de proteção social que vigora há 80 anos na Europa Ocidental, a onda de manifestações estudantis transformou Paris em cenário de uma crise mais ampla. O governo convocou uma reunião de emergência na segunda-feira, 19 de outubro, e o ministro do Interior, Laurent Nuñez, tentou apresentar sua renúncia, rejeitada pelo governo do presidente Emmanuel Macron.
No sábado, 17 de outubro, após horas de confrontos com a polícia, o governo impôs um toque de recolher parcial em bairros de Paris. O balanço oficial registrou dezenas de feridos, 1,5 mil lojas e estabelecimentos comerciais saqueados e destruídos, além de mais de 100 detidos – maioria estudantes de 15 a 17 anos.
No mesmo dia, marchas tomaram as ruas de cidades na Bélgica, em Portugal e na Itália, mas por outras razões. Em Lisboa e no Porto, cartazes denunciavam a explosão dos preços de aluguel e a impossibilidade de jovens e famílias de classe média permanecerem nas áreas centrais.
Na Espanha, a crise habitacional é ainda mais aguda: em cidades como Madri e Barcelona, os aluguéis subiram mais de 80% em uma década, empurrando uma geração inteira para periferias distantes ou para a casa dos pais.
Na Itália, a pressão sobre os orçamentos familiares foi o tema central das manifestações em Milão, reprimidas com violência na semana passada. Famílias relatam que, mesmo com emprego, já não conseguem pagar aluguel, energia, transporte e alimentação sem recorrer a dívidas.
Em todos esses países, o fio condutor é o mesmo: o custo de vida disparou, enquanto serviços públicos que deveriam amortecer o impacto — escolas, saúde, moradia social, proteção ao desemprego — se mostram incapazes de cumprir essa função.
Modelo esgarçado
O Estado de bem-estar social europeu nasceu dos escombros da Segunda Guerra, com uma promessa ambiciosa: oferecer segurança econômica, justiça social, solidariedade e dignidade a todos os cidadãos.
Durante mais de meio século, essa promessa foi, em grande medida, cumprida. À medida que a Europa se reconstruía, sistemas generosos de proteção social caminharam lado a lado com economias em expansão. Saúde universal, pensões públicas, apoio às famílias, seguro desemprego e uma ampla gama de serviços sociais sustentaram uma das mais longas eras de paz e prosperidade do continente.
Hoje, o cenário é bem diferente. O que antes foi motor de crescimento passou a ser visto como um peso difícil de carregar. O Estado de bem-estar social está ruindo sob o próprio peso: a mesma estrutura que amortizou crises por décadas agora pressiona orçamentos, alimenta déficits e expõe a fragilidade fiscal de governos que já não conseguem conciliar expectativas sociais com limites econômicos.
Desde 2008, a Europa foi atingida por uma sequência de choques: crise financeira global, crise da dívida soberana, Grande Recessão, crise migratória, pandemia da Covid-19, guerra na Ucrânia, explosão dos preços de energia e choques climáticos. Em cada uma dessas situações, o Estado de bem-estar social fez o que foi concebido para fazer: interveio para proteger renda, empregos e serviços.
Em muitos países, essa conta é financiada por dívida. A relação dívida/PIB da Grécia chegou a 143,5%, a da Itália a 138,9%, a da Bélgica a 109,1% e a da Espanha a 1013,5% — todas muito acima do teto de 60% recomendado pela própria União Europeia.
A França é um dos casos mais preocupantes. No primeiro trimestre de 2026, a dívida pública francesa alcançou € 3,45 trilhões, ou 114% do PIB. O orçamento anual registra déficit próximo de 6%, e o sistema previdenciário acumulava um rombo de € 23 bilhões, bem acima dos € 15,3 bilhões do ano anterior.
Num país em que a taxa de fertilidade é de 1,62 filho por mulher — queda de 21% em 15 anos — o sistema de pensões baseado na repartição simples, em que trabalhadores ativos financiam diretamente os benefícios dos aposentados, torna se cada vez mais difícil de sustentar.
Uma reforma previdenciária aprovada em 2023 buscava enfrentar parte desse problema, mas foi recentemente suspensa pelo primeiro ministro francês diante da ameaça de um voto de desconfiança na Assembleia Nacional.
No restante do bloco europeu, a política de curto prazo voltou a prevalecer sobre a necessidade de ajustes de longo prazo. Em vez de encarar o desafio de conter gastos e redesenhar o sistema, legisladores empurram o problema para frente.
