O diagnóstico de câncer de mama costuma levar a uma pergunta inevitável: foi a genética? Embora alterações hereditárias e histórico familiar tenham papel importante, eles estão longe de explicar sozinhos o risco de desenvolver a doença. Idade, características hormonais, histórico reprodutivo, densidade mamária e alguns fatores relacionados ao estilo de vida também entram nessa equação. Entre os fatores potencialmente modificáveis, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) destaca consumo de álcool, excesso de peso e baixa atividade física.
“Quando falamos em câncer de mama, é importante evitar a ideia de que existe uma única causa. A genética pode aumentar a predisposição, mas o risco é resultado da combinação de diferentes características individuais ao longo da vida. Algumas não podem ser modificadas, enquanto outras fazem parte do nosso comportamento ou podem ser acompanhadas e discutidas com o médico”, explica Dra. Daniella Campos Oliveira, ginecologista e diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho, em São Paulo.
1. Álcool: quanto maior o consumo, maior o risco
Entre os fatores comportamentais, o consumo de álcool apresenta uma relação consistente com o câncer de mama. Segundo o National Cancer Institute (NCI), mesmo níveis relativamente baixos de ingestão estão associados a maior probabilidade de desenvolvimento da doença, sendo esse efeito intensificado conforme a quantidade consumida se eleva.
Isso não significa que toda mulher que consome bebida alcoólica desenvolverá câncer, mas que a exposição é um dos fatores que podem ser reduzidos. O INCA destaca que o consumo de bebidas alcoólicas está relacionado ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo o câncer de mama.
“Do ponto de vista da prevenção, o álcool é particularmente relevante porque é um fator sobre o qual existe possibilidade de intervenção. A recomendação não deve ser interpretada como uma relação de causa e efeito para cada indivíduo, mas como uma associação epidemiológica consistente que merece ser considerada”, afirma a ginecologista.
2. Atividade física: movimento como aliado da prevenção
A prática regular de atividade física aparece entre os fatores associados à redução do risco de câncer de mama. O INCA considera a atividade física uma estratégia importante de prevenção do câncer, enquanto a inatividade física está associada a maior risco de diversas doenças, incluindo alguns tipos de câncer.
Uma revisão de escopo publicada em 2026, que incluiu 169 artigos sobre fatores modificáveis e não modificáveis relacionados ao câncer de mama, também identificou maior nível de atividade física entre os fatores associados a menor risco da doença.
“Não é necessário pensar apenas em exercícios de alta intensidade. A mensagem de saúde pública é incorporar movimento à rotina de maneira sustentável, respeitando idade, condições clínicas e condicionamento de cada pessoa. A atividade física é uma das estratégias que podem contribuir para a saúde global e também para a redução de determinados riscos associados ao câncer de mama”, explica Daniella.
3. Excesso de peso depois da menopausa merece atenção
O excesso de peso ganha importância particularmente após a menopausa. De acordo com o INCA, sobrepeso e obesidade, especialmente após a menopausa, estão associados a maior risco de câncer de mama.
A relação está ligada, entre outros mecanismos, à produção periférica de estrogênio pelo tecido adiposo após a redução da produção ovariana característica da menopausa.
A revisão publicada em 2026 também inclui obesidade e excesso de peso entre os fatores modificáveis associados ao risco de câncer.
“Após a menopausa, o tecido adiposo torna-se uma fonte importante de produção periférica de estrogênios. Por isso, o cuidado com peso, alimentação e atividade física faz parte de uma abordagem que vai muito além da estética: estamos falando também de saúde metabólica, cardiovascular e hormonal”, explica a médica.
4. Exposição hormonal: contexto e indicação fazem diferença
Os hormônios também entram na avaliação de risco. O INCA aponta que determinados fatores relacionados à exposição hormonal ao longo da vida estão associados ao câncer de mama, entre eles menarca precoce e menopausa tardia.
O histórico reprodutivo também pode influenciar esse tempo de exposição hormonal. Menor número ou ausência de gestações e primeira gestação em idade mais avançada aparecem entre os fatores associados ao risco.
