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Dos data centers às baterias: o plano da CPFL para plugar a corrida da IA à sua rede elétrica


A corrida para construir data centers no Brasil chegou à CPFL Energia na forma de uma longa lista de pedidos de conexão. Nos últimos 18 meses, a companhia recebeu solicitações que somam cerca de 8 gigawatts (GW). É uma demanda potencial que abre espaço para ampliar o fornecimento de energia e oferecer infraestrutura aos novos empreendimentos — desde que a rede elétrica consiga acompanhar essa expansão.

O volume dos data centers em operação no País — aproximadamente 1 GW, de acordo com a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC) —  ajuda a dimensionar a ambição dos projetos da maior companhia privada do setor elétrico brasileiro, que atua de forma integrada em distribuição, geração, transmissão, comercialização e serviços.

O trabalho da CPFL, agora, é transformar os pedidos recebidos em projetos contratados e, consequentemente, em consumo garantido. Na região de Campinas, por exemplo, uma das áreas de atuação da companhia, a companhia recebe 100 megawatts (MW) por unidade. “Campinas tem 350 MW de carga e recebo pedidos que quadruplicam isso”, diz Gustavo Estrella, CEO da CPFL Energia, ao NeoFeed.

No segundo trimestre deste ano, o consumo de energia dos data centers atendidos pelas distribuidoras do grupo alcançou 313 gigawatts-hora (GWh), avanço de 35,8% sobre o mesmo período do ano anterior. No mercado total das distribuidoras, considerando a energia faturada e a compensação da geração distribuída, o crescimento foi de 4%.

“No último trimestre eu entreguei no meu mercado, em consumo de energia, um crescimento de quase 40% vindo de data centers. O potencial aqui é escalar ainda mais esse número, especialmente quando migrar a demanda de data center de cloud, que é o que temos hoje, para IA”, afirma Estrella.

No primeiro semestre, o consumo desses clientes cresceu 30%, para 589 GWh. Embora ainda sejam uma parcela pequena do mercado total da CPFL, os data centers ganharam participação na classe comercial e passaram a responder por 9,3% da energia faturada desse segmento no segundo trimestre deste ano, ante 7,4% um ano antes.

Para capturar essa expansão, a companhia pode atuar tanto no fornecimento de energia como na conexão à rede de distribuição e a construção de subestações ou linhas de transmissão para os novos empreendimentos.

O limite, segundo o CEO, está principalmente na transmissão. Falta capacidade na rede básica para conectar parte dos projetos, e ampliar essa infraestrutura exige planejamento e obras que não acompanham, necessariamente, a velocidade das intenções de investimento dos clientes.

Uma alternativa é aproveitar conexões existentes e ampliar sua capacidade. Ainda assim, isso pode não ser suficiente para atender a toda a demanda. “Talvez não seja possível aproveitar 100% do potencial de expansão do data center. O nosso desafio é o que a gente pode fazer para explorar ao máximo”, diz o CEO.

A oportunidade chega a um grupo que já ocupa uma posição relevante no setor. Controlada pela chinesa State Grid, a CPFL é a maior distribuidora do Brasil em volume de energia vendida, com 14% de participação. Atende 10,9 milhões de clientes em 687 municípios do Rio Grande do Sul e de São Paulo e atua também em geração, transmissão, comercialização e soluções de energia.

No primeiro semestre, a receita operacional líquida, excluída a receita de construção, somou R$ 19,7 bilhões. O Ebitda alcançou R$ 7,4 bilhões, alta de 7,8%, e o lucro líquido foi de R$ 3,35 bilhões, avanço de 19,5%. A distribuição respondeu por aproximadamente 65% do Ebitda consolidado no segundo trimestre.

Nova frente nas baterias

Enquanto os data centers trazem uma perspectiva de crescimento do consumo, o armazenamento de energia abre outra possibilidade de expansão para a CPFL. Estrella afirma que a companhia deve participar dos leilões de baterias e de sistemas reversíveis. “O sistema de armazenamento pode representar uma nova frente de negócio para o nosso grupo”, diz o CEO.

O interesse surge em um momento em que o setor precisa lidar com os desequilíbrios entre oferta e demanda. Baterias permitem guardar energia para utilizá-la em outro momento. Já as usinas hidrelétricas reversíveis usam eletricidade para bombear água a um reservatório superior, de onde ela pode ser liberada posteriormente para gerar energia.

Na geração, a própria CPFL sente os efeitos das restrições do sistema. A companhia tem 4.072 MW de capacidade instalada, integralmente em fontes renováveis (hidrelétrica, eólica, biomassa e solar). No segundo trimestre, os cortes impostos à geração eólica e solar pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para não sobrecarregar a rede, conhecidos como curtailment, representaram 25% de sua geração potencial.

Esse risco ajuda a explicar a cautela com novos projetos de geração. “É muito difícil viabilizar projetos com taxas atraentes quando o risco de cortes é tão elevado; estamos em compasso de espera”, afirma Estrella.

