Negócios

Com oferta somada de R$ 24,85 bi de Itaú e BTG, Fiagros “colhem” recorde de captação


Nem a escalada da inadimplência no campo e nem o volume jamais visto de recuperações judiciais no agronegócio afastaram os investidores dos Fiagros. De janeiro a agosto, as ofertas desses Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais somaram R$ 9,9 bilhões, segundo dados da Anbima, superando os R$ 8,85 bilhões captados em todo o ano de 2023, até então o recorde da indústria.

O volume de 2026 já é 54% maior que os R$ 6,43 bilhões captados em todo o ano passado. Na comparação com o mesmo período de 2025, quando os Fiagros levantaram R$ 2,26 bilhões, o valor é 339% maior. O número de ofertas acompanha o movimento: foram 85 emissões encerradas em oito meses, contra 57 em todo o ano de 2025.

E o recorde ainda deve ser ampliado, agora pelas mãos dos grandes bancos. Itaú e BTG Pactual estão com ofertas de Fiagros em distribuição que podem somar até R$ 24,85 bilhões, mais que o dobro de tudo o que a indústria captou até agosto. Só no valor-base, as duas emissões equivalem a mais de um quinto do patrimônio de R$ 65,8 bilhões dos Fiagros.

O salto acontece no pior momento de crédito do agronegócio em anos. Segundo a Serasa Experian, o setor fechou 2025 com 1.990 pedidos de recuperação judicial, alta de 56,4% sobre 2024 e o maior número desde o início da série, em 2021. Dois anos antes, em 2023, tinham sido 534.

O ritmo não diminuiu em 2026: no primeiro trimestre foram 474 pedidos, 21,9% a mais que no mesmo período do ano anterior. A inadimplência mostra o mesmo quadro. No Banco do Brasil, maior financiador do campo, os atrasos acima de 90 dias na carteira do agro chegaram a 6,27% no segundo trimestre de 2026, quase o dobro dos 3,49% de um ano antes e quase cinco vezes o 1,32% do segundo trimestre de 2024.

Os números, porém, não assustam os gestores. Executivos de algumas das principais casas de Fiagros consultados pelo NeoFeed dizem que o cenário não é de terra arrasada, e sim de oportunidade. “A crise não é do segmento. É uma crise de crédito”, afirma Guilherme Grahl, sócio responsável pela estratégia de agro da Valora Investimentos.

Grahl conta que o aperto nas condições do Banco do Brasil, que passou a exigir mais garantias e a ser mais seletivo nas renovações, deixou produtores com menos acesso a financiamento e abriu espaço para o mercado de capitais. “Tem muita oportunidade na mesa. A gente avalia 20 casos para aprovar um”, complementa Grahl.

A própria Valora é um exemplo. Neste ano, a gestora concluiu duas captações de sua linha Agro Pré, que somam R$ 1,13 bilhão. A primeira, encerrada em março, levantou R$ 662,7 milhões e é a maior oferta de Fiagro concluída no ano até agosto. A segunda, finalizada em agosto, captou R$ 467,8 milhões, dos quais R$ 374,2 milhões vieram de 3.692 pessoas físicas.

O que tem destravado a captação, segundo os gestores, é a forma como os novos fundos são montados, com estruturas de cotas subordinadas. Na cota sênior, os investidores recebem primeiro, enquanto os da subordinada, em geral o originador da carteira ou a própria gestora, absorvem as primeiras perdas.

“É isso que tem dado segurança para os investidores aportarem nas novas ofertas”, diz Vitor Duarte, diretor de investimentos da Suno Asset, com R$ 1,1 bilhão em Fiagros.

Em um fundo que a Suno estrutura com um parceiro, por exemplo, 20% das cotas serão subordinadas, 20% mezanino e 60% sênior. “O investidor da sênior só vai perder se a carteira for destruída em mais de 40%”, afirma Duarte.

É o mesmo modelo adotado pelos bancos. O Itaú abriu em agosto a distribuição do Itaúba Fiagro, de até R$ 4,85 bilhões, voltado a investidores qualificados. O grupo fica com R$ 256 milhões em cotas subordinadas, e o regulamento exige subordinação mínima de 4,5%.

As cotas sênior têm remuneração-alvo de 91,5% a 93% do CDI, isenta de IR, em séries de dois a cinco anos, e o fundo vai comprar ativos originados pelo próprio Itaú Unibanco e pelo Itaú BBA Trading.

O BTG Pactual iniciou em setembro uma oferta de R$ 10 bilhões, que pode dobrar para R$ 20 bilhões com lote adicional, restrita a investidores profissionais. A subordinação, bancada pelo próprio BTG, é de 1%, e a remuneração-alvo vai de 92% do CDI, na classe com liquidez diária, a 97% do CDI, na de dez anos.

LCA perde espaço

O movimento sinaliza uma mudança na forma como os bancos financiam o campo: em vez de captar com Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), passam a usar os fundos. Isso porque, quando capta com LCA e empresta o dinheiro ao produtor, o crédito fica na própria carteira do banco, o que o obriga a reservar capital próprio para cobrir eventuais perdas.

“Em vez de captar via LCA, que consome a Basileia, o banco capta via um Fiagro, que é um veículo muito mais flexível”, diz Amanda Coura, sócia da Zera.

No Fiagro, os créditos passam a pertencer ao fundo, e os cotistas assumem a maior parte do risco. O banco fica apenas com a fatia subordinada, de 1% no caso do BTG e de cerca de 5% no do Itaú, e é sobre ela que calcula o capital exigido.

Para Grahl, da Valora, a mudança é mais de forma do que de destino. “Esses bancos já originam muita operação no agro. É uma busca de eficiência de capital”.

Os dados do Ministério da Agricultura mostram o tamanho dessa migração. Em agosto, o estoque de Cédulas de Produto Rural (CPR) chegou a R$ 600,3 bilhões, acima dos R$ 561,3 bilhões em LCAs, o principal instrumento de captação dos bancos para o setor.

Em 2022, a proporção era inversa: R$ 126,3 bilhões em CPR contra R$ 217,3 bilhões em LCA. Os Fiagros cresceram ainda mais rápido: o patrimônio dos fundos saltou de R$ 2,9 bilhões para R$ 65,8 bilhões no período, uma alta de mais de 2.100%.

Há ainda um fator menos visível por trás da captação. A maior parte do dinheiro novo foi para Fiagros negociados em balcão, os chamados cetipados, e não para fundos listados em bolsa.

Das 85 ofertas encerradas em 2026, só cinco puderam ser identificadas como de fundos listados em levantamento do NeoFeed com dados da Anbima e da CVM, e ao menos 69% do volume captado foi para fundos de balcão.

A diferença está na vitrine. No balcão, as cotas não têm cotação exibida na tela da corretora, e o investidor vê apenas o valor patrimonial do fundo. “As plataformas têm buscado produtos que mostram uma volatilidade menor”, afirma Duarte, da Suno.

Segundo ele, o risco aparece na hora da venda: sem um mercado líquido, quem precisa sair do fundo antes do prazo costuma aceitar um desconto maior que o de um fundo listado.

A isenção para pessoa física completa o apelo. “O investidor gosta de um produto que paga rendimento todo mês, isento de imposto de renda”, afirma Amanda.

Procurados pela reportagem, Itaú e BTG não se manifestaram até a publicação da reportagem.



Fonte: NeoFeed

Administrador

About Author

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Newsletter

    Cadastre seu e-mail e receba notícias e novidades em primeira mão!