“A terapia hormonal da menopausa também deve ser analisada de forma individualizada. O risco mamário não é igual para todos os esquemas e depende, entre outros fatores, do tipo de terapia e da duração do tratamento. A associação mais consistente com aumento do risco de câncer de mama é observada com terapia sistêmica combinando estrogênio e progestagênio, especialmente com maior tempo de uso.”
Isso não significa que a terapia hormonal deva ser evitada de forma indiscriminada. A decisão precisa considerar indicação, sintomas, idade, tempo desde a menopausa, presença ou não de útero, histórico pessoal e familiar e o balanço individual entre benefícios e riscos”, ressalta Daniella.
5. Histórico reprodutivo: uma marca da exposição hormonal ao longo da vida
Idade da primeira menstruação, idade da menopausa, idade da primeira gestação e histórico de gravidez e amamentação também fazem parte da avaliação de risco. O INCA reconhece diferentes características reprodutivas e hormonais como fatores associados ao câncer de mama.
São, em grande parte, características que não podem ser alteradas posteriormente, e justamente por isso não devem ser encaradas como responsabilidade individual.
“Quando avaliamos o histórico reprodutivo, não estamos dizendo que uma mulher ‘fez escolhas erradas’. São informações clínicas que ajudam o ginecologista a compreender o perfil de risco daquela paciente e, a partir daí, definir quais cuidados preventivos e estratégias de rastreamento fazem sentido”, destaca a especialista.
Mama densa: um fator que também pode interferir na detecção
Além dos fatores associados ao desenvolvimento do câncer, existe uma característica importante para a detecção da doença: a densidade mamária. Mamas densas estão associadas a maior risco de câncer e podem dificultar a visualização de tumores na mamografia.
Um estudo publicado em 2026 no JAMA Network Open, com 123.091 mamografias de 67.019 mulheres, encontrou mamas classificadas como densas em 41,4% dos exames. A taxa de exames falso-negativos foi de 1,7 por mil mamografias entre mulheres com mamas densas, contra 0,6 por mil entre aquelas com mamas não densas.
O trabalho avaliou ainda um modelo de inteligência artificial capaz de estimar risco futuro de câncer a partir das imagens. Os autores observaram que esse modelo apresentou maior capacidade de discriminar o risco de câncer futuro do que a classificação convencional de densidade isoladamente.
O resultado, porém, não significa que a mamografia deixe de ser importante nem estabelece que toda mulher com mama densa precise automaticamente de outro exame. A decisão sobre exames complementares deve considerar o conjunto de fatores de risco e ser individualizada.
“Densidade mamária é uma informação que merece ser incorporada à conversa entre paciente e médico. Ela não é sinônimo de câncer, mas pode aumentar o risco e dificultar a interpretação da mamografia. Por isso, o resultado do exame deve ser analisado em conjunto com idade, histórico familiar e pessoal, fatores reprodutivos e outros elementos do perfil de risco”, afirma a ginecologista.
Prevenção não significa eliminar o risco
As evidências mais recentes reforçam uma mensagem importante: não existe uma única estratégia capaz de prevenir todos os casos de câncer de mama. Uma revisão de escopo publicada em 2026, que incluiu 169 artigos, identificou álcool, baixa atividade física, obesidade e terapia hormonal entre os fatores modificáveis associados ao risco, enquanto genética, idade, histórico familiar e densidade mamária aparecem entre os aspectos que não podem ser modificados.
O INCA também destaca a importância de diferenciar fatores modificáveis daqueles que não podem ser alterados, ressaltando que medidas como manter o peso corporal adequado, praticar atividade física e evitar o consumo de bebidas alcoólicas podem contribuir para a prevenção.
“Mesmo quando uma mulher adota hábitos saudáveis, não existe garantia de que ela não terá câncer de mama. A prevenção deve ser entendida como redução de risco, e não como promessa de proteção absoluta. Por isso, hábitos saudáveis precisam caminhar junto com acompanhamento médico e rastreamento adequado ao perfil de cada paciente”, conclui Dra. Daniella Campos Oliveira.
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