As concessões de saneamento básico frustraram os investidores neste ano. Dos quatro grandes projetos estaduais previstos para disputa na B3, três não conseguiram avançar integralmente. Agora, na reta final de 2026, governos estão revisando as condições dos projetos para tentar despertar o interesse do mercado.
O caso mais avançado é o do Ceará, que já revisou as condições do projeto, publicou um novo edital na semana passada e marcou o leilão para dezembro. Em Goiás e Rondônia, as análises ainda estão em andamento para identificar os ajustes necessários antes de uma nova disputa.
Juntos, os três projetos somam R$ 16,8 bilhões em investimentos previstos, segundo dados da Associação e Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon).
O problema é que os investidores privados ficaram mais seletivos. Aegea, Iguá, BRK e Acciona encontram um cenário diferente daquele que marcou a corrida por concessões após a aprovação do marco legal do saneamento.
Os contratos conquistados nos últimos anos exigem agora obras, financiamento e capacidade de execução. Com recursos comprometidos na expansão das operações, os grupos passaram a avaliar com mais rigor se a remuneração oferecida pelos projetos compensa os riscos que terão de assumir.
Um exemplo aconteceu em junho deste ano, quando quatro dos cinco blocos de parceria público-privada (PPP) de esgotamento sanitário oferecidos pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) não receberam propostas. Apenas o Bloco 1 (Norte-Litorâneo) foi arrematado pelo Consórcio Ceará Saneamento, único proponente, com desconto de 1,15%.
No certame da Paraíba, realizado em maio, a espanhola Acciona também não enfrentou concorrentes e conquistou o lote único, que abrange 85 municípios.
Já no Ceará, os quatro blocos que ficaram sem interessados voltarão à disputa em 16 de dezembro, após ajustes no projeto. Ao todo, são R$ 6,3 bilhões em investimentos para atender 104 municípios.
Uma das principais mudanças do novo edital foi a atualização do custo médio ponderado de capital (WACC), que elevou em quase 20% o valor total das contraprestações mensais estimadas, segundo a Cagece.
Em nota, a companhia informou que revisou requisitos técnicos e operacionais e detalhou regras sobre atendimento de esgoto e impactos da reforma tributária, buscando uma “alocação equilibrada entre os riscos do parceiro privado e do poder concedente”. As alterações, anunciadas na semana passada, foram definidas após uma sondagem de mercado realizada em julho.
“As mudanças nas condições econômicas e nas regras de participação podem ampliar o interesse dos operadores, criando condições para propostas mais eficientes e maior atratividade do projeto”, diz Felipe Cascaes, diretor jurídico e legislativo da Abcon.
Em Goiás, a PPP de esgotamento sanitário da Saneago, que abrange 216 municípios e prevê R$ 6,3 bilhões em investimentos, não saiu do papel em março. Dois dos três blocos ficaram sem interessados, enquanto o único consórcio participante do terceiro foi inabilitado por não apresentar a garantia de proposta exigida no edital.
Entre as críticas ao projeto estavam o possível subdimensionamento dos investimentos e a remuneração considerada insuficiente pelos potenciais interessados. Segundo a Folha de S.Paulo, Aegea, BRK, Acciona e GS Inima estudaram a concessão, mas desistiram de participar da disputa diante de problemas na estruturação.
Outro ponto questionado pelas empresas era a possibilidade de serem penalizadas caso os moradores não se conectassem à rede de esgoto, embora a gestão comercial permanecesse sob responsabilidade da Saneago. O risco era assumir obrigações cujo cumprimento dependia também da atuação da companhia estadual.
Em Goiás e Rondônia, o trabalho de revisão dos projetos está sendo conduzido com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Segundo Luciene Machado, superintendente da Área de Soluções para Cidades do banco de fomento, o trabalho envolve reavaliar diversas premissas dos modelos econômico-financeiros, incluindo custo de capital, investimentos, projeções de receita, tarifa social, inadimplência e redução de perdas de água.
“Esse processo de revisão é, em essência, avaliar todas as variáveis, entender os impactos que elas têm sobre a viabilidade do projeto e discutir os efeitos relevantes com o poder concedente, ouvindo também os potenciais licitantes”, afirma ela.
A expectativa é que a PPP de Goiás avance para uma nova licitação em 2027, após a conclusão das revisões e a análise dos órgãos responsáveis.
Em Rondônia, o caso mais recente, a concessão de água e esgoto de 40 municípios terminou sem propostas em setembro, como revelou na época, com exclusividade, o NeoFeed. O projeto previa mais de R$ 4 bilhões em investimentos.
Em nota, o governo de Rondônia informou que, junto ao BNDES, avaliaria as condições técnicas e financeiras do projeto e manteria o diálogo com potenciais investidores para “reunir informações que contribuam para a definição dos próximos passos da iniciativa”.
Para Luciene, a ausência de propostas nos leilões de saneamento não significa falta de interesse pelo setor, mas evidencia a necessidade de adequar as condições dos projetos às avaliações dos potenciais investidores. “É o projeto que se adapta à demanda, e não a demanda que se adapta ao projeto”, diz.
Na avaliação de Carlos Lebelein, especialista em infraestrutura e líder da área de regulação e avaliação econômico-financeira da LMDM Consultoria, o setor entrou em uma fase de amadurecimento. Nesse cenário, os juros elevados, as condições de financiamento e a insegurança institucional também pesam nas decisões dos investidores.
“A demanda diminuiu porque a oferta foi muito grande. Hoje já tem muitos projetos na carteira, então só vão fazer sentido os que realmente tenham qualidade”, afirma Lebelein.
A experiência com as concessões anteriores também aumentou o rigor na análise dos estudos de viabilidade. Problemas como investimentos e despesas operacionais subdimensionados e metas de cobertura superestimadas passaram a receber mais atenção.
“Os investidores olham hoje a carteira com muito mais zelo, identificando pontos em que a estruturação do projeto pode ter falhado ou que têm lacunas”, acrescenta ele.
O que vem pela frente
O setor de saneamento tem 23 leilões mapeados, em diferentes estágios de preparação, que somam R$ 65,5 bilhões em investimentos previstos, segundo levantamento da Abcon com base em dados do Radar PPP e do BNDES. Os projetos podem beneficiar 19,2 milhões de brasileiros em 623 municípios.
Entre as iniciativas está o UniversalizaSP, do Governo do Estado de São Paulo, que prevê a concessão dos serviços de água e esgoto em 146 municípios não atendidos pela Sabesp.
O BNDES prepara iniciativas no Espírito Santo e em Porto Alegre para etapas posteriores de 2027. Entre as mais avançadas está a PPP de esgotamento sanitário do Rio Grande do Norte, com investimentos estimados em cerca de R$ 4 bilhões.
De acordo com Luciene, do BNDES, a documentação do projeto potiguar já foi aprovada pela companhia estadual e pelo comitê gestor de PPPs e encaminhada ao Tribunal de Contas.