Apesar dos níveis recordes de gasto, os resultados sociais são frustrantes. Quase 94 milhões de europeus — cerca de um em cada cinco — são oficialmente classificados como em risco de pobreza. Mesmo famílias de renda média relatam dificuldades crescentes para fechar as contas.
Segundo dados do Eurostat, 45,4% dos europeus dizem ter problemas para pagar todas as despesas mensais, com maior impacto entre jovens, pais solteiros e aposentados.
Um dos fatores centrais é o que o economista britânico Charles Goodhart chamou de “grande inversão demográfica”. A Europa envelhece rapidamente: mais de um em cada cinco cidadãos da UE já tem mais de 65 anos.
Esse grupo deve crescer de 97 milhões de pessoas em 2024 para quase 130 milhões em 2050, pressionando sistemas de pensões e de cuidados de longa duração. “As pessoas vivem mais, mas têm menos filhos”, afirma Goodhart. “O equilíbrio se desloca: há mais aposentados demandando benefícios e menos trabalhadores contribuindo para o sistema.”
A isso se somam fraudes e erros administrativos em larga escala. Estimativas variam, mas apontam para perdas entre € 85 bilhões e € 230 bilhões por ano em toda a UE, somando benefícios indevidos, fraudes e falhas de gestão. É um peso adicional sobre sistemas já tensionados, que alimenta a percepção de injustiça e ineficiência.
Diante desse quadro, analistas traçam três cenários para o futuro do Estado de bem-estar social europeu. O primeiro, considerado improvável, seria a adoção de um modelo mínimo, com proteção restrita a situações extremas e forte transferência de responsabilidades para o indivíduo e o mercado. O problema é que toda vez que essa proposta é apresentada, como na França, a pressão político-eleitoral a descarta.
O segundo, visto como provável no curto prazo, é um Estado social sob vigilância constante: gastos monitorados de perto, reformas pontuais, ajustes paramétricos em pensões e benefícios, sem ruptura completa com o modelo atual.
O terceiro cenário, considerado provável no médio e longo prazo, é o de um Estado de bem-estar paternalista: menos universal, mais seletivo, com forte condicionalidade e maior controle sobre o comportamento dos beneficiários. Nesse modelo, o Estado continua presente, mas exige contrapartidas rígidas, monitora mais de perto quem recebe o quê e tenta reduzir fraudes e desperdícios por meio de mecanismos de supervisão intensiva.
Falência britânica
Se o continente continental oferece sinais de desgaste, o Reino Unido se tornou outro exemplo dramático de um sistema em crise. Reportagem recente do jornal The Wall Street Journal mostra como os gastos com benefícios por incapacidade e doenças — incluindo quadros de depressão, ansiedade e outras condições de saúde mental — explodiram nos últimos anos.
Cerca de sete milhões de pessoas — mais de 10% da população — recebem atualmente pelo menos um ou mais benefícios por doença ou invalidez. Os números estão crescendo mais rapidamente entre as pessoas em idade ativa, que deveriam impulsionar a economia do país, com um aumento de mais de 60% nos últimos seis anos, passando de 2,9 milhões em 2019 para 4,7 milhões.
Nenhum outro país ocidental viu um aumento tão grande nos pedidos de auxílio-doença. Nos EUA, o número de pessoas que recebem benefícios federais por invalidez caiu nos últimos 15 anos. Os dados mais recentes mostram que cerca de 10,6 milhões de pessoas em idade ativa nos EUA solicitaram um ou ambos os principais programas da Previdência Social para pessoas com deficiência, em um país com uma população cinco vezes maior que a do Reino Unido, com seus 7 milhões de beneficiários.
Ao mesmo tempo, serviços públicos essenciais, como o sistema de saúde (NHS), enfrentam filas intermináveis, falta de profissionais e estruturas sobrecarregadas. A combinação de benefícios crescentes, baixa participação no mercado de trabalho e serviços em colapso alimenta um sentimento de que o pacto social britânico se rompeu.
Como consequência, os custos de empréstimo no Reino Unido são mais altos do que em qualquer outro país do G7, tendo atingido recentemente o nível mais alto desde a crise financeira de 2008.
O quadro britânico funciona como alerta para o restante da Europa: sem reformas profundas, o Estado de bem-estar pode deixar de ser amortecedor de crises e se tornar, ele próprio, fonte de instabilidade.









