Negócios

O estudo sobre Pix e empreendedorismo que ninguém leu


Em agosto, os portais repercutiram um estudo segundo o qual o Pix impulsiona o empreendedorismo. Ninguém pode lê-lo ainda; sai em dezembro, como capítulo de livro.

Enquanto isso, um trabalho sobre a mesma pergunta está público desde outubro do ano passado, com dados oficiais e identificação causal séria, e não teve uma linha em português.

Onde não havia banco, nasceram mais empresas

O estudo é de Rodrigo Leite, Layla Mendes e Matheus Moura, do Coppead e da FGV. Toma o número de empresas por município na RAIS entre 2017 e 2024 e cruza com os dados de Pix e de agências bancárias do Banco Central, nos 5.569 municípios do país e no Distrito Federal.

A estratégia é comparar municípios parecidos que diferiam em uma coisa: ter ou não ter banco. De um lado, os que tinham zero ou uma agência quando o Pix entrou em operação. Do outro, municípios semelhantes em renda, população e transferências governamentais, mas com rede bancária mais densa.

Nos primeiros, o número de empresas formais cresceu 2,6% acima dos segundos. O efeito aparece somente entre negócios com menos de dez empregados e desaparece entre os grandes. Chega a 4,7% onde o Pix foi mais adotado e some onde foi pouco. Os autores testaram se o auxílio emergencial explicaria o resultado. Não explica.

Há um detalhe de cronologia que vale reter: o efeito não aparece em 2020 nem em 2021, e sim em 2023 e 2024. Isso conversa com o que a série Geografia do Pix, da FGV, mostrou sobre a difusão do sistema, que chegou primeiro aos municípios de maior renda e só depois fechou a distância. O efeito sobre as empresas surge quando a adoção chega.

A explicação que acompanha o achado não descreve o Brasil

É aqui que eu divirjo. Para explicar o resultado, o estudo constrói um modelo em que aceitar cartão exigia uma relação bancária local, cara ou inviável onde não havia agência. O Pix, que independe de agência, teria sido a primeira tecnologia de aceitação eletrônica ao alcance desses comerciantes.

Isso descreve o Brasil dos anos 2000, não o de 2020. A chegada das credenciadoras independentes e das maquininhas móveis desfez esse vínculo muito antes do Pix. O terminal passou a ser contratado por CPF, entregue pelo correio e ligado a uma conta digital. Não era preciso agência, gerente nem cadastro em banco.

O aparelho no balcão não era o que faltava

O que faltava estava do outro lado dele. Ainda em 2025, ao lançar o Pix Automático, o presidente do Banco Central estimava em cerca de 60 milhões os brasileiros sem cartão de crédito. O dado é posterior ao período estudado e justamente por isso diz muito: a lacuna que o cartão deixou não havia sido fechada nem cinco anos depois. E a conta digital, que muitos já tinham, só se tornou plenamente utilizável quando ficou simples pôr e tirar dinheiro dela.

A mesma série da FGV registra que o Pix virou, na prática, sinônimo de conta bancária, e que nos municípios de menor renda ele é o meio de pagamento disponível, enquanto nos de maior renda é mais um ao lado do cartão.

Um comerciante de município sem agência podia ter a maquininha. Ela simplesmente não servia para boa parte da fila.
O QR colado no balcão não substituiu o terminal. Alcançou quem o terminal nunca alcançou.

Empresa registrada não é a mesma coisa que empreendedor novo

O que o estudo mede é o estoque de empresas registradas na RAIS, e isso não equivale a empreendedor novo. Parte do efeito pode ser formalização de negócio que já existia e passou a valer a pena registrar quando receber eletronicamente ficou barato. Os próprios autores levantam a hipótese e deixam a separação dos dois canais para trabalhos futuros.

A ressalva não desfaz o argumento. Muda o verbo. Se o Pix ajudou a criar empresas, é infraestrutura de entrada. Se ajudou a formalizar as que já existiam, é infraestrutura de entrada também, apenas por outra porta. Nas duas leituras, o trilho fez o trabalho que a rede bancária não fez.

Vale dizer o que o trabalho ainda não é: um artigo revisado por pares. É um working paper, público, conferível e em circulação acadêmica há quase um ano. Bem mais do que se pode dizer do estudo que virou manchete.

Para quem vende, a consequência é direta. O mesmo trilho que viabilizou o balcão onde não havia banco é o que vai registrando, transação a transação, a história de pagamentos de quem compra ali.

Uma última observação dos dados da FGV. Ao longo de cinco anos, a diferença de adesão ao Pix entre municípios ricos e pobres, entre populações mais velhas e mais jovens, entre grupos raciais, encolheu em quase todas as dimensões medidas. Restou uma em que a desigualdade persiste: conectividade. Onde a internet é ruim, o Pix avança mais devagar.

A infraestrutura que ainda limita o comércio brasileiro deixou de ser a bancária. Talvez a pergunta seguinte não seja quantas empresas o Pix ajudou a criar, mas quantas ainda não existem porque o sinal não chega.

*Edson Santos é fundador e sócio da Colink, conselheiro, advisor e investidor-anjo, com mais de 26 anos de experiência em meios de pagamento e serviços financeiros. É autor de Do Escambo à Inclusão Financeira e coautor de Payments 4.0 — As forças que estão transformando o mercado brasileiro. Seu novo livro, Trilhos Invisíveis – como o dinheiro se move no Brasil e o que faz esse mercado ser assim, tem lançamento marcado para 5 de outubro de 2026.



Fonte: NeoFeed

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