Negócios

Economia e abstenção, a fórmula que pode decidir o próximo presidente, segundo Antonio Lavareda


O eleitor brasileiro chegará às urnas, no domingo, 4 de outubro, mais preocupado com a economia do país do que com segurança pública. O tema dominou a campanha presidencial, embora as soluções tenham ficado de lado. A avaliação é do cientista político Antonio Lavareda, presidente de honra da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (Abrapel).

Em entrevista exclusiva ao NeoFeed, o sociólogo afirma que, ainda que dados econômicos apontem queda no desemprego e a inflação relativamente controlada, a percepção de que a situação financeira das famílias está pior prejudica o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa a reeleição.

“A principal dificuldade é o sentimento largamente predominante de insatisfação das pessoas com sua experiência econômica e com a condução da economia do país. Mais de 55% dos brasileiros acham que a economia do país vai mal”, diz Lavareda.

Para ele, outro ponto que pode afetar diretamente o desempenho do petista é o possível aumento da abstenção, que afeta diretamente a população de baixa renda, perfil de eleitor mais ligado a Lula.

O volume de quem não irá votar no domingo pode ser fundamental para decidir a eleição, segundo Lavareda. A avaliação do cientista político é que a abstenção cresça em relação à eleição presidencial de 2022, o que deve beneficiar Flávio Bolsonaro (PL).

“O que fará os números das urnas serem diferentes dos números das pesquisas de hoje é a abstenção. É o único fator. O comparecimento é diferenciado e prejudica muito mais Lula do que Flávio Bolsonaro. É isso que vai aparecer no domingo à noite”, diz.

Ele completa o raciocínio: “Embora [Lula] esteja liderando as pesquisas por três ou quatro pontos, ele pode encerrar o primeiro turno ultrapassado por Flávio Bolsonaro. Não seria uma grande surpresa para mim se isso ocorresse, por conta da abstenção.”

De qualquer forma, o cientista político, também presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), afirma que nem Lula nem Flávio trataram de apresentar alternativas para as mudanças no cenário econômico a partir do ano que vem.

“O que faltou foi discutir como combinar equilíbrio fiscal, reforma do Estado, produtividade e crescimento sustentável. As campanhas abordam os problemas e os benefícios imediatos, mas explicaram muito pouco como financiar e melhorar estruturalmente a qualidade do gasto e dos serviços públicos.”

Ainda segundo Lavareda, a crise sem precedentes envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) afeta mais Lula do que Flávio, principalmente pelo entendimento de Alexandre de Moraes hoje ser visto pela sociedade como um algoz de Jair Bolsonaro.

O chamado “pacote de bondades”, lançado por Lula às vésperas da eleição, como o fim da taxa das blusinhas, o novo Desenrola e a proibição das bets, visto pela oposição como eleitoreiro, tem “jurisprudência”, já que Bolsonaro, na visão dele, fez algo semelhante em 2022.

E, mais do que ganhar votos, segundo Lavareda, o que Lula tenta também com essas medidas é recuperar o eleitor que possa ter mudado de posição. “Esses pacotes têm mais o objetivo de resgatar eleitores do que de gerar novos eleitores. O que derrota o incumbente é a defecção, a perda de eleitores do pleito passado.”

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O que pesa mais na decisão do eleitor: a corrupção ou a economia?
A economia pesa mais. Isso não é só nesta eleição ou no Brasil, ocorre no mundo todo. A economia pesou mais na última eleição norte-americana, quando [Donald] Trump ganhou, e está pesando agora nas eleições de meio de mandato. As pesquisas mostram que ele vai perder a maioria, pelo menos na Câmara dos Representantes. As eleições quase sempre giram em torno da economia, salvo situações excepcionais, nas quais ela divide a importância com outros temas, como em 2018. Agora também há outros fatores, mas a economia está em primeiro lugar. Uma das pesquisas recentes, a Nexus/BTG, investiga isso com mais propriedade.

De que maneira?
Ela traz duas questões. Na primeira, sobre os principais problemas do Brasil, a segurança pública, violência e criminalidade aparecem no topo do ranking. É uma pergunta espontânea. Quando olhamos o conjunto das respostas, vemos que agregaram criminalidade, violência e segurança pública. Como são respostas espontâneas, devem estar aí violência contra a mulher, estupros, roubos de celulares, quadrilhas e narcotráfico. Agregaram tudo isso nos 34%.