Na transmissão, o foco é pragmático: linhas menores, sinergia com áreas de concessão e participação disciplinada em leilões. A aquisição da C3E Transmissão, em 2021, revelou uma necessidade de modernização maior que a prevista. “Imaginávamos um volume de investimento, mas a demanda é muito maior: devemos investir entre R$ 3 e R$ 4 bilhões no ciclo”, diz.

No total, a CPFL Energia detém mais de 6 mil km de linhas de transmissão e 16,4 mil megavolt-ampere (MVA) de potência instalada. Nessa área, a empresa atua de forma complementar à estratégia da State Grid (focada em ultra-alta voltagem). A CPFL busca sinergia em linhas menores e crescerá via leilões, de forma pragmática para garantir o retorno esperado em um mercado competitivo.

A gigante chinesa toca atualmente a maior obra de linha de transmissão já licitado no Brasil, de 1.468 km, num trajeto que liga a Subestação Graça Aranha (MA) à Subestação Silvânia (GO), passando pelo Tocantins. Orçado em R$ 18 bilhões, o empreendimento vai ampliar o escoamento da energia renovável do Nordeste para os centros de consumo do País, reduzindo o curtailment e reforçando a rede básica quando entrar em operação, em 2028.

No armazenamento, o executivo espera uma disputa intensa e cita mais de 300 GW de potência em projetos cadastrados para os leilões , de acordo com levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) . Ainda assim, acredita que a companhia reúne condições para competir.

“Temos custo de capital baixo, acesso à cadeia de fornecedores e escala. Pode ser que alguém consiga entregar um preço menor do que o nosso, mas dificilmente consegue ter uma vantagem competitiva diferente da nossa”, diz ele.

A disposição para entrar nesse mercado vem acompanhada da exigência de retorno. Estrella afirma que a empresa será pragmática nas premissas dos modelos financeiros e na avaliação dos projetos.

Para ele, o armazenamento deve fazer parte de uma expansão mais diversificada do sistema elétrico, que considere a segurança do abastecimento. “Não adianta crescer só com uma fonte, isso aqui acaba gerando um efeito colateral de risco na outra ponta. O caminho certo é balancear; precisamos começar rápido.”

Base para crescer

As novas oportunidades convivem com um ciclo de investimentos concentrado no principal negócio da companhia. A CPFL prevê R$ 31 bilhões entre 2026 e 2030, dos quais R$ 25,3 bilhões em distribuição. Para este ano, a estimativa é de R$ 6,5 bilhões em todos os negócios do grupo — no primeiro semestre, foram investidos R$ 2,8 bilhões.

Os aportes financiam a expansão do atendimento, a modernização e a automação das redes, além do reforço da infraestrutura diante de eventos climáticos extremos. No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 expuseram a dimensão desse desafio. “É uma questão de sobrevivência; a rede precisa mudar para sobreviver”, diz Estrella.

Entre as iniciativas, o executivo destaca a substituição de postes de madeira por concreto e a automação para isolar falhas e restabelecer o fornecimento com mais rapidez. A vegetação também exige atenção: árvores derrubadas por temporais podem comprometer mesmo os trechos modernizados da rede.

A CPFL também pretende ampliar a medição inteligente para enxergar o comportamento da rede e identificar falhas remotamente. Mas Estrella diz que o ritmo depende do reconhecimento regulatório dos investimentos.

“Se investimos no começo do ciclo tarifário, perdemos anos de remuneração, por isso, precisamos do reconhecimento anual dos investimentos”, afirma ele.

O ciclo de aportes também entrou na avaliação dos analistas. Em seu último relatório, distribuído no começo de outubro, o Itaú BBA elevou o preço-alvo das ações da CPFL de R$ 45,90 para R$ 52,50 e manteve a recomendação outperform, que é equivalente a compra para o papel CPFE3 — em queda de 7,45% no ano, aos R$ 49,75.

O banco de investimentos destaca a geração de caixa, a estrutura de capital e a capacidade de pagar dividendos mesmo durante o ciclo de investimentos. A expansão da base de ativos das distribuidoras e seu reconhecimento nas revisões tarifárias previstas para 2027 e 2028 estão entre os fatores considerados na avaliação.

A CPFL encerrou junho com dívida líquida de R$ 32,5 bilhões e alavancagem de 2,36 vezes o Ebitda, pelo critério dos contratos financeiros. Essa estrutura dá contexto à intenção de investir na rede e disputar novas frentes, mantendo a disciplina de retorno defendida por Estrella.

Na lista de pedidos de conexão, a companhia já enxerga o tamanho da oportunidade dos data centers. O próximo passo é viabilizar a infraestrutura para transformar essa demanda potencial em consumo e receita. No armazenamento, o desafio será encontrar projetos em que as vantagens de capital, fornecedores e escala se traduzam em retorno.



Fonte: NeoFeed

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