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O planeta muda e o vinho revê seus preconceitos contra as uvas híbridas


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Em tempos de crise climática, as uvas híbridas desafiam um dos pilares da tradição vinícola: a associação entre qualidade e pureza de origem.

Antes vistas como inferiores, as novas variedades combinam resistência no campo e qualidade na taça. Entre elas estão as PIWIs, sigla alemã para “resistentes a fungos”.

Obtidas por melhoramento genético tradicional, sem transgenia, aliam atributos sensoriais das uvas europeias à resistência de espécies mais rústicas.

O cultivo das híbridas pode reduzir de 50% a 60% as aplicações de fungicidas, segundo a Embrapa. Em degustações às cegas, seus vinhos chegam a ser indistinguíveis dos elaborados com castas tradicionais.

Até Champagne já testa uma dessas uvas.

No Brasil, pesquisas da Embrapa dão origem a variedades que encontram espaço em pequenas vinícolas.

Persistem, porém, o preconceito e as barreiras legais: por aqui, vinhos de híbridas são classificados como “de mesa”, independentemente da qualidade. Aos poucos, a experiência na taça começa a derrubar o tabu.

* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed

Você que aprecia vinho já ouviu falar na uva alemã Solaris? E na francesa Voltis? Talvez na brasileira BRS Lorena? Ainda pouco familiares, esses nomes identificam castas híbridas. Historicamente vistas com desconfiança pelos mais conservadores, elas desafiam um dos pilares da tradição vinícola: a associação entre qualidade e pureza de origem.

O caos climático, porém, impõe uma preocupação maior. Além do calor e da irregularidade das chuvas, mudanças de temperatura e umidade podem favorecer doenças como o míldio e o oídio. É nessa frente que as híbridas modernas ganham importância.

No passado, as uvas resultantes de cruzamentos interespécies eram associadas a vinhos inferiores — alguns possuíam aromas e sabores desagradáveis, semelhantes a suco artificial, chiclete e até pele de animal. Hoje, as novas variedades combinam a resiliência no campo e a qualidade na taça.

Entre elas, destacam-se as PIWIs — abreviação do alemão Pilzwiderstandsfähige, “resistentes a fungos”. Resultado do melhoramento genético tradicional, sem transgenia, essas uvas aliam os atributos sensoriais da Vitis vinifera, base dos grandes vinhos europeus, à robustez herdada de espécies mais rústicas, sobretudo americanas e asiáticas.

O cruzamento entre variedades não é novidade. Ganhou impulso na França durante a crise da filoxera, praga que devastou os vinhedos europeus entre as décadas de 1860 e 1890. Na Alemanha, os anos 1960 e 1970 deram origem a algumas das PIWIs hoje mais conhecidas.

A polinização continua manual, mas a análise do DNA permite identificar marcadores de resistência e antecipar a seleção das mudas.

Mesmo assim, o processo exige décadas de pesquisa, sucessivas gerações de cruzamentos e testes de adaptação ao solo e ao clima.

Considerada uma das uvas PIWIs brancas mais bem-sucedidas, a alemã Solaris, por exemplo, nasceu no Instituto de Freiburg, em 1975, mas só foi lançada comercialmente em 2001. Seu perfil genético é predominantemente europeu, com a herança de Riesling, Pinot Gris e Muscat Ottonel.

Essa é, aliás, uma das características das PIWIs contemporâneas: algumas linhagens chegam a ter 95% de ascendência de Vitis vinifera.

Em degustações às cegas, os participantes frequentemente não conseguem distinguir os vinhos de uvas híbridas daqueles produzidos apenas com variedades europeias, conta ao NeoFeed Steffen Schindler, diretor de marketing do Deutsches Weininstitut, órgão oficial de promoção dos vinhos alemães.

“Os consumidores já entenderam que, além de fazer bons vinhos, esse tipo de uva representa uma economia enorme em tratamentos químicos, redução nas emissões de carbono e menos horas de trabalho, o que se traduz em economia de dinheiro”, diz ele.

Mauro Zanus, pesquisador de Enologia e Análise Sensorial da Embrapa Uva e Vinho, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, dimensiona esse ganho: “O cultivo das uvas híbridas reduz de 50% a 60% o número de aplicações de fungicidas”, diz ao NeoFeed.

A menor necessidade de tratamentos no campo aproxima-as de uma tendência cada vez mais forte na enologia: a dos vinhos de baixa intervenção.

Até tu, Champagne?

O avanço das PIWIs é tão expressivo que elas já têm até competições próprias, como o PIWI International Wine Challenge, realizado desde 2021. Neste ano, o alemão Souvignier Gris 2025, produzido por Michael Winkler, conquistou o Top Gold da premiação.