As respostas que têm dimensão econômica não estão agregadas?
Sim, inflação, custo de vida, desemprego, falta de trabalho, baixo crescimento, gastos públicos, juros, dívida e contas públicas no vermelho. Se tivessem feito isso, a economia apareceria em primeiro lugar como principal problema, com 41%. Isso seria coerente com a resposta a outra questão: quais são as principais motivações que influenciam a decisão do voto presidencial? A economia do Brasil aparece em primeiro lugar, com 33%. Depois vêm acusações de corrupção, com 29%; rejeição a outro candidato, com 27%; saúde pública, com 24%; educação pública, com 21%; segurança pública, em sexto; e a própria situação financeira, com 11%.

Ou seja, a economia pesa mais.
Se juntarmos a economia do Brasil com a situação financeira pessoal, chegamos a 44%. Isso confirma a suposição teórica de que as eleições quase sempre giram em torno da economia.

Por que a segurança pública não tem o mesmo peso no voto presidencial?
Diferentemente da maioria das nações latino-americanas nas quais a violência foi central nas últimas eleições presidenciais, o Brasil tem uma arquitetura federativa que distribui responsabilidades entre governos estaduais e prefeituras. As prefeituras têm cerca de 100 mil guardas municipais no país. Os governos estaduais, com as polícias militares e civis, têm cerca de 500 mil policiais. A Polícia Federal tem apenas 13 mil agentes. O cidadão distribui entre as três esferas institucionais a responsabilidade pelo combate à violência.

Isso significa que o eleitor considera mais a sua situação financeira e a do País na frente da segurança pública ao escolher o presidente?
É o que a pesquisa Nexus está dizendo. Entre as motivações que influenciam o voto presidencial, a economia do Brasil aparece em primeiro lugar, com 33%. Se acrescentarmos a situação financeira pessoal, com 11%, chegamos a 44%. As acusações de corrupção vêm depois, com 29%, e a rejeição ao outro candidato, com 27%.

O assunto economia foi suficientemente abordado durante a campanha?
Em boa medida, foi. Quando você olha a propaganda na televisão e nas redes sociais, vê os candidatos de oposição explorando inflação, custo de vida, impostos e endividamento. Na propaganda do governo, Lula também fala de imposto zero sobre gêneros alimentícios, isenção de Imposto de Renda até R$ 5 mil e garantia de aumento real para o salário-mínimo e os benefícios da Previdência. A economia está o tempo todo presente na campanha.

“O que faltou foi discutir como combinar equilíbrio fiscal, reforma do Estado, produtividade e crescimento sustentável”

Então, o que faltou?
O que faltou foi discutir como combinar equilíbrio fiscal, reforma do Estado, produtividade e crescimento sustentável. As campanhas abordam os problemas e os benefícios imediatos, mas explicaram muito pouco como financiar e melhorar estruturalmente a qualidade do gasto e dos serviços públicos. Mostraram os problemas ou os benefícios. Mas a fórmula, o modo de enfrentar os problemas, não foi efetivamente tratado.

Foi uma escolha deliberada das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro não aprofundar essa discussão?
Isso tem a ver com a natureza das eleições hoje. A campanha brasileira é bastante curta. A campanha de televisão e rádio tem apenas 35 dias. Uma campanha norte-americana dura cerca de 12 meses. Mesmo nas campanhas norte-americanas não se discute como fazer, efetivamente, as políticas públicas necessárias para enfrentar questões complexas. Se isso não é feito lá, com tanto tempo, imagine aqui. É da lógica da eleição presidencialista. Há uma grande dose de superficialidade na abordagem dos problemas.

Quem fica mais prejudicado pela falta de soluções claras?
Quem fica mais prejudicado é o próprio eleitor. Ao fim e ao cabo, ele não faz uma escolha clara, nítida, entre alternativas de programas concretos. Falta mais clareza e mais discussão. Deveria haver mais debates entre os formuladores, os responsáveis pelas políticas econômicas dos candidatos.

De um lado, há o discurso de que o fiscal é tão importante quanto o social. De outro, a crítica de que o governo gasta muito. Quem vence esse cabo de guerra?
Se tiver uma opção clara, a maioria dos eleitores vai preferir a compatibilização do fiscal com o social. Somos um país ainda muito pobre, com um nível de desigualdade extremamente elevado. É uma população muito carente, que demanda uma forte presença do Estado em diversas áreas, inclusive como promotor de bem-estar social: benefícios, apoios como o BPC e revisão periódica do valor das aposentadorias. Para a maioria da população, é difícil enfrentar a questão do corte de gastos. Essa expressão desperta preocupação na base da sociedade, que representa uma parcela muito grande do eleitorado.

Esse posicionamento favorece algum dos candidatos?
É um posicionamento típico de Lula. Tanto que os candidatos de oposição contornam essa questão. A propaganda deles não fala em corte de gastos, mas em corte de desperdícios, redução de privilégios e de gastos suntuosos da máquina pública. O corte de benefícios é uma seara que os oposicionistas evitam. E estão certos em evitar.

Por que a desaprovação do governo continua perto de 50%, mesmo com o desemprego em queda e a inflação relativamente controlada?
Uma coisa é a economia do ponto de vista estatístico; outra é o sentimento das pessoas em relação à economia. Mesmo com o desemprego em queda e a inflação relativamente controlada, o eleitor julga a economia pela experiência cotidiana, não pelos indicadores. Ele considera o nível acumulado dos preços, que subiram muito depois da pandemia.

Estabilizar não melhora a sensação?
O fato de os preços terem parado de subir não significa que tenham caído ou que tenha havido uma deflação acentuada. A estatística mostra os preços estabilizados, mas o sentimento das pessoas mostra os preços ainda elevados. A isso se somam juros muito elevados, um dos maiores juros reais do mundo, o endividamento das famílias e a insegurança financeira. Tudo isso impede que a boa estatística, de modo geral, seja percebida e valorizada pelos indivíduos e pelas famílias.

Isso explica a dificuldade de Lula para abrir vantagem sobre Flávio?
Essa é a principal dificuldade de Lula. Por incrível que pareça, não é a questão da corrupção, que é muito grave, nem saúde pública, segurança ou violência. A principal dificuldade é o sentimento largamente predominante de insatisfação das pessoas com sua experiência econômica e com a condução da economia do país. Mais de 55% dos brasileiros acham que a economia do país vai mal. Mesmo pessoas que consideram que sua situação econômica melhorou acham que a situação do país piorou.

Nesse cenário equilibrado, o que pode alterar os números até o primeiro turno?
O debate de quinta-feira, 1º de outubro, um componente importante, não dará uma mexida vigorosa nos números. O que fará os números das urnas serem diferentes dos números das pesquisas de hoje é a abstenção. É o único fator. O comparecimento é diferenciado e prejudica muito mais Lula do que Flávio Bolsonaro. É isso que vai aparecer no domingo à noite. Alguns analistas vão atribuir um eventual declínio de Lula nas urnas à ausência dele no debate ou a algo assim. Não tem nada a ver com isso.

“Embora [Lula] esteja liderando as pesquisas por três ou quatro pontos, ele pode encerrar o primeiro turno ultrapassado por Flávio Bolsonaro”

Qual é o motivo?
Lula perde milhões de eleitores que estão representados nas pesquisas de opinião, mas não se transformam em votantes no domingo. Embora esteja liderando as pesquisas por três ou quatro pontos, ele pode encerrar o primeiro turno ultrapassado por Flávio Bolsonaro. Não seria uma grande surpresa para mim se isso ocorresse, por conta da abstenção.

Por que a abstenção prejudicaria mais Lula?
As pesquisas mostram uma concentração muito grande de eleitores de Lula nas faixas de baixa renda e escolaridade, assim como no Nordeste. Ele se concentra na faixa de zero a dois salários mínimos, que foi a única categoria econômica em que ganhou a eleição de 2022, e no nível de escolaridade até o ensino fundamental. Quando se calcula a correlação de Spearman entre a taxa de abstenção e os patamares de escolaridade — analfabetos, pessoas que leem e escrevem, ensino fundamental incompleto e completo, ensino médio incompleto e completo, superior incompleto e completo —, a correlação é negativa: menos 0,97, quase absoluta. A escolaridade também é um indicador de renda. São sobretudo os pobres que se abstêm muito mais.

Qual é sua projeção para a abstenção nesta eleição?
Na última eleição, foi de 20,9%. Neste ano, não me surpreenderia uma abstenção de 34 milhões de eleitores. Minha projeção é de 21,7%.

O que explica o eleitor deixar de comparecer às urnas?
No mundo todo, a abstenção se concentra nas camadas de menor renda e escolaridade. É onde os custos de votar são maiores e o deslocamento é mais difícil. Pense em mulheres que são chefes de família, mães solo com dois ou três filhos. As creches não abrem no domingo da eleição. As pessoas têm mais dificuldade para sair com a família. Se o marido vota em uma seção e a mulher em outra, isso também é uma complicação. Tudo aparece como custo de votar. A multa é muito baixa. Até a chuva pode mudar um pouco o comparecimento, porque também representa um custo.

O custo de votar pesa mais do que uma possível desilusão com a disputa política?
Atribuo sobretudo ao custo de votar, em sentido genérico. Isso envolve desde o deslocamento físico e as circunstâncias familiares, com crianças e creches fechadas, até um nível menor de consciência da importância do voto entre as camadas de menor renda e escolaridade. Entre quem apenas lê e escreve e quem é analfabeto, a abstenção chega a 50%. É a abstenção que vai decidir a eleição.

Não é o antipetismo?
Alguns analistas falam em “antipetismo de chegada”. Eles olham as pesquisas e depois os votos válidos nas urnas e não conseguem compreender o fenômeno da abstenção. Veja Jair Bolsonaro em 2022: tinha 33% nas pesquisas e chegou a 43% dos votos válidos. Parece um grande salto, mas não foi. Sobre o voto total, ele teve 32,64%, praticamente os mesmos 33% das pesquisas. É o que chamo de “miragem dos votos válidos”.

Portanto, é uma possibilidade real Flávio terminar o primeiro turno à frente?
Sim, levemente à frente de Lula ou empatado. Acredito que a distância de quatro pontos que existe hoje, na média das pesquisas, vai ser engolida pela abstenção. Boa parte dos analistas vai dizer que houve um crescimento extraordinário de Flávio na reta final e talvez até atribua isso ao debate.

Ainda existe espaço para voto útil entre os eleitores de Renan Santos, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema?
O voto útil já ocorreu, em alguma medida, ao longo da campanha. Ainda há espaço, mas não acredito que ele resolva a eleição no primeiro turno. Minha avaliação é que a chance de a eleição ser resolvida no primeiro turno é de apenas 5%.

Em favor de Flávio ou de Lula?
Para qualquer um dos lados. A chance de qualquer candidato ganhar no primeiro turno é de 5%.

Por que os candidatos da terceira via não conseguiram ocupar esse espaço?
As pesquisas mostraram uma demanda por uma candidatura de terceira via. Os eleitores classificados pelos institutos como independentes ultrapassavam um terço. Quando se perguntava explicitamente se gostariam de votar em um candidato que não fosse ligado ao PT nem a Bolsonaro, mais de um terço dizia que sim. Esses candidatos não decolaram por dois motivos. Primeiro, porque a oferta da terceira via veio superfragmentada: quatro candidatos disputando o mesmo espaço.

O fato de serem todos de direita?
Como todos são de oposição, isso passa ao eleitor anti-Lula a percepção de que nenhum deles tem força suficiente para enfrentar Lula com chance de vitória. Esse eleitor continua com o candidato de melhor desempenho, que também tem a marca Bolsonaro, que já venceu o PT em 2018.

Qual é o segundo motivo?
O segundo motivo, mais importante, é que no Brasil não temos partidos enraizados na sociedade. Eu os chamo de “hidropônicos”, como aqueles pés de alface com as raízes no líquido nutriente. Nosso líquido nutriente é o fundo partidário, o fundo eleitoral e essas benesses. O PSD lança Caiado, mas a legenda não está enraizada no coração e na mente dos eleitores de modo que eles votem, apoiem e vejam Ronaldo Caiado como viável. Além disso, os líderes locais do partido não o apoiam manifestamente. Na maior parte dos estados, as lideranças do PSD estão com Lula ou com Bolsonaro. O eleitor olha isso e não acredita que seja algo para valer. A ausência de partidos enraizados torna essas legendas plataformas frágeis para promover candidaturas pouco conhecidas no país. Jimmy Carter não poderia ter sido presidente no Brasil: era um governador pouco conhecido de um estado do Sul. Clinton também era governador de outro estado do Sul. Trump, quando apareceu em 2016, também não seria. A fragmentação e a fragilidade dos partidos na sociedade explicam a dificuldade de viabilizar uma candidatura de terceira via.

A oposição acusa Lula de lançar um pacote eleitoreiro nas últimas semanas, com medidas sobre a taxa das blusinhas, a escala 6 por 1, o fim das bets e uma nova fase do Desenrola. Faz sentido?
São coisas diferentes, que têm em comum o objetivo de ampliar a renda disponível e responder a reivindicações de parcelas importantes da sociedade. O fim da escala 6 por 1, por exemplo, é apoiado por mais de 65% das pessoas, assim como o fim da taxa das blusinhas. O calendário estreito da campanha permite a acusação de oportunismo. Mas, de qualquer forma, há utilidade nessas medidas. Há também uma “jurisprudência”, entre aspas: Bolsonaro lançou vários benefícios durante a campanha de 2022, como os auxílios para caminhoneiros e taxistas e o aumento dos benefícios sociais.

Esse é o poder da caneta?
Isso faz parte do que a literatura de ciência política chama de vantagem do incumbente, o presidente que disputa a eleição sentado na cadeira. Ele também tem as desvantagens do incumbente: está presidindo o país em um momento em que a maioria da população se sente muito machucada pelo endividamento e pelos preços elevados, sobretudo dos alimentos.

Esses benefícios se transformam em votos?
Às vezes se transformam. Todos esses benefícios focam muito a base da sociedade, de zero a dois salários mínimos e, no caso do Imposto de Renda, de dois a cinco. Foi na faixa de zero a dois salários que Lula ganhou lá atrás. Entre dois e cinco, teve um desempenho um pouco melhor, embora perdendo. Por que Lula está hoje, em média, oito pontos abaixo das pesquisas de 2022? Onde está perdendo apoio? Sobretudo nas camadas de menor renda e no Nordeste. Esses pacotes têm mais o objetivo de resgatar eleitores do que de gerar novos eleitores. O que derrota o incumbente é a defecção, a perda de eleitores do pleito passado. Bolsonaro perdeu a eleição sobretudo porque perdeu um grande contingente de eleitores de 2018 no estado de São Paulo, no Sudeste.

“Uma crise no Supremo é uma crise no núcleo do Estado brasileiro. Não tem como não desgastar o chefe de Estado, que é Lula”

A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal prejudica mais Lula ou Flávio?
O Supremo é um dos três Poderes e tem a aura de guardião da Constituição. Teve um protagonismo muito grande, junto com o Tribunal Superior Eleitoral, na eleição de 2022 e, depois, no processo da trama golpista e na condenação de Jair Bolsonaro. Independentemente das ligações reveladas ou imputadas a [Daniel] Vorcaro com ministros e candidatos, há dois fatores que chamam a atenção. Primeiro: no presidencialismo, o presidente é chefe de governo e chefe de Estado. Uma crise no Supremo é uma crise no núcleo do Estado brasileiro. Não tem como não desgastar o chefe de Estado, que é Lula. Segundo: um personagem bastante negativado pelas revelações dessa crise é o ministro Alexandre de Moraes. Ele foi o principal protagonista da condenação de Bolsonaro e é visto pela sociedade como seu algoz. Bolsonaro é o antagonista de Lula. A população percebe o algoz de Bolsonaro como aliado de seu antagonista político. Isso atinge de forma mais contundente o presidente Lula.

As revelações sobre o filme “Dark Horse” e seu financiamento, envolvendo Daniel Vorcaro, tiveram sobre Flávio um impacto menor do que o esperado?
Até aqui, o impacto foi menor do que se estimava. Os números de Flávio respondem à pergunta. Lá atrás, ele foi momentaneamente mais prejudicado pelo afastamento e conflito com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, e pelas revelações em torno do filme e de seu financiamento. Até agora, o prejuízo dessa associação para Flávio não tem sido relevante.

