Negócios

Liceus em chamas, cofres vazios e revolta estudantil expõem ajuste fiscal de € 54 bilhões na França


Ler o resumo da matéria

Mais de 400 escolas na França foram fechadas em 2 de outubro devido a protestos de estudantes contra a deterioração das instalações, longos dias letivos e falta de professores. O movimento, iniciado em Seine-Saint-Denis, se espalhou pelo país, resultando em confrontos com a polícia e milhares de detenções. A revolta atual, embora remeta a 1968, é impulsionada por uma crise fiscal, com um ajuste de € 54 bilhões para conter um déficit de 5,1% do PIB e uma dívida de 119%. O governo planeja cortes em salários e benefícios, mas destina € 65,5 bilhões à educação.

A pressão sobre servidores é alta, com protestos massivos. A crise fiscal também afeta os títulos do Tesouro francês, com rendimentos elevados. O governo enfrenta um Parlamento fragmentado e a economia cresce lentamente, com desemprego projetado em 8,3% em 2026. Os protestos refletem uma insatisfação mais ampla com a situação política e econômica do país.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Mais de 400 escolas foram fechadas na França na sexta feira, 2 de outubro, após os protestos que mobilizaram milhares de estudantes para expressar seu descontentamento com instalações escolares deterioradas, longos dias letivos e falta de professores. O movimento, que começou há quase duas semanas na área de baixa renda de Seine-Saint-Denis, no norte de Paris, espalhou-se por todo o país nos últimos dias.

Em várias cidades, liceus (escolas onde jovens de 15 a 18 anos concluem o ensino médio) foram bloqueados, contêineres queimados e confrontos com a polícia se multiplicaram. O governo afirma que cerca de 300 policiais e bombeiros receberam atendimento médico devido aos ferimentos, e aproximadamente 2.000 pessoas – principalmente menores de idade – foram detidas.

Desde maio de 1968 — quando estudantes e trabalhadores paralisaram o país, derrubaram ministros e remodelaram a cultura política francesa — protestos estudantis sempre tiveram um peso simbólico desproporcional na França.

Há 58 anos, a revolta tinha cunho social, voltada contra o conservadorismo do governo de Charles de Gaulle, exigindo mais liberdade de expressão e participação política. Em 2026, porém, por trás da indignação com prédios deteriorados, salas superlotadas e falta de professores, há uma crise muito maior — e essencialmente econômica.

A França está prestes a aprovar na Assembleia Nacional um ajuste fiscal profundo, estimado em € 54 bilhões (o equivalente a US$ 60,8 bilhões), destinado a conter um déficit anual do Orçamento que chegou a 5,1% do PIB e uma dívida pública que alcançou 119% do PIB no segundo trimestre. Esses números violam há anos os parâmetros da União Europeia, que estabelecem limites de 3% para o déficit e 60% para a dívida.

O plano de austeridade apresentado pelo primeiro ministro Sébastien Lecornu — terceiro chefe de governo do presidente Emmanuel Macron em dois anos — prevê congelamento de salários do funcionalismo, redução de benefícios fiscais, cortes em aposentadorias e limites rígidos para gastos locais e de saúde.

Mesmo assim, o investimento em educação é um dos itens mais caros do orçamento estatal proposto pelo governo esta semana, com € 65,5 bilhões (US$ 74 bilhões ) destinados às escolas no próximo ano. Isso é mais do que os € 63,4 bilhões propostos para a defesa.

A pressão sobre servidores, no entanto, é significativa: professores, enfermeiros e trabalhadores de emergência foram às ruas em massa, e mais de 200 mil pessoas protestaram em um único dia, segundo o Ministério do Interior.

A crise fiscal também se reflete no comportamento dos títulos do Tesouro francês (OATs), que estão agora próximos das máximas das últimas décadas, com os custos de financiamento público entre os mais altos das sete economias mais avançadas. O rendimento do título OAT francês de referência com vencimento em 10 anos estava cotado a 4,914% – próximo da máxima em 24 anos.

Analistas apontam que, embora os papéis continuem atraentes pela liquidez e pelo rating elevado, a volatilidade aumentou diante da incerteza sobre o Orçamento de 2027. Caso o governo não apresente uma consolidação fiscal crível, investidores podem exigir prêmios maiores para carregar a dívida francesa, pressionando ainda mais os custos de financiamento.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reforça que a França precisa de uma estratégia fiscal plurianual bem definida para evitar deterioração adicional e preservar a confiança dos mercados.

Viés partidário

Nesse ambiente, os protestos estudantis funcionam como um catalisador político. Autoridades acusaram o partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI) e de seu popular candidato à presidência, Jean-Luc Mélenchon, de estimularem parte das mobilizações — embora o partido negue envolvimento direto.

As pesquisas mostram que Mélenchon, um político veterano de 75 anos, tem um apoio massivo – cerca de 40% – entre os jovens de 18 a 24 anos na França. Mas a extrema direita, liderada pela Reunião Nacional de Marine Le Pen, tem 32% das intenções de voto para a eleição presidencial do próximo ano, seguida por Mélenchon, com 15,7%.

O governo Macron, por sua vez, vive um esvaziamento acelerado. Sem maioria na Assembleia Nacional desde as eleições antecipadas de 2024, o Executivo enfrenta um Parlamento fragmentado e hostil. A aprovação do orçamento de 2027 — peça central do ajuste — promete ser uma batalha de alto risco.

A deterioração fiscal ocorre em um momento de crescimento econômico fraco. Projeções indicam que o PIB francês deve avançar apenas 0,6% em 2026, com leve recuperação para 1% em 2027, ritmo insuficiente para aliviar a pressão sobre as contas públicas. A economia segue afetada por preços elevados de energia, incerteza política e desaceleração do consumo privado.

O mercado de trabalho também mostra sinais de fragilidade: o desemprego deve subir para 8,3% em 2026, com impacto mais severo entre jovens — tradicionalmente o grupo mais vulnerável às oscilações econômicas e mais presente nas mobilizações estudantis.

Em outra frente, a pressão dos mercados aumenta. O governo tenta convencer investidores de que retomará o caminho da consolidação fiscal, mas a instabilidade política e a resistência social que se arrasta há anos dificultam essa narrativa.

A repetição desse ciclo alimenta a percepção de que o país está preso a uma armadilha política — incapaz de cortar gastos sem provocar convulsão social, e incapaz de manter gastos sem violar regras europeias e perder credibilidade financeira.

Assim como em 1968, os estudantes não protestam apenas por suas escolas — protestam por um país que parece à beira de uma encruzilhada. A diferença é que, agora, o epicentro da crise não está apenas nas universidades ou nas fábricas, mas nas planilhas do Ministério das Finanças e no pesadelo do endividamento público insolúvel que vem atingindo, além da França, outros países do Primeiro Mundo desde o fim da pandemia.



Fonte: NeoFeed

Administrador

About Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

    Cadastre seu e-mail e receba notícias e novidades em primeira mão!