E, assim, o que seria inimaginável poucos anos atrás começa a se concretizar. Algumas das regiões vinícolas mais prestigiadas e rigorosas do mundo passam a admitir uvas híbridas em seus regulamentos.

O Instituto Nacional de Origem e Qualidade da França, por exemplo, criou, em 2018, um programa para testar novas castas nas denominações de origem protegida. Cerca de 20 delas, como Bordeaux e Côte du Rhône, aderiram à iniciativa — que também envolve exemplares tradicionais de outros países e variedades francesas esquecidas.

Desde fevereiro de 2022, a região de Champagne cultiva em caráter experimental a Voltis. Criada em 2002, com registro oficial em 2018, a PIWI nasceu do cruzamento de duas híbridas — uma alemã e outra francesa, ambas com genética majoritariamente de Vitis vinifera.

A polinização manual é uma das etapas do desenvolvimento de novas uvas híbridas, um trabalho que costuma exigir décadas de cruzamentos até reunir a resistência de outras espécies e o predomínio genético das uvas europeias (Foto: lacolombette.fr)

No sul da França, a família Pugibet já dedica 60% dos vinhedos do Domaine La Colombette às PIWIs (Foto: lacolombette.fr)

Produzido no sul da França, o Colombette Souvignier-Muscaris reúne duas castas PIWI em um branco premiado no Concours des Vins de France e no Challenge Millésime Bio, dedicado aos orgânicos (Foto: lacolombette.fr)

O produtor alemão Michael Winkler assina o Souvignier Gris 2025, que conquistou o Top Gold no PIWI International Wine Challenge (Foto: Reprodução Instagram)

Desenvolvida pela Embrapa Uva e Vinho, a BRS Lorena permite reduzir em cerca de 35% as aplicações de fungicidas (Foto: embrapa.br)

A Souvignier Gris nasceu do cruzamento entre Seyval Blanc e Zähringer, reunindo em sua genética a herança de uvas europeias e de espécies americanas (Foto: wib.wine)

Vem do sul do país uma das apostas mais ambiciosas nas PIWIs. De propriedade da família Pugibet e referência em inovação vitivinícola, o Domaine La Colombette destina 60% de sua propriedade no Languedoc, no sul da França, às castas híbridas.

Seu rótulo mais famoso é o Colombette Souvignier-Muscaris, que combina as duas castas criadas na Alemanha e acumula medalhas de ouro no Concours des Vins de France e no Challenge Millésime Bio, concurso internacional dedicado aos orgânicos.

Na Itália, pressionados por quebras de safra consecutivas provocadas pelo clima, os comitês do Prosecco DOC e do Pinot Grigio abriram estudos oficiais para incluir as uvas híbridas em suas receitas.

Por outro lado, denominações como Barolo, vetaram os cruzamentos.

Entre avanços na taça e barreiras no mercado

No Brasil, a Embrapa Uva e Vinho desenvolve programas de melhoramento genético desde os anos 1980. Os resultados já encontram espaço entre produtores artesanais e vinícolas de pequena escala.

E, o mercado de vinhos de mínima intervenção, naturais e as vinícolas boutique já perceberam esse potencial.

Produtores artesanais como a vinícola gaúcha Zilio Vinhos Únicos elabora o Zilio Lorena Vinho de Mesa Branco Seco, focado no frescor e nos aromas tropicais da casta BRS Lorena.

O próprio nome do rótulo revela um obstáculo.  Por lei, a classificação “vinho fino” é exclusividade da bebida feita apenas com Vitis vinifera.

O título “vinho de mesa” evoca em muitos consumidores a ideia de um vinho de garrafão comum, independentemente do que encontram na taça.

A desconfiança de sommeliers mais tradicionais e compradores premium é uma resistência a ser vencida, sobretudo nos mercados  de forte tradição vinícola.

Os avanços genéticos eliminaram os defeitos sensoriais do passado e as pesquisas indicam que variedades híbridas modernas possuem acidez, taninos macios e estrutura fenólica aptos para o envelhecimento saudável em garrafa.

Mesmo assim, o mercado de luxo ainda hesita em investir em castas sem o peso histórico das variedades europeias puras.

“Nos últimos 50 anos, infelizmente, houve muito conservadorismo sobre as uvas destinadas para a produção de vinho. Mas estas variedades estão adicionando aroma, cor e paladar, proporcionando novas experiências para o consumidor”, diz Zanus.

“Ainda bem que o mercado está se modernizando e já aceita as novidades; e as híbridas, aos poucos, estão deixando de ser tabu”, complementa.



Fonte: NeoFeed

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