Nomes do mercado financeiro chegaram a demonstrar apoio a Renan Santos e agora mostram maior proximidade com Flávio, embora também procurem ouvir Lula. Por que há tanta dificuldade da Faria Lima em apostar em Lula 4.0?
É a questão fiscal. Parte do mercado avalia Lula principalmente pelas dúvidas em relação ao seu comportamento nessa área, pelo grau de intervenção do Estado que pode adotar no próximo governo e, de forma geral, pela orientação econômica de um novo mandato. Flávio não tem um “Posto Ipiranga”, como seu pai tinha em 2018 [Paulo Guedes]. Mas tem alguns elementos e nomes que parecem ao mercado mais compatíveis com o que considera o melhor encaminhamento da questão fiscal no próximo mandato. Essas questões ficarão mais claras no segundo turno.

Qual é seu prognóstico para o segundo turno?
O segundo turno ainda não está resolvido. Se fosse hoje, meu prognóstico seria de vitória de Flávio Bolsonaro, independentemente da pequena vantagem de Lula nas pesquisas. Pelo mesmo motivo: a abstenção. Mas o segundo turno não é hoje. Depois de domingo à noite, começarão a se estabelecer rapidamente novas coalizões e entendimentos. Vamos ver em que direção isso vai. Se Flávio chegar à frente de Lula, começará a temporada do segundo turno saudado como franco favorito.

Se sair à frente no primeiro turno, Flávio tende a começar o segundo turno na liderança?
Meu prognóstico é que, vindo à frente de Lula, ele começará a campanha do segundo turno na primeira colocação, liderando a disputa. Mas é uma disputa de três semanas. Muita água pode correr sob a ponte. Temos de aguardar.

O eleitor pode esperar propostas e soluções mais claras no segundo turno?
Com a campanha focada em apenas dois candidatos, será um período curto, mas muito intenso. Haverá debates que não ocorreram entre Lula e Flávio no primeiro turno e mais questionamentos dos diversos setores da sociedade, demandando clareza sobre propostas e planos de governo. Quem vai ganhar é o eleitor. O Brasil que teremos a partir de 2027 ficará mais claro em uma campanha de segundo turno. Com apenas dois candidatos e paridade na televisão e no rádio, a população poderá compreender melhor o significado de cada um para o mandato que começa em 2027.

Lula e Flávio fizeram conexão com o que a sociedade espera do próximo presidente?
Esta eleição é sobre mudança. Quarenta por cento dos eleitores querem mudança total na forma como as coisas estão sendo feitas. Dezessete ou dezoito por cento querem continuidade de tudo como está, e 41% querem manter algumas coisas e mudar outras. A campanha de Flávio foi bem posicionada nessa direção. Mudança é seu lema. O desafio de Lula é contrapor a isso evidências das mudanças que fez e expor perspectivas de mudanças futuras. Sua campanha não fez isso neste primeiro turno.

A campanha de Flávio conseguiu fazer?
Flávio fez sua parte como oposicionista. A campanha de Lula não trouxe a questão da mudança para sua narrativa. Em 2014, 70% dos brasileiros queriam mudança. A campanha de Dilma Rousseff foi capaz de convencer a maioria, por uma margem estreita, de que ela era mais capaz de fazer mudanças do que Aécio Neves.

Lula pode ser capaz de convencer o eleitor de que consegue representar essa mudança?
A campanha de Lula não trouxe a temática da mudança para o centro de seu posicionamento, de sua narrativa. Há um governo aprovado por 46% ou 47% e desaprovado por cerca de 50%. Mas há uma grande quantidade de brasileiros, cerca de 80%, que querem mudança total ou parcial. É disso que trata a eleição: quem tem mais condições de fazer as mudanças que as pessoas esperam. Flávio tem cumprido sua parte como oposicionista. A campanha de Lula não tem se posicionado sobre essa questão central.



Fonte: NeoFeed

Administrador

About Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

    Cadastre seu e-mail e receba notícias e novidades em primeira mão!