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“Eu guardei tão bem que esqueci onde guardei”, conta Silviano Santiago. Por décadas, o escritor procurou os originais de XXXV, livro de poesia com projeto gráfico de Hélio Oiticica.
Acreditava tê-los jogado fora, até que o jornalista João Pombo Barile encontrou o material numa caixa de papelão enquanto pesquisava sua biografia.
Mais de 50 anos depois, a obra chega ao público pela editora da galeria Pinakotheke. Concebido em 1971, quando Santiago completou 35 anos, o livro reúne versos em português, francês e inglês.
Oiticica recortou fotografias do escritor e compôs fragmentos de seu rosto com os vazios das páginas, unindo experimentação visual e literária.
O projeto não saiu antes porque as editoras consideravam sua produção cara. A edição agora reúne também cartas, anotações e outros trabalhos do artista ligados ao escritor.
Aos 90 anos, Santiago diz ter tirado uma pedra das costas. O público finalmente conhece, com o projeto de Oiticica, o que ele considera sua melhor produção em poesia.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
“Eu encontrei uma pasta bem esquisita e, meio antiga, eu acho que é o livro diagramado pelo Hélio. Posso abrir?”, perguntou o jornalista João Pombo Barile ao escritor e ensaísta Silviano Santiago, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea.
Fazia décadas que Santiago procurava esse material: os originais do livro XXXV, com projeto gráfico de Hélio Oiticica. “Eu guardei tão bem que esqueci onde guardei”, conta ao NeoFeed.
Ele acreditava que, por algum lapso de atenção, teria jogado fora e perdido o material de vez. A descoberta aconteceu na área de serviço do apartamento onde Santiago guarda seu arquivo e sua biblioteca.
Barile passava muitas horas ali, pesquisando a vida do escritor para escrever sua biografia, Presente do Acaso (Autêntica, 2025). Em um desses dias, encontrou uma caixa de papelão. Dentro dela havia formulários, comprovantes bancários, contas e muitos folders. No meio de tudo, estava uma pasta maior, cuidadosamente organizada.
Ao abrir a pasta, Barile encontrou o protótipo de XXXV. Também estavam ali as instruções sobre o projeto que o artista escreveu para Lygia Pape, que executaria a parte gráfica, um ensaio fotográfico em preto e branco de Santiago quando jovem e, preso a uma das fotografias por um clipe já corroído, um pequeno cartão assinado por Oiticica.
Com meio século de atraso, XXXV chega ao público pela editora da galeria Pinakotheke. A publicação traz, na primeira parte, o livro integral. Em seguida, vem um anexo organizado pela editora Camila Perlingeiro, que conta a história do encontro do material e reúne cartas e anotações de Oiticica sobre a publicação.
Há ainda um manuscrito de Oiticica com o poema Über Coca e as instruções para a obra CC8 (Cosmococa 8), dedicada a Santiago.
O escritor havia presenteado Oiticica com o livro Über Coca (Sobre a Coca), de Freud, que narra e comenta os anos iniciais da pesquisa do médico e sua curiosa relação com a cocaína.
“Essa edição, no fundo, é três livros. O livro propriamente dito; depois, divagações do Hélio sobre a invenção do livro; e, terceiro, Über Coca”, explica o escritor. “O fato de eu ter toda essa documentação guardada, então, foi uma maravilha.”
A arte do encontro
Era inverno, mas não se sabe ao certo se o ano era 1969 ou 1970. Santiago estava na casa dos artistas Anna Maria Maiolino e Rubens Gerchman, em Nova York, quando Oiticica entrou vestido com “a capa preta do conde da boa morte”, diz o escritor. Pouco depois, saíram todos para ver uma exposição de videoarte.
Santiago dava aulas de literatura francesa na Universidade do Estado de Nova York (SUNY), em Buffalo, nos Estados Unidos. Oiticica, que tinha grande interesse por filosofia, gostava de conversar com Santiago sobre o assunto, sobretudo sobre Nietzsche.
“Era uma amizade muito bonita. O Hélio escutava bem e falava muito bem também. Eram verdadeiros diálogos socráticos”, lembra o escritor.
Em 1971, ao completar 35 anos, Santiago resolveu escrever um livro sobre as experiências daquela idade, — em português, francês e inglês, em referência aos idiomas que domina e aos lugares onde viveu. Em uma das estrofes, a começar por sua cidade natal Formiga, no interior de Minas Gerais, enumera:
“Formiga: os tropeiros / Belo Horizonte: o curral / Guanabara: a(r)ma(d)ilha / Paris: cidade iluminada / Albuquerque: carvalhos brancos / New Brunswick: New York / Canadá: acá nada / Buffalo: beau fleuve (?).”
Admirador das ideias do filósofo francês Jacques Derrida, Santiago deu ao livro o nome de sua idade em algarismos romanos: XXXV. Ao explorar a repetição e o deslocamento de elementos, o título dialoga com a teoria da desconstrução, formulada pelo pensador na década de 1960.
Embora o poema tenha ecos da poesia concreta brasileira e de Um lance de dados, de Stéphane Mallarmé, uma das referências centrais dos concretistas brasileiros, Santiago acrescenta também Robert Desnos entre suas influências. Quando terminou o texto, mostrou-o a Oiticica.
Em silêncio, o artista projetou como seria a publicação. Em uma solução que remete aos Metaesquemas, série produzida por Oiticica entre 1956 e 1958 com guache sobre cartão, o artista recortou fotografias de Santiago e compôs partes de seu rosto com o vazio da página.
“In Brasil”
Em 1973, Santiago se preparava para voltar ao Brasil e Oiticica lhe presenteou com o projeto gráfico do livro. Em cartas aos artistas Carlos Vergara e Lygia Pape, Oiticica afirma que “o livro vai ser importante para ele [Santiago]: é mais inventivo e solto e vai servir para dar uma posição definitiva a ele como poeta importante in BRASIL de hoje”.
Este seria o último livro de poesia do escritor. Santiago, no entanto, consolidou seu nome na literatura brasileira por sua produção em prosa. Autor de Em Liberdade e Machado, foi seis vezes vencedor do Prêmio Jabuti.
Pelo conjunto de sua produção literária, recebeu ainda o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio José Donoso, do Chile.
Oiticica designou a Pape a tarefa de cuidar da impressão: “quero que você tome isso não como um abacaxi que lhe jogo para resolver mas com alegria e interesse: é que quando decidimos que seria por mil razões mais prático e lógico imprimir isso aí tive de bolar a quem delegar essa etapa de impressão: não consigo ver quem mais senão você possa ser.”
No Brasil, Santiago tentou publicar o livro com várias editoras, mas todas eram categóricas ao dizer que o projeto era caro. “Foi uma experiência extraordinária para mim, depois um pesadelo porque eu não conseguia fazer alguma coisa desse material”, conta.
Mais de 50 anos depois, com a publicação, Santiago diz ter retirado uma pedra das costas. “Porque eu me sentia muito mal por não ter publicado. Eu já tô com 90. Eventualmente o material seria encontrado, mas não seria publicado”, ressalta.
O público agora pode ter acesso, com o projeto de Oiticica, ao que Santiago acredita ser o melhor que produziu em poesia.
Como crítico literário, função que também exerce, ele enxerga em XXXV um caminho para o que vai acontecer, entre as décadas de 1970 e 1980, com a poesia.
“As novas gerações sentiram que era preciso fazer uma coisa mais acessível ao grande público. Poemas curtos, meio piada, meio irônicos”, diz. “Então já no próprio livro ensaio esse caminho, o caminho para uma poesia mais despojada